A República do Quintal
Na cidade
de Santa Eulália do Norte, onde os prédios cresciam mais depressa do que as
árvores e os automóveis pareciam disputar entre si quem buzinava com maior
ressentimento, morava o senhor Anselmo Valverde.
Sua casa
era uma sobrevivente.
Espremida
entre uma farmácia de vinte e quatro horas e um edifício de quinze andares
chamado Residencial Jardim das Acácias, embora não houvesse uma única acácia no
terreno, a casa de Anselmo resistia com suas paredes azuis, telhas antigas e um
quintal tão vivo que chegava a parecer uma afronta ao planejamento urbano.
Naquele
quintal havia três mangueiras, um cajueiro torto, dois pés de limão,
bananeiras, ervas medicinais, roseiras, samambaias e uma velha goiabeira que,
segundo Anselmo, tinha mais juízo do que boa parte dos vereadores da cidade.
Havia
também galinhas, um peru, um pavão, um gato, um cachorro, dois coelhos e um
porco chamado Sócrates.
Anselmo
tinha sessenta e três anos, era funcionário aposentado dos Correios e
conversava com os animais desde que percebeu que os humanos raramente escutavam
até o fim.
Todas as
manhãs, acordava às cinco horas, não por disciplina, mas porque o galo
Demóstenes considerava uma fraqueza moral dormir depois do amanhecer.
Cocoricó!
Já ouvi,
Demóstenes.
Cocoricó!
O sol não
vai desistir de nascer se você faltar ao serviço.
Demóstenes
inclinava a cabeça, ofendido.
Cocoricó!
Está
certo. Perdoe-me. Sem você, o universo entraria em colapso.
Satisfeito
com o reconhecimento de sua importância cósmica, o galo seguia pelo quintal com
o peito estufado, fiscalizando as galinhas como um pequeno coronel coberto de
penas.
Anselmo
preparava o café, colocava uma cadeira debaixo da mangueira e se sentava para
observar a cidade acordando. O barulho dos ônibus chegava da avenida.
Motocicletas atravessavam o sinal vermelho. Pessoas caminhavam olhando para os
telefones, como se temessem encontrar o mundo real pela frente.
O
cachorro Trovão, que tinha medo de chuva, fogos de artifício, sacolas plásticas
e da própria sombra, deitava-se aos pés de Anselmo.
Bom dia, Trovão.
O
cachorro abanava o rabo.
Você dormiu bem?
Trovão
espreguiçava-se.
Eu também. Sonhei que a prefeitura
transformava a avenida num parque.
Trovão
levantava as orelhas.
Não faça essa cara. Era um sonho, não uma
proposta de governo.
O gato
Baltazar acompanhava a conversa de cima do muro. Era magro, cinzento e possuía
a expressão permanente de quem havia descoberto a verdade sobre o universo, mas
não pretendia compartilhá-la.
E você, Baltazar? O que acha da cidade?
O gato
fechava os olhos.
Entendo. Uma crítica profunda.
Baltazar
abriu um dos olhos.
Para você, toda propriedade é provisória, não
é mesmo?
O gato
saltou do muro, entrou pela janela da cozinha e roubou um pedaço de queijo.
Anarquista, murmurou Anselmo. Rejeita a propriedade privada, sobretudo
quando é dos outros.
No centro
do quintal vivia Sócrates, o porco. Anselmo lhe dera esse nome porque o animal
passava boa parte do dia com o focinho na terra, como se procurasse respostas
enterradas.
Sócrates
era rosado, gordo e capaz de escapar de qualquer cercado. Anselmo reforçava a
porteira; ele encontrava uma abertura. Anselmo fechava a abertura; ele cavava
um túnel. Certa vez, depois de três dias de trabalho, Anselmo construiu o que
chamou de “prisão definitiva”.
Na manhã
seguinte, Sócrates estava dormindo debaixo da goiabeira.
Como você saiu?
O porco
grunhiu.
