Quando a “guerra ao extremismo” se transforma em guerra à democracia

 

Vejo com profunda preocupação a nova ofensiva anunciada por Marco Rubio contra aquilo que o governo Trump resolveu classificar como “extremismo de esquerda”. Em uma conferência que reuniu representantes de mais de sessenta países, o secretário de Estado apresentou a violência política da esquerda como uma ameaça transnacional e defendeu maior cooperação internacional para combatê-la. O problema é que as categorias empregadas são deliberadamente vagas, enquanto as evidências apresentadas para justificar tamanha mobilização permanecem frágeis. A própria cobertura do encontro registrou que os episódios de violência atribuídos à esquerda continuam sendo menos numerosos e menos letais do que os relacionados à extrema direita nos Estados Unidos.

Não considero irrelevante nenhum ato de violência política, venha de onde vier. Uma democracia deve investigar crimes concretos, responsabilizar seus autores e proteger a população. Contudo, existe uma diferença decisiva entre enfrentar organizações que praticam atos violentos e transformar uma tradição inteira do pensamento político em suspeita. Quando autoridades misturam deliberadamente marxismo, comunismo, socialismo democrático, movimentos trabalhistas, manifestações antirracistas e terrorismo, deixam de combater crimes e começam a perseguir ideias.

É justamente essa confusão que me assusta. A expressão “extremismo de esquerda” pode funcionar como um recipiente onde cabe tudo aquilo que incomoda o poder: sindicatos, movimentos populares, estudantes, ambientalistas, organizações antirracistas, defensores dos direitos dos imigrantes e críticos do capitalismo. Primeiro, retira-se desses sujeitos a condição de adversários políticos legítimos. Depois, associa-se sua atuação ao terrorismo. Por fim, apresentam-se vigilância, perseguição, sanções e restrições de direitos como medidas necessárias à segurança nacional.

A história já conhece esse método. Durante o macartismo, cidadãos norte-americanos foram perseguidos, interrogados, demitidos e colocados em listas negras não por crimes comprovados, mas por suas opiniões, amizades e atividades políticas. Artistas, professores, sindicalistas e cientistas passaram a ser tratados como inimigos internos. O medo substituiu o debate; a denúncia sem provas ocupou o lugar da justiça.

Por isso, considero simbólico que o governo volte a mobilizar o fantasma do marxismo enquanto procura apresentar a direita radical como defensora natural da civilização. O contraste é evidente. Trump concedeu perdões ou comutações relacionados aos condenados pelo ataque de 6 de janeiro de 2021, inclusive membros dos Proud Boys, e especialistas advertiram que a medida poderia fortalecer organizações extremistas e supremacistas brancas. A democracia que enxerga uma ameaça existencial em movimentos sociais, mas relativiza grupos responsáveis por violência política, não está sendo neutra: está escolhendo quais extremismos tolerar e quais dissidências silenciar.

Essa seletividade revela que o problema talvez não seja a violência em si. O que realmente incomoda é a existência de movimentos capazes de questionar a concentração da riqueza, a exploração do trabalho, o racismo estrutural e o poder das corporações. Uma organização supremacista pode ser tratada como expressão excêntrica da liberdade de opinião, enquanto um movimento de trabalhadores passa a ser apresentado como ameaça à civilização. É uma concepção de liberdade na qual o nazista pode existir, mas o socialista deve pedir desculpas por pensar.

Também não considero casual que essa ofensiva ideológica seja intensificada em um momento de dificuldades internas e externas. Embora a confiança dos consumidores norte-americanos tenha apresentado alguma melhora em julho de 2026, continua abaixo do nível registrado um ano antes, e os preços elevados ainda pressionam as famílias. A retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã elevou novamente os preços do petróleo e dos combustíveis, ameaçando agravar o custo de vida. Ao mesmo tempo, a escalada militar prossegue, atingindo infraestruturas e ampliando os riscos de uma guerra regional sem solução política visível.

Quando um governo não consegue oferecer segurança econômica, paz ou esperança, a invenção de um inimigo interno torna-se politicamente conveniente. Em vez de explicar por que os alimentos e os combustíveis pesam no orçamento, fala-se do “perigo comunista”. Em vez de enfrentar a desigualdade, acusa-se quem denuncia a desigualdade. Em vez de discutir os custos humanos e econômicos da guerra, cria-se uma cruzada ideológica. A velha estratégia consiste em transformar o descontentamento social em medo e o medo em obediência.

A ofensiva de Rubio também possui uma dimensão internacional que não pode ser ignorada. Ao incentivar governos aliados, sobretudo na América Latina, a adotar a mesma lógica, Washington procura exportar sua definição de inimigo. Nossa região conhece bem as consequências dessa política. Em nome do combate ao comunismo, os Estados Unidos apoiaram golpes de Estado, ditaduras militares, torturas, desaparecimentos e perseguições a movimentos populares. Sempre que a democracia latino-americana ameaçou tocar nos interesses econômicos das elites locais e estrangeiras, a palavra “liberdade” foi utilizada para justificar intervenções profundamente autoritárias.

