O mundo é só movimento e desejo?
Carrego essa pergunta como quem tateia no escuro. Se o mundo fosse apenas
movimento, seria pura física: corpos que se deslocam, energias que se
transformam, partículas que colidem. Se fosse apenas desejo, seria pura
psicanálise: faltas que jamais se completam, fantasmas que nos perseguem,
objetos que sempre escapam. Mas o que me inquieta é justamente essa junção —
movimento e desejo — como se fossem as duas engrenagens que sustentam a vida e
a história.
Olho ao redor e vejo tudo em movimento: os
fluxos da cidade, os algoritmos que não cessam de rodar, a economia que nunca
dorme. Mas esse movimento, sozinho, seria vazio. Ele precisa de um vetor, de
uma direção, de uma chama. E essa chama é o desejo. Desejo de consumir, de
amar, de ser reconhecido, de ocupar o espaço do outro, de criar algo que ainda
não existe. É ele quem faz o movimento ganhar sentido.
Na minha própria vida, percebo como o desejo me
arrasta. Desejo ser amado, e por isso me movo em direção ao outro, às vezes
atropelando minhas próprias fronteiras. Desejo estabilidade, e por isso me
prendo em trabalhos que não me alimentam. Desejo liberdade, e por isso me
revolto contra tudo que me aprisiona. O movimento que faço não é neutro: ele
carrega sempre essa falta que insiste em não se resolver.
A psicanálise, sobretudo em Lacan, ensinou-me
que o desejo nunca é de um objeto específico, mas da própria busca. O que
quero, no fundo, é continuar desejando. O movimento se repete porque o desejo
nunca se apazigua. O real sempre escapa. Assim, o mundo não é apenas o espaço
onde me movo, mas o teatro onde represento infinitamente esse desencontro entre
o que espero e o que encontro.
Na sociologia, aprendi que esse jogo não é só
individual: os desejos são fabricados, moldados, direcionados. O capitalismo
não sobrevive sem desejo. Ele não apenas o explora, ele o produz. Desejamos o
que nunca precisávamos, movimentamo-nos em direção ao consumo que promete
preencher o vazio e, ao mesmo tempo, o renova. A lógica do mercado é essa dança
infinita de movimento e desejo, sempre frustrada e sempre recomeçada.
No fundo, suspeito que o mundo é também pausa,
silêncio, morte, recusa. O desejo não explica tudo, o movimento não esgota a
vida. Há o instante do imobilismo, quando o corpo não reage, quando o desejo
não fala. Há o tempo da espera, da contemplação, da desistência. O mundo é
também o intervalo entre dois desejos, o cansaço entre dois movimentos.
Se o mundo fosse só movimento e desejo, talvez
fosse insuportável: viveríamos numa engrenagem que nunca se detém, queimados
por um fogo que não apaga. Mas como seres humanos, ainda somos atravessados por
memórias, símbolos, vínculos. Talvez seja aí que entra a possibilidade da
liberdade: escolher, ainda que por instantes, não se mover, não desejar — ou
desejar de outro modo.
E então me pergunto: será que minha vida é
feita apenas desse vaivém? Ou posso inventar um desejo que não seja apenas
falta, mas criação? Um movimento que não seja apenas fuga, mas encontro? Talvez
a resposta esteja menos em afirmar o que o mundo é, e mais em ousar interromper
o fluxo para respirar e perguntar: o que eu quero fazer do meu movimento, do
meu desejo?
Indicações de Leitura
- Sigmund Freud – Além do
Princípio do Prazer
Onde Freud elabora a tensão entre pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Thanatos), mostrando que nem tudo se resume ao movimento do desejo, mas também à repetição e à destruição. - Jacques Lacan – O
Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
Lacan aprofunda a noção de desejo, o vazio estrutural do sujeito e a busca incessante que move a vida psíquica. - Gilles Deleuze & Félix
Guattari – O Anti-Édipo
Uma crítica à psicanálise tradicional e à sociedade capitalista, onde o desejo não é falta, mas potência produtiva, fluxo criador. - Zygmunt Bauman – Vida
para Consumo
Uma análise sociológica da contemporaneidade, mostrando como o consumo transforma o desejo em mercadoria e o movimento humano em performance. - Clarice Lispector – Água
Viva
Obra literária que encarna o movimento e o desejo como experiência estética, pulsação e linguagem viva.
Filmes
- "In the Mood for
Love" (2000, Wong Kar-Wai)
Um dos mais belos retratos do desejo contido, suspenso entre movimento e imobilidade, onde o que não se consuma move mais do que o que se realiza. - "Her" (2013, Spike
Jonze)
A história de um homem que se apaixona por um sistema de inteligência artificial, revelando como o desejo pode ultrapassar fronteiras humanas e tecnológicas. - "Persona" (1966,
Ingmar Bergman)
Uma reflexão intensa sobre identidade, silêncio, desejo e os movimentos psíquicos invisíveis entre duas mulheres. - "Amor à Flor da
Pele" (Wong Kar-Wai, 2000)
Desejo como espera, movimento suspenso e melancolia.
Séries
- "Mad Men"
(2007-2015)
Retrata a publicidade nos anos 1960 como a fábrica do desejo, mostrando como a sociedade molda o que desejamos e para onde nos movemos. - "The Leftovers"
(2014-2017)
Explora o luto e a falta como motores de desejo, revelando como o mundo continua em movimento mesmo após uma perda inexplicável. - "Black Mirror"
(2011– )
Cada episódio é um ensaio sobre desejo e movimento na era tecnológica — seja pela busca incessante de prazer, reconhecimento ou poder. - "Euphoria" (2019–
)
Um mergulho contemporâneo nas pulsões adolescentes, onde o desejo e o movimento (às vezes autodestrutivo) organizam a experiência da juventude.
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