A vida, morte e legado de Hermeto Pascoal

 

Falar de Hermeto Pascoal é falar de uma experiência sensorial que nunca coube apenas na música. Desde que tive contato com sua obra, sempre senti que ele era menos um “músico” e mais um fenômeno natural: um rio caudaloso, uma tempestade, um pássaro que canta sem pedir licença. A vida de Hermeto foi marcada pela ousadia de transformar qualquer som em música — o chiado da chaleira, o coaxar dos sapos, o barulho do vento — e com isso ele me ensinou que a criação é um ato de liberdade radical.

Sua morte, inevitável como de todos nós, não apagou essa vitalidade. Pelo contrário, senti que ela só ressaltou a intensidade com que ele viveu. Hermeto parecia já habitar um plano em que vida e morte não se opõem, mas se entrelaçam no improviso cósmico da existência. Ele dizia que a música está em todo lugar, e talvez, ao partir, tenha apenas ampliado o alcance dessa escuta.

O legado que ele nos deixa não é apenas técnico — embora tenha sido um dos maiores improvisadores e arranjadores do século, reconhecido no Brasil e no mundo. Seu legado é ético e estético: a recusa em se submeter a rótulos, a coragem de inventar sem medo do ridículo, a convicção de que a música nasce do povo, da rua, da vida cotidiana. Escutá-lo foi sempre um convite a desaprender as convenções, a abrir o ouvido e a alma para o inesperado.

Quando penso em Hermeto hoje, penso na responsabilidade que nos cabe: continuar ouvindo o mundo com a generosidade que ele nos ensinou. Fazer da música, mas também da política, da ciência e das relações humanas, um lugar de invenção e de respeito à diversidade. Porque, se Hermeto fez da vida uma sinfonia, cabe a nós impedir que o silêncio do conformismo abafe a riqueza dessa herança.

 

 Sugestões de leitura e escuta

  • Sávio Araújo, Hermeto Pascoal: Universo Musical (biografia detalhada sobre sua trajetória).
  • José Miguel Wisnik, O Som e o Sentido (reflexão sobre música e invenção, em sintonia com a obra de Hermeto).
  • Álbum Mundo Verde Esperança (1999), um dos registros mais poderosos da fase madura de Hermeto.
  • Documentário O Som da Aura (2011), que retrata o processo criativo do músico.

 

 

Hermeto Pascoal: vida, morte, legado e a travessia filosófico-psicanalítica

Ao pensar Hermeto Pascoal pela lente da psicanálise, é impossível não associar sua obra à noção de pulsão criativa. Freud dizia que a pulsão é algo que não encontra repouso, que insiste em buscar satisfação — mesmo que em vias desviadas. Hermeto encarnava isso: sua música não era produto de planejamento frio, mas de uma energia incessante que fazia da improvisação um ato de elaboração. Onde outros viam ruído, ele encontrava significante; onde havia silêncio, ele inventava a passagem de um som para outro. Era como se sua obra nos lembrasse que a vida é também uma cadeia de associações livres, um fluxo em que a repetição não é prisão, mas campo de invenção.

Lacan, por sua vez, talvez dissesse que Hermeto fez do real — esse impossível de simbolizar — um espetáculo audível. Ao extrair música de panelas, água ou pássaros, ele não apenas mostrava que o real é atravessado pela linguagem, mas também nos convidava a suportar o inesperado. Cada improviso de Hermeto era uma lição ética: aceitar a desordem do mundo e transformá-la em criação.

Do ponto de vista filosófico, penso nele como um herdeiro de Heráclito e de Nietzsche. Heráclito dizia que o mundo é fluxo, rio que nunca se repete. Hermeto, ao improvisar, fazia desse fluxo sua morada. Nietzsche, ao propor o “espírito dionisíaco”, imaginava uma vida que se celebra na intensidade e no excesso. Hermeto, com sua barba branca e seu riso desarmado, parecia ser a encarnação brasileira dessa força dionisíaca, sempre afirmando a vida em todas as suas tonalidades.

 

Impacto na música brasileira e nas novas gerações

O impacto de Hermeto é visível em várias camadas da música brasileira:

·         Instrumentistas e compositores como Hamilton de Holanda, André Mehmari e Jovino Santos Neto assumem explicitamente a herança hermetiana, levando adiante a ideia de improviso como pesquisa e liberdade.

·         Bandas e coletivos experimentais em São Paulo, Recife e Fortaleza se inspiram na ousadia de Hermeto para cruzar jazz, música popular e sons eletrônicos. O Mestres da Improvisação, projeto realizado em Minas Gerais, é um exemplo direto de como sua pedagogia musical frutificou.

·         Educação musical: Hermeto sempre foi contrário à ideia de música engessada. Sua insistência em ensinar pela escuta e pela prática improvisada hoje inspira programas de formação musical alternativos, como oficinas de percussão popular e projetos sociais que trabalham a criação coletiva em periferias.

·         Internacionalmente, sua passagem por bandas como a de Miles Davis fez com que o “bruxo” se tornasse referência mundial para jovens jazzistas. Muitos deles relatam que a maior lição de Hermeto foi mostrar que a música não se separa da vida: cozinhar, caminhar ou respirar já é um ato musical.

Conclusão

Para mim, a morte de Hermeto não encerra, mas inaugura uma nova etapa: a de reconhecê-lo como mestre da invenção e da liberdade. Ele nos legou não apenas obras, mas uma ética da escuta. Uma escuta que pode servir tanto para a música quanto para a clínica, para a política e para a vida cotidiana: ouvir o que não se encaixa, acolher o ruído, transformar o caos em criação

 

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