RESENHA CRÍTICA – DESIGUAIS E DIVIDIDOS, DE SÉRGIO COSTA
Introdução
Publicado
em 2019, o livro Desiguais e Divididos representa uma contribuição
significativa aos estudos sobre desigualdade social na América Latina,
propondo uma abordagem crítica, multidimensional e transdisciplinar. O autor, Sérgio
Costa, sociólogo brasileiro radicado na Alemanha e professor da Freie Universität
Berlin, alia uma sólida base empírica à reflexão teórica sofisticada, buscando
superar visões simplistas que reduzem a desigualdade à sua dimensão econômica.
Estrutura e Argumento Central
Dividido
em capítulos temáticos, o livro propõe um olhar integrado sobre as formas de
desigualdade — econômicas, raciais, de gênero, territoriais e simbólicas
— evidenciando como elas se entrelaçam e se reproduzem mutuamente. O autor
parte do pressuposto de que, para compreender as desigualdades latino-americanas,
é preciso considerar tanto suas raízes históricas (como o colonialismo e a
escravidão) quanto suas expressões contemporâneas, como o neoliberalismo, o
racismo estrutural e a precarização do trabalho.
A obra
articula três grandes eixos de análise:
- A produção da desigualdade: não apenas como um
fenômeno derivado da economia, mas como resultado de práticas sociais,
culturais e institucionais de exclusão.
- A naturalização das
hierarquias:
analisando como discursos racializados, de gênero e de classe legitimam e
perpetuam desigualdades.
- A fragmentação das lutas
sociais:
Costa chama atenção para a forma como os processos de segmentação e
divisão dificultam a constituição de projetos coletivos emancipatórios.
Principais Contribuições
Uma das
maiores qualidades da obra está na sua crítica ao economicismo. Ao
contrário de muitas análises que reduzem a desigualdade a números de renda e
consumo, Costa enfatiza a importância da dimensão relacional e simbólica
da desigualdade: o modo como certas vidas são sistematicamente desvalorizadas,
estigmatizadas ou invisibilizadas em nome de uma suposta “ordem social”.
Outro
ponto relevante é a atenção dada à divisão social e política das lutas.
O autor mostra como movimentos sociais muitas vezes se organizam de maneira
fragmentada — feministas, antirracistas, sindicalistas — o que pode dificultar
ações convergentes. Ainda assim, ele reconhece a potência desses movimentos na
resistência à hegemonia neoliberal e à exclusão estrutural.
Além
disso, Costa contribui para a internacionalização do debate sobre
desigualdade, dialogando com autores como Nancy Fraser, Pierre Bourdieu, Aníbal
Quijano e outros teóricos do Sul Global. Isso enriquece a análise e evita o
provincianismo muitas vezes presente nas leituras eurocêntricas.
Limites e Possíveis Críticas
Embora a
abordagem de Costa seja ampla e densa, o livro pode ser desafiador para
leitores iniciantes devido ao seu vocabulário teórico e à ausência de uma
linearidade argumentativa em alguns capítulos. Em certos momentos, a análise
assume um tom mais ensaístico do que sistemático, o que pode dificultar a
apreensão de seu eixo central para leitores não familiarizados com a sociologia
crítica.
Além
disso, embora o autor problematize a fragmentação das lutas sociais, ele
poderia aprofundar mais o debate sobre possíveis estratégias de articulação
política entre diferentes movimentos, indo além do diagnóstico.
Conclusão
Desiguais
e Divididos é uma obra
essencial para quem deseja compreender a complexidade da desigualdade na
América Latina para além dos indicadores tradicionais. Com sensibilidade
crítica, Sérgio Costa oferece um diagnóstico contundente e interdisciplinar,
contribuindo não só para o campo das ciências sociais, mas também para a
formulação de políticas públicas e ações coletivas.
Ao
mostrar que a desigualdade não é apenas um problema econômico, mas um
fenômeno profundamente enraizado em práticas sociais, representações simbólicas
e estruturas políticas, o livro nos convida a repensar os caminhos para uma
sociedade mais justa, plural e solidária.
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