Não me venha com metáforas.
Sócrates
tornou a grunhir.
A liberdade é uma necessidade da alma?
O porco
começou a mastigar uma goiaba caída.
Muito
bonito. Mas a liberdade da sua alma acabou com minha horta de alface.
Sócrates
olhou para ele com tamanha serenidade que Anselmo se sentiu julgado.
Está bem, disse. A alface também não me pertencia. Eu apenas a
cultivei, reguei e protegi durante dois meses.
Sócrates
engoliu a goiaba.
Você é um filósofo muito conveniente.
Os
coelhos, Simone e Sartre, moravam num cercado amplo perto das bananeiras.
Simone era curiosa, rápida e gostava de cavar. Sartre permanecia longos minutos
parado, olhando para a parede.
O que ele está fazendo? perguntou Anselmo certa manhã.
Simone
mexeu o nariz.
Pensando na existência?
Sartre
continuou imóvel.
E chegou a alguma conclusão?
O coelho
virou-se lentamente e começou a comer uma folha de couve.
Compreendo. A existência precede a salada.
O pavão
Narciso habitava o quintal como se tivesse sido nomeado ministro da Beleza.
Abria a cauda diante de qualquer superfície refletora: uma janela, uma panela,
uma poça d’água. Caminhava com a solenidade dos que confundem aparência com
mérito.
Você é bonito, Narciso, dizia Anselmo. Mas não precisa fazer campanha o dia inteiro.
O pavão
abria ainda mais a cauda.
Sim, eu sei. Sua beleza fala por si.
Narciso
girava lentamente.
Embora fale bastante.
O peru
Napoleão, por sua vez, tinha o temperamento de um general aposentado contra a
própria vontade. Perseguia visitantes, atacava vassouras e declarava guerra a
objetos vermelhos. Uma vez avançou contra o carteiro, que se refugiou em cima
do portão.
Anselmo, tire esse monstro daqui!
Napoleão não é um monstro. É apenas
territorialista.
Ele está
tentando comer minha calça!
É uma divergência de fronteiras.
Depois
desse episódio, as correspondências passaram a ser lançadas por cima do muro.
Anselmo considerava aquilo uma homenagem involuntária à sua antiga profissão.
Durante
muitos anos, a República do Quintal viveu em relativa paz. Não havia eleições
porque Demóstenes certamente tentaria fraudar o resultado, Narciso venceria
pelas aparências e Napoleão daria um golpe antes da apuração. Anselmo,
portanto, exercia uma espécie de monarquia constitucional, limitada pela
vontade dos bichos e pelo orçamento da ração.
A crise
começou quando uma construtora comprou as três casas vizinhas.
O
corretor apareceu numa terça-feira. Chamava-se Astolfo Brandão, usava sapatos
brilhantes e carregava uma pasta na qual parecia guardar o destino dos outros.
Senhor Anselmo, sua propriedade está
localizada numa área de enorme potencial imobiliário.
Sempre achei que estivesse localizada na Rua
das Palmeiras.
O senhor
não compreendeu. Estamos oferecendo uma oportunidade extraordinária.
Quanto?
Astolfo
disse o valor. Era muito dinheiro. Dinheiro suficiente para Anselmo comprar um
apartamento, viajar, trocar de carro e talvez adquirir uma televisão tão grande
que pudesse assistir à destruição do mundo em tamanho natural.
E o que vocês fariam aqui?
Um empreendimento moderno, com duas torres,
estacionamento subterrâneo, academia, espaço gourmet e área verde.
Anselmo
olhou para as mangueiras, o cajueiro e a goiabeira.
Área verde?
Sim. Teremos vasos ornamentais no hall.
Sócrates,
que escutava atrás da cerca, soltou um grunhido prolongado.
Até o porco achou pouco , disse Anselmo.
O progresso exige escolhas, senhor Anselmo.
Geralmente feitas por quem não sofrerá as
consequências.
