O Brasil entre a soberania e a servidão voluntária: uma reflexão sobre dependência, poder e futuro nacional

 

Confesso que, ao tomar conhecimento de que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, teria agradecido a Flávio Bolsonaro pela disposição de colocar uma eventual equipe de transição presidencial brasileira à disposição do governo dos Estados Unidos, não consegui interpretar esse gesto apenas como mais um episódio da disputa política contemporânea. O que me atravessou foi um sentimento histórico. Uma espécie de déjà vu latino-americano. Como se, por trás das palavras diplomáticas e dos gestos protocolares, ressurgisse uma velha questão que atravessa a história do Brasil desde a colonização: afinal, queremos ser uma nação soberana ou apenas uma periferia obediente dos centros de poder mundial?

Não se trata de nacionalismo vazio nem de antiamericanismo automático. Trata-se de reconhecer que nenhum país se torna soberano quando suas elites políticas, econômicas e intelectuais passam a enxergar a tutela externa como condição de governabilidade. O que está em jogo não é apenas uma relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, mas uma determinada concepção de país: a ideia de que o Brasil não precisa pensar por si mesmo porque outros já pensam por nós.

Ao refletir sobre isso, retorno inevitavelmente a Celso Furtado. Em Formação Econômica do Brasil, ele demonstrou que o subdesenvolvimento não era uma etapa atrasada do desenvolvimento, mas uma estrutura historicamente produzida pela inserção subordinada dos países periféricos na economia mundial. O Brasil não ficou para trás por acaso; ele foi integrado ao capitalismo internacional de maneira dependente. Exportamos açúcar, ouro, café, soja, minério, petróleo, dados e, cada vez mais, nossa própria capacidade de decisão política.

Para Furtado, o maior desafio do desenvolvimento nacional não era apenas econômico, mas cultural e político: construir a capacidade coletiva de imaginar um futuro próprio. Talvez seja justamente essa capacidade que esteja sendo corroída quando parcelas importantes das elites brasileiras parecem considerar natural submeter decisões estratégicas nacionais ao escrutínio ou à aprovação de potências estrangeiras.

Florestan Fernandes foi ainda mais contundente. Ao analisar o capitalismo dependente brasileiro, ele mostrou como nossas classes dominantes desenvolveram uma característica peculiar: sua incapacidade histórica de liderar um projeto nacional autônomo. Diferentemente das burguesias clássicas europeias, nossas elites frequentemente preferiram associar-se ao capital internacional e às potências hegemônicas a assumir os riscos de uma verdadeira revolução nacional e democrática.

Essa "burguesia dependente", como a definiu Florestan, não vê a soberania como valor estratégico, mas como obstáculo aos seus próprios interesses. O resultado é uma sociedade permanentemente tensionada entre modernização econômica e subordinação política. Crescemos, mas dependemos. Exportamos, mas obedecemos. Produzimos riqueza, mas importamos poder.

Darcy Ribeiro talvez tenha sido quem expressou essa tragédia com maior força poética e política. Para ele, o Brasil sempre viveu o conflito entre duas possibilidades históricas: tornar-se uma grande civilização original ou permanecer uma sociedade reflexa, organizada em função dos interesses externos. Darcy compreendia que o maior risco para o país não era a pobreza material, mas a perda da capacidade de sonhar coletivamente.

Quando leio declarações que sugerem colocar estruturas de Estado brasileiro à disposição de governos estrangeiros, lembro-me da advertência de Darcy: o Brasil corre o risco de se tornar uma "província próspera e espiritualmente colonizada". Talvez a colonização contemporânea já não precise de tropas, bandeiras ou ocupações militares. Ela pode ocorrer através da dependência tecnológica, financeira, informacional e simbólica.

Foi justamente isso que Ruy Mauro Marini procurou explicar por meio da teoria marxista da dependência. Em sua análise, o desenvolvimento dos países centrais e o subdesenvolvimento dos países periféricos não são fenômenos separados, mas processos complementares. A riqueza do centro depende estruturalmente da dependência da periferia.

Marini chamou esse processo de "superexploração", mecanismo pelo qual sociedades periféricas transferem riqueza, trabalho e recursos para os centros de acumulação global. Hoje, poderíamos ampliar sua análise: além de commodities e trabalho, exportamos também dados, atenção, subjetividade e autonomia política. A dependência deixou de ser apenas econômica; tornou-se tecnológica, cognitiva e informacional.

Nesse sentido, José Luís Fiori oferece uma contribuição decisiva ao demonstrar que o sistema internacional nunca foi organizado pela cooperação, mas pela competição permanente entre Estados e impérios. Não existe, segundo Fiori, uma governança global neutra. Existem disputas de poder.

Os Estados Unidos, a China, a Rússia e a União Europeia não atuam prioritariamente em função de princípios universais, mas de seus próprios interesses estratégicos. Esperar que qualquer potência estrangeira coloque o desenvolvimento brasileiro acima de seus objetivos nacionais é, no mínimo, ingenuidade geopolítica.

Ao mesmo tempo, a análise de Noam Chomsky ajuda a compreender como os mecanismos contemporâneos de influência funcionam menos pela coerção direta e mais pela fabricação do consenso. As formas atuais de dependência não operam apenas através de golpes militares ou invasões, mas também por meio da construção de narrativas, do controle dos fluxos informacionais, da influência diplomática, das plataformas digitais e da captura simbólica das elites locais.

Talvez o aspecto mais preocupante de toda essa discussão seja perceber que a questão colonial não desapareceu; ela apenas mudou de forma. O colonialismo do século XXI não exige governadores-gerais enviados de fora. Ele pode funcionar perfeitamente através de elites nacionais convencidas de que sua própria soberania é dispensável.

Isso não significa defender isolamento, autarquia ou hostilidade internacional. Ao contrário. Um Brasil soberano deve manter relações intensas com Estados Unidos, China, Europa, África e América Latina. Mas relações entre iguais pressupõem autonomia decisória, capacidade tecnológica, independência produtiva e projeto nacional.

Por isso, acredito que a resposta a esse cenário não pode ser apenas moral ou eleitoral. Ela deve ser estratégica. Precisamos reconstruir uma agenda nacional baseada em alguns pilares fundamentais: soberania tecnológica; fortalecimento da universidade pública; reindustrialização baseada em ciência e inovação; integração latino-americana; democratização da comunicação; proteção dos recursos naturais estratégicos; fortalecimento das instituições republicanas; e construção de uma cultura política comprometida com a autonomia nacional.

Mais do que nunca, precisamos recuperar uma pergunta que parecia esquecida: para que serve o Brasil? Serve para ser uma plataforma exportadora de commodities? Um mercado consumidor periférico? Um fornecedor de recursos estratégicos para grandes potências? Ou serve para construir um projeto civilizatório próprio?

Ao final, percebo que a questão central não é saber se corremos o risco de virar colônia. O mais inquietante é perceber que parte significativa de nossas elites parece não considerar mais a condição colonial como um problema.

Ainda assim, recuso-me a aceitar essa fatalidade histórica. Continuo acreditando, com Darcy Ribeiro, que o Brasil é uma das poucas nações do mundo que ainda pode inventar um futuro diferente de seu passado. Mas isso exige recuperar algo que nenhuma potência estrangeira pode nos conceder: a coragem de acreditar que somos capazes de governar a nós mesmos.

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