Entre impérios e abismos: o risco que ronda o nosso tempo
A cada novo ataque unilateral dos Estados Unidos ao Irã, sem autorização
formal do Congresso, sinto um frio político que não é apenas geopolítico, é
existencial. Não se trata apenas de mais um episódio em uma longa história de
tensões no Oriente Médio. Trata-se da normalização de decisões militares
concentradas, da erosão de freios institucionais e da ampliação de uma lógica
imperial que insiste em sobreviver no século XXI.
Quando escuto declarações de autoridades
norte-americanas defendendo a necessidade de “controlar o Sul Global”, percebo
que não estamos diante de retórica isolada. Estamos diante de uma mentalidade
histórica: a ideia de que certas regiões existem como zonas de influência, como
territórios estratégicos a serem organizados segundo interesses externos. Essa
visão não é nova. Ela atravessa séculos de colonialismo, intervenções e guerras
por recursos.
O que me inquieta profundamente é a
naturalização dessa linguagem. Falar em “controlar” países soberanos revela uma
compreensão hierárquica do mundo. Não é cooperação, é tutela. Não é parceria, é
subordinação. E quando essa mentalidade se alia a poder militar
desproporcional, o risco não é apenas regional, é sistêmico.
Penso muito no Sul Global nesse contexto.
América Latina, África, partes da Ásia e do Oriente Médio sempre foram tratadas
como territórios estratégicos, ora para conter rivais, ora para garantir acesso
a recursos, ora para afirmar hegemonia. A história das intervenções externas
deixou marcas profundas: ditaduras apoiadas, economias reorganizadas à força,
populações deslocadas.
O problema é que o mundo de hoje não é o da
Guerra Fria. As tensões atuais envolvem múltiplas potências, alianças complexas
e tecnologia militar altamente destrutiva. Um ataque não autorizado pode
desencadear respostas em cadeia. O cálculo estratégico tornou-se mais perigoso
porque as margens de erro são menores.
Também me preocupa a fragilização
institucional. Quando o Executivo decide ações militares sem o devido debate e
autorização legislativa, a democracia se enfraquece internamente. E uma
democracia enfraquecida externamente tende a agir com menos previsibilidade. O
risco global cresce quando mecanismos de contenção institucional se tornam
formais, mas não efetivos.
Não acredito que a saída esteja apenas em
substituir uma liderança por outra, como se o problema fosse exclusivamente
pessoal. O desafio é estrutural. Existe uma cultura política que legitima
intervenções preventivas, sanções unilaterais e expansão de influência como
instrumentos normais de política externa. Enquanto essa lógica não for
questionada, a alternância de governos pode alterar o tom, mas não
necessariamente o fundamento.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a
responsabilidade interna dos Estados Unidos. Movimentos sociais, imprensa
independente, academia e parte do próprio sistema político têm papel central na
contenção de impulsos militaristas. Democracias se preservam quando suas
instituições funcionam e quando a sociedade civil permanece vigilante.
Do ponto de vista global, penso que o caminho
mais seguro passa por multilateralismo real. Não aquele de discursos
diplomáticos vazios, mas o que fortalece organismos internacionais, negociações
regionais e mecanismos coletivos de resolução de conflitos. Ataques unilaterais
minam a confiança internacional e ampliam a sensação de que regras valem apenas
para alguns.
Há também uma dimensão simbólica que me
inquieta: quando líderes falam em “recolonizar” ou “controlar”, ativam
fantasmas históricos em países que já viveram exploração e dependência. Isso
fortalece nacionalismos defensivos e alianças estratégicas anti-hegemônicas. Em
vez de estabilidade, produz polarização global.
Não estamos inevitavelmente destinados a uma
terceira guerra mundial. Mas a história mostra que guerras de grande escala
muitas vezes começaram com decisões consideradas pontuais, estratégicas,
limitadas. A crença no controle absoluto costuma preceder grandes erros de
cálculo.
Como cidadão do Sul Global, sinto que
precisamos fortalecer integração regional, autonomia tecnológica, cooperação
entre países periféricos e capacidade diplomática própria. Dependência
excessiva de qualquer potência nos torna vulneráveis às suas crises internas.
Também acredito que debates públicos sobre
política externa devem ser ampliados. Muitas decisões que moldam o futuro
global são tomadas longe do olhar da população. Quanto mais transparente for o
processo, menor a probabilidade de aventuras militares impulsivas.
O momento exige prudência e coragem
intelectual. Prudência para evitar escaladas irreversíveis. Coragem para
questionar discursos que naturalizam dominação como estratégia legítima.
O mundo já atravessa crises climáticas,
econômicas e tecnológicas profundas. Acrescentar a isso uma lógica permanente
de confronto militar é brincar com um limite que pode não ter retorno.
Não quero viver em um tempo em que guerras
sejam justificadas como instrumentos rotineiros de gestão global. Quero
acreditar que ainda é possível reorganizar relações internacionais a partir de
respeito à soberania, cooperação e negociação.
O risco existe. Mas também existe a
possibilidade de outro