Astolfo
sorriu com a paciência profissional de quem estava acostumado a esperar que o
dinheiro concluísse a conversa.
Pense com carinho.
Naquela
noite, Anselmo reuniu os animais debaixo da mangueira. Colocou a proposta da
construtora sobre uma cadeira.
Recebi uma oferta para vender a casa.
Demóstenes
cacarejou indignado. Napoleão estufou o peito. Trovão escondeu-se atrás de
Anselmo, temendo que a palavra “oferta” fosse algum tipo de trovão
desconhecido. Narciso abriu a cauda, supondo tratar-se de uma cerimônia em sua
homenagem.
Baltazar
bocejou.
Eu poderia comprar um apartamento, continuou
Anselmo. Teria elevador, porteiro,
piscina e uma varanda gourmet.
Sócrates
grunhiu.
Você tem razão. Nunca compreendi exatamente o
que uma varanda precisa fazer para ser considerada gourmet.
As
galinhas iniciaram uma discussão simultânea. Anselmo tentou organizar a
assembleia.
Uma de cada vez!
Nenhuma
obedeceu.
Isso aqui está parecendo uma sessão da Câmara
Municipal.
Demóstenes
subiu numa pedra e cantou. As galinhas se calaram.
Obrigado, presidente.
Anselmo
respirou profundamente.
Quero saber o que vocês pensam.
Trovão
colocou a cabeça sobre seus joelhos.
Você ficaria comigo, claro.
Baltazar
caminhou sobre a proposta, sentou-se em cima do valor oferecido e começou a
lamber uma pata.
Seu parecer é pela ocupação imediata do
capital?
O gato
ignorou a pergunta.
Narciso
mirou-se na janela.
Você exige um espelho no novo apartamento.
Anotado.
Napoleão
bicou o papel.
Voto contrário, com declaração de guerra à
construtora.
Sócrates
aproximou-se lentamente. Cheirou o documento, olhou para Anselmo e comeu o
canto da folha.
Isso não é uma votação, Sócrates.
O porco
mastigou outro pedaço.
Também não é uma crítica ao capitalismo. É
apenas falta de educação.
Apesar da
comicidade da assembleia, Anselmo passou a noite acordado. O dinheiro
resolveria muitos problemas. A casa precisava de reparos, o telhado apresentava
goteiras e cuidar dos animais exigia esforço e despesas. Seus joelhos doíam. A
cidade avançava. Talvez resistir fosse apenas uma forma elegante de adiar o
inevitável.
Por volta
das três da madrugada, saiu para o quintal.
A lua
iluminava as folhas das mangueiras. Trovão veio acompanhá-lo. Baltazar apareceu
sobre o muro. Simone e Sartre dormiam juntos. Napoleão, Narciso e Demóstenes
mantinham as cabeças escondidas sob as asas. Sócrates ressonava com a
tranquilidade de quem não tinha prestações a pagar.
Anselmo
encostou a mão no tronco da goiabeira.
O que devo fazer?
A árvore
não respondeu.
Ele
esperou.
Todo mundo diz que as árvores são sábias, mas
vocês nunca ajudam nas decisões práticas.
Uma
goiaba madura caiu ao seu lado.
Isso significa que devo vender?
Silêncio.
Que devo ficar?
As folhas
se moveram com o vento.
Vocês são tão ambíguas quanto os oráculos
antigos.
Anselmo
pegou a goiaba e se sentou no chão. Percebeu, então, que talvez a árvore não
respondesse porque a pergunta estava errada. Não se tratava apenas de vender ou
não vender. Tratava-se de saber o que fazia uma vida valer a pena.
Durante
décadas, ele acreditara que possuía aquela casa. Na verdade, a casa também o
possuía. As árvores guardavam a infância de sua filha, as conversas com sua
falecida esposa, os almoços de domingo, os temporais, as secas e as pequenas
alegrias que ninguém registra em escritura. Os animais dependiam dele, mas ele
também dependia deles para não esquecer que a vida era feita de relações, não
apenas de propriedades.