Não quero, portanto, que governos latino-americanos importem essa nova versão da Guerra Fria. Nossos países precisam enfrentar a fome, a desigualdade, o desemprego, a emergência climática e a violência. Não necessitam de listas ideológicas elaboradas em Washington nem de aparelhos de vigilância dirigidos contra sindicatos, partidos, movimentos camponeses e organizações indígenas.

A ciência também nos ensina o perigo do policiamento ideológico. É necessário, entretanto, tratar essa história com precisão. Albert Einstein assumiu posições socialistas e publicou uma defesa explícita do socialismo. Robert Oppenheimer conviveu com militantes comunistas, apoiou causas progressistas e foi perseguido durante o ambiente macartista, mas não está comprovado que tenha pertencido formalmente ao Partido Comunista. Carl Sagan defendeu responsabilidade social, investimento público, paz e proteção aos mais vulneráveis, embora tenha evitado se definir simplesmente como socialista. Dizer que todos os grandes cientistas do século XX foram comunistas seria historicamente exagerado; reconhecer que muitos deles se aproximaram de valores socialistas, humanistas e pacifistas é mais correto, e politicamente mais significativo.

Isso demonstra que o pensamento científico floresce onde existe liberdade para duvidar, questionar autoridades e contestar dogmas. A ciência não é automaticamente de esquerda, mas sua ética entra em conflito com governos que substituem evidências por propaganda e transformam divergência em crime. Quem teme perguntas incômodas frequentemente acaba temendo também cientistas, professores, jornalistas e movimentos sociais.

O caso de Jeffrey Epstein expõe, por sua vez, outra face da sociedade norte-americana: a capacidade de homens ricos e influentes circularem durante anos entre elites políticas, empresariais e acadêmicas enquanto praticavam ou facilitavam crimes gravíssimos. Mas não encontrei evidência confiável de que Marco Rubio tenha frequentado a ilha de Epstein. Posso está enganado, porém, não preciso repetir uma acusação não comprovada para denunciar a hipocrisia do sistema. O escândalo verdadeiro, e documentado, está na rede de prestígio, dinheiro e proteção que permitiu a Epstein permanecer socialmente aceito por tanto tempo. Uma crítica à mentira do poder não deve depender de outra afirmação sem provas.

É justamente essa diferença que desejo preservar. Não quero combater a manipulação da extrema direita com boatos, mas com memória histórica, fatos e organização política. A crítica perde força quando exagera; recupera sua potência quando demonstra, com rigor, a contradição entre o discurso democrático e as práticas autoritárias.

Para mim, uma democracia verdadeira não é aquela que permite aos poderosos escolher quais ideias podem existir. Democracia significa garantir que comunistas, socialistas, liberais, conservadores e outras correntes possam disputar publicamente os rumos da sociedade, desde que respeitem os direitos fundamentais e não pratiquem crimes. Ideias devem ser enfrentadas com ideias; atos violentos, com investigação e devido processo legal. Quando uma corrente política inteira é tratada como ameaça à segurança nacional, já não estamos falando de defesa da democracia, mas da preparação de um Estado de exceção.

A pergunta decisiva, portanto, é esta: quem define o que significa ser “radical”? Para o trabalhador exausto, radical pode ser a jornada desumana. Para a família que não consegue comprar alimentos, radical é a concentração de riqueza. Para os povos atingidos por bombardeios, radical é a guerra. Para quem vive sob o racismo, radical é uma sociedade que proclama igualdade enquanto distribui violência segundo a cor da pele.

Eu não aceito que a defesa de saúde pública, educação, direitos trabalhistas, justiça racial, soberania e paz seja transformada em extremismo. Extremista é naturalizar a fome em meio à abundância. Extremista é proteger supremacistas enquanto se criminalizam movimentos populares. Extremista é bombardear outros países em nome da paz. Extremista é chamar de liberdade um sistema no qual o capital pode atravessar fronteiras, mas seres humanos e ideias precisam ser vigiados.

A ofensiva de Marco Rubio deve ser recebida com atenção e resistência democrática. O objetivo não pode ser defender cegamente qualquer organização que se apresente como de esquerda, mas impedir que crimes isolados ou categorias vagas sejam utilizados para perseguir toda oposição social. A democracia só merece esse nome quando protege também aqueles que questionam os fundamentos econômicos e políticos da ordem existente. Caso contrário, “liberdade” será apenas a palavra cerimonial utilizada pelo poder para esconder o medo que sente de quem ainda ousa contestá-lo.

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