PL 2159/2021: A destruição legalizada do meio ambiente
Introdução
Em
tramitação no Senado após aprovação relâmpago na Câmara dos Deputados, o PL
2159/2021 — que dispõe sobre o licenciamento ambiental no Brasil —
representa um dos maiores retrocessos legislativos em matéria ambiental das
últimas décadas. Sob o pretexto de “desburocratizar” e “agilizar”
processos, o projeto afrouxa a legislação vigente, desmonta salvaguardas
socioambientais e compromete gravemente o futuro sustentável do país.
Se
aprovado, o PL significará não apenas uma flexibilização administrativa, mas a
institucionalização da negligência ambiental como política de Estado. Este
artigo propõe uma análise crítica da proposta, suas origens, seus perigos e os
interesses que a sustentam.
1. O que diz o PL 2159/2021
O
projeto, de autoria do ex-deputado Mauro Pereira (MDB-RS) e relatado na Câmara
por Neri Geller (PP-MT), propõe um novo marco para o licenciamento ambiental,
substituindo as diretrizes da Resolução Conama nº 01/1986 e normas estaduais
por uma lei federal.
Dentre os
principais pontos, destacam-se:
- A dispensa automática de
licenciamento para diversas atividades consideradas de “baixo impacto”,
inclusive obras de infraestrutura viária e agrícola;
- A possibilidade de
autodeclaração do empreendedor, substituindo estudos prévios por um
sistema baseado na confiança empresarial;
- A criação de modalidades
simplificadas e prazos fixos e curtos para a análise dos
pedidos, mesmo que complexos;
- A insegurança jurídica
ao permitir que Estados e municípios adotem normas ainda mais permissivas;
- A ausência de salvaguardas
específicas para povos indígenas, quilombolas e comunidades
tradicionais.
Trata-se
de um projeto elaborado sob medida para atender aos interesses do
agronegócio, da mineração, do setor de construção civil e de empreendimentos
energéticos, em detrimento da proteção ambiental, do princípio da precaução
e da justiça socioambiental.
2. A ideologia do “entrave ambiental” e o falso
dilema entre desenvolvimento e proteção
Os
defensores do PL sustentam que o licenciamento ambiental é burocrático, caro
e um obstáculo ao desenvolvimento. Essa retórica, no entanto, esconde
uma visão neoliberal e extrativista que reduz o meio ambiente a recurso e o
desenvolvimento a lucro imediato.
É um falso
dilema: desenvolvimento e proteção ambiental não são excludentes,
desde que haja planejamento, transparência e responsabilidade social. A experiência
internacional mostra que países que priorizam a sustentabilidade obtêm melhores
indicadores econômicos de longo prazo, atraem mais investimentos e garantem
maior qualidade de vida à população.
O que o
PL faz é inverter a lógica do licenciamento: em vez de proteger o meio
ambiente e as comunidades, protege o empreendedor.
É um projeto que transforma o direito ambiental em exceção, e a regra passa
a ser o risco — não a precaução.
3. Os riscos concretos do PL 2159/2021
Caso
aprovado, o projeto pode gerar impactos devastadores:
- Desmatamento e degradação
ambiental acelerada, sobretudo na Amazônia e no Cerrado, ao
facilitar a aprovação de grandes empreendimentos sem estudos adequados;
- Graves impactos sobre
comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, que ficarão ainda mais
expostas à violência fundiária, à contaminação das águas e ao colapso
climático;
- Aumento de tragédias
socioambientais,
como Mariana (2015) e Brumadinho (2019), que ocorreram apesar de processos
de licenciamento — e que agora poderão acontecer sem nenhuma barreira
preventiva;
- Insegurança jurídica, já que a proposta
fragmenta competências e retira o caráter vinculante dos órgãos ambientais
e de consulta popular.
Além
disso, o PL viola acordos internacionais dos quais o Brasil é
signatário, como a Convenção 169 da OIT e o Acordo de Escazú, que
garantem o direito à informação, à participação e à consulta prévia das
populações afetadas.
4. Quem perde e quem ganha com o PL
Perde o
meio ambiente. Perdem os povos originários. Perde a democracia. Perde a
sociedade.
Ganha um
pequeno grupo de empresários e políticos ruralistas, interessados em maximizar
lucros e consolidar o domínio sobre terras públicas e territórios tradicionais.
Ganha o capital que vê o país como fronteira de exploração, e não como
território de vida e cultura.
O PL é
expressão de uma aliança perigosa entre negacionismo ambiental,
autoritarismo político e rentismo predatório.
É, portanto, um projeto ideológico travestido de modernização.
5. Como resistir: alternativas e mobilização social
A luta
contra o PL 2159/2021 é também a luta por um projeto de país que respeite os
ciclos da vida e os direitos das futuras gerações. Algumas ações urgentes:
- Pressionar o Senado a
rejeitar ou modificar profundamente o projeto, especialmente por meio de
articulação da sociedade civil, organizações indígenas, ambientalistas,
juristas e cientistas;
- Fortalecer o pacto
federativo ambiental, com Estados e municípios comprometidos com a
preservação e a justiça socioambiental;
- Ampliar a educação ambiental
crítica,
nas escolas, universidades e movimentos sociais;
- Garantir participação
popular efetiva em todas as etapas dos licenciamentos, como preveem o Acordo de
Escazú e a própria Constituição.
Conclusão: o licenciamento é um direito, não um
obstáculo
Licenciar
um empreendimento não é um favor do Estado ao meio ambiente — é uma
obrigação legal e ética diante da sociedade.
O licenciamento existe para evitar a destruição irreversível, prevenir
tragédias e garantir que o desenvolvimento seja justo, responsável e inclusivo.
O PL
2159/2021 representa uma ameaça ao futuro do país e uma afronta ao pacto
democrático construído desde 1988.
Se
queremos um Brasil com floresta em pé, águas limpas, povos vivos e democracia
ambiental, devemos dizer não a esse retrocesso — com firmeza, consciência e
mobilização.
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