Baile do Mestre Cupijó: Uma Celebração Vibrante dos Ritmos Amazônicos em Fortaleza
No dia
27/04/2025, tive o privilégio de assistir ao encerramento do espetáculo
"Baile do Mestre Cupijó: Herança Musical do Baixo-Tocantins" na CAIXA
Cultural Fortaleza. Desde o dia 24/04/2025, a banda paraense encantou o público
com apresentações que homenageiam o legado do compositor Mestre Cupijó,
destacando ritmos como Siriá, Banguê e Mambo .
O show
foi uma verdadeira imersão na cultura amazônica, combinando músicas dos álbuns
"Siriá" (1974) e "Mestre Cupijó e Seu Ritmo" (1975) com
composições autorais da banda. As projeções visuais de Luan Rodrigues (Kambô
Art) enriqueceram a experiência, transportando-nos ao universo do
Baixo-Tocantins .
Além das
apresentações, a programação incluiu oficinas de percussão amazônica e uma
exposição interativa sobre a trajetória de Mestre Cupijó, proporcionando uma
conexão mais profunda com a cultura da região .
A energia contagiante do espetáculo e a
dedicação dos músicos em preservar e celebrar a herança musical amazônica
tornaram esta noite inesquecível. É inspirador ver
como a tradição pode ser mantida viva e relevante através de iniciativas como
esta.
Quem foi Mestre Cupijó?
Mestre
Cupijó, nascido
José Osvaldo Albano Cordeiro em 1936, em Cametá, no Pará, cresceu
imerso nas tradições afro-indígenas da região. Filho de músicos, desde cedo
respirou o som das folias, dos batuques, das ladainhas e dos carimbós.
Ainda
jovem, Cupijó passou a estudar música formalmente, mas nunca deixou de lado a
sonoridade ancestral que ouvia nas margens do Tocantins. Mais do que um simples
músico, ele foi maestro, pesquisador de ritmos e inovador: fundiu gêneros
tradicionais como o lundu, o siriá, o carimbó e os
cânticos afro-católicos das irmandades negras, criando o que viria a ser
conhecido como o Siriá de Mestre Cupijó.
A Cultura do Baixo Tocantins
O Baixo
Tocantins é uma região que compreende municípios como Cametá, Mocajuba,
Baião, Limoeiro do Ajuru, entre outros. Ali, a cultura é uma amálgama viva de
tradições indígenas, africanas e europeias. Cada festa, cada batucada, cada
reza revela essa rica tapeçaria.
- Ritmos: O carimbó, o siriá
e o banguê dominam as festas populares. Os tambores ecoam chamados
ancestrais, enquanto flautas, saxofones e violões introduzem elementos
modernos sem apagar o passado.
- Religiosidade: As irmandades de negros
(como a Irmandade do Rosário) preservam rituais, vestes e ladainhas de
matriz africana cristianizada.
- Festas: A celebração do Divino
Espírito Santo, o Círio de Nossa Senhora do Rosário e os arrastões
culturais são expressões de fé coletiva e resistência histórica.
Mestre
Cupijó bebeu de todas essas fontes — e ao invés de congelá-las no tempo, fez
delas música viva, pulsante, dançante.
A Invenção do Siriá
A maior
marca de Cupijó foi o desenvolvimento do Siriá enquanto gênero musical
moderno. Ao registrar álbuns como "Siriá" (1975) e "Mestre
Cupijó e Seu Ritmo", ele popularizou essa sonoridade, levando para os
bailes e rádios do Pará um ritmo irresistível, que misturava:
- a percussão pesada dos
batuques,
- melodias simples e
dançantes,
- letras de temática cotidiana
(amor, festas, rios, trabalho).
O Siriá
se tornaria a base para muitos artistas da música paraense posterior e é
considerado um dos "troncos" que, junto com o carimbó e o brega,
formaria a moderna música pop da Amazônia.
Legado e Influência
Apesar de
ter sido, durante décadas, um tesouro quase exclusivo do Pará, Mestre Cupijó
começou a ser redescoberto no Brasil e no mundo a partir dos anos 2010,
especialmente após o relançamento de seus discos em vinil por selos
internacionais interessados em música tropical.
Sua obra
inspirou novos artistas a se voltarem para as raízes amazônicas, impulsionando
o movimento conhecido como "novo carimbó" ou "música
paraense contemporânea", com nomes como Dona Onete, Pinduca, Félix
Robatto e Lia Sophia.
Mas mais
do que isso, Cupijó permanece como símbolo da força criadora do povo ribeirinho
— um povo que transforma dor em dança, saudade em festa, e memória em som.
Conclusão
Falar de Mestre
Cupijó é falar de muito mais do que música. É evocar um modo de vida que
resiste às margens dos grandes centros urbanos, que canta seus santos, seus
amores e seus sofrimentos. É entender que a cultura popular do Baixo Tocantins
não é estática: é um rio caudaloso, feito de muitos encontros, sempre renovado
pela alegria, pela fé e pela luta do seu povo.
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