A banalização da indiferença

 

Eu tenho a sensação de que vivemos um tempo em que a inteligência técnica avança e a sensibilidade recua. Não falo de falta de informação, nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, mas de algo mais profundo: a erosão da capacidade de se afetar pelo outro, de sustentar complexidade, de reconhecer que viver em sociedade exige mais do que opiniões rápidas e certezas barulhentas.

Quando chamo esse fenômeno de “imbecilidade humana”, não me refiro a uma incapacidade cognitiva, mas a uma postura existencial. É a recusa em pensar, em duvidar, em escutar. É o sujeito que transforma a vida em slogans, que substitui reflexão por pertencimento e que encontra conforto em explicações simples para problemas complexos.

Vejo isso na aversão crescente à cultura, à ciência e à educação, não como rejeição explícita apenas, mas como desvalorização cotidiana. A leitura vira perda de tempo. A universidade vira suspeita. O artista vira supérfluo. O pesquisador vira inimigo. Nesse cenário, o pensamento crítico passa a ser interpretado como arrogância, e a ignorância ganha status de autenticidade.

Há também uma dimensão econômica e simbólica. O chamado “espírito capitalista”, quando capturado pelo imaginário da ascensão individual a qualquer custo, produz sujeitos que se identificam mais com a figura do rico do que com a própria condição real. É o que a sociologia descreve como identificação aspiracional: pessoas que rejeitam direitos sociais porque imaginam que um dia não precisarão deles. O resultado é paradoxal, defendem estruturas que frequentemente aprofundam sua própria vulnerabilidade.

Essa lógica tem efeitos políticos diretos. Elegemos representantes que espelham afetos coletivos: medo, ressentimento, desejo de ordem, promessa de sucesso individual. A política deixa de ser projeto de sociedade e passa a ser disputa de identidades morais. O debate público empobrece, e a complexidade vira ameaça.

Outra contradição que me inquieta é a relação entre religião e prática ética. Não se trata de criticar a fé, ao contrário, reconheço sua potência simbólica, comunitária e subjetiva. Mas observo o crescimento de uma religiosidade que convive com intolerância, desprezo pelos vulneráveis e naturalização da desigualdade. Quando a religião perde a dimensão de cuidado e se torna instrumento de poder, ela deixa de humanizar e passa a legitimar exclusões.

Do ponto de vista psicológico, esse cenário dialoga com defesas primitivas. A simplificação do mundo reduz angústia. O preconceito organiza o caos. A certeza protege contra a dúvida. Em termos psicanalíticos, podemos pensar em clivagem: o mundo dividido entre bons e maus, nós e eles. Pensar dá trabalho. Sentir implica risco. A indiferença é mais fácil.

Mas eu não acredito que essa realidade seja irreversível.

Mudanças culturais não acontecem apenas por grandes eventos; elas se constroem em micropráticas. Na escola que ensina pensamento e não só conteúdo. Na política local que aproxima participação. Na produção cultural que cria linguagem para o que ainda não sabemos dizer. No trabalho clínico que ajuda pessoas a tolerar ambivalência, condição básica para a democracia.

Também precisamos recuperar o valor do comum. Direitos sociais não são caridade nem atraso; são tecnologias civilizatórias que reduzem sofrimento e ampliam possibilidades. Sociedades mais igualitárias tendem a ser mais estáveis, mais saudáveis e até mais inovadoras. Defender o coletivo não é negar o indivíduo, é reconhecer que ninguém se constrói sozinho.

Vejo potência nas pessoas que frequentam centros culturais, cinemas e teatros, festivais, debates comunitários. Esses lugares produzem algo que algoritmos não produzem: experiência compartilhada. E experiência compartilhada cria vínculo. Vínculo produz responsabilidade.

Talvez a pergunta não seja apenas “como mudar essa realidade”, mas “como não reproduzi-la”. Isso implica vigilância ética sobre nossas próprias simplificações, nossos próprios preconceitos, nossas pequenas indiferenças. A desumanização raramente começa no extremo; ela começa na naturalização.

Eu sigo acreditando que a sensibilidade é uma forma de inteligência. Que cultura não é luxo, é infraestrutura subjetiva. Que educação é menos sobre respostas e mais sobre sustentar perguntas. E que a política, no fundo, é uma disputa sobre que tipo de humanidade queremos cultivar.

Se a imbecilidade humana é a recusa em pensar e sentir, a resposta possível talvez seja insistir justamente nisso: pensar mais devagar, sentir mais fundo, e construir, coletivamente,  condições para que a complexidade não seja medo, mas horizonte.

 

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