Na manhã
seguinte, Astolfo voltou.
Então, senhor Anselmo, podemos fechar o
negócio?
Anselmo
entregou-lhe a proposta. Faltava um canto, mastigado por Sócrates.
Agradeço, mas não vou vender.
Posso saber por quê?
Anselmo
olhou para o quintal.
Divergências entre o valor e o preço.
—Não
entendi.
Foi exatamente por isso que o senhor fez a
oferta.
Astolfo
ainda tentou argumentar, mas Napoleão apareceu atrás dele. O corretor recuou.
Controle seu peru!
Eu controlo o imóvel. O peru controla a
política externa.
Astolfo
saiu apressado, perseguido até o portão.
A
construtora levantou seus prédios nos terrenos vizinhos. Durante meses, o
quintal sofreu com poeira, martelos e máquinas. Quando as torres ficaram
prontas, os novos moradores descobriram que suas janelas davam para aquele
pequeno território verde.
As
crianças começaram a pedir aos pais para conhecer os animais. Idosos
aproximavam-se do muro para sentir o cheiro das plantas. Gente que morava a
poucos metros do chão e passava os dias cercada por concreto começou a visitar
Anselmo aos sábados.
Ele criou
a “Universidade Livre do Quintal”. Não havia mensalidade nem diploma. As aulas
eram ministradas pelos bichos.
Demóstenes
ensinava que cada um acredita ser responsável pelo nascimento do sol.
Narciso
ensinava que a beleza, quando não encontra um espelho, inventa uma plateia.
Napoleão
ensinava que todo poder, quando não encontra limites, acaba perseguindo
carteiros.
Baltazar
ensinava que a independência é importante, mas não impede ninguém de roubar
queijo.
Trovão
ensinava que a coragem não consiste em deixar de sentir medo, mas em continuar
abanando o rabo apesar dele.
Simone e
Sartre ensinavam que pensar sobre a existência é necessário, embora uma folha
de couve também tenha seu valor.
Sócrates
ensinava que algumas cercas existem para proteger, outras para prender, e que a
sabedoria talvez esteja em aprender a distingui-las.
Quanto a
Anselmo, ensinava que uma cidade não deveria ser apenas um lugar onde se
constroem edifícios, mas um espaço onde diferentes formas de vida possam
permanecer.
Certa
tarde, uma menina perguntou:
Seu Anselmo, os animais falam mesmo com o
senhor?
Ele
pensou por alguns segundos.
Falam.
E por que não falam comigo?
Porque você ainda está esperando que falem
como gente.
A menina
ficou em silêncio. Sentou-se perto de Sócrates e passou a observá-lo. O porco
levantou o focinho, encarou-a demoradamente e soltou um grunhido.
Ele disse
alguma coisa? perguntou Anselmo.
Acho que
disse que está com fome.
Excelente.
Você já compreende quase toda a filosofia.
Naquele
instante, Demóstenes cantou, embora ainda faltassem duas horas para o pôr do
sol. Narciso abriu a cauda. Napoleão atacou uma mangueira. Baltazar roubou um
pedaço de bolo. Trovão latiu para uma sacola. Os coelhos devoraram as últimas
folhas de couve, e Sócrates, aproveitando a distração geral, entrou novamente
na horta.
Anselmo
olhou para aquela confusão e sorriu.
Do outro
lado dos muros, a cidade corria atrás do futuro. Dentro do quintal, porém, a
vida não tinha pressa. Ela crescia, cacarejava, latia, florescia, derrubava
vasos, comia alfaces e fazia perguntas.
E talvez
fosse isso que os seres humanos, tão ocupados em dominar o mundo, ainda
precisassem aprender: viver não é avançar o tempo inteiro.
Às vezes,
viver é apenas encontrar um lugar à sombra, dividir uma goiaba e escutar
atentamente o que um porco tem a dizer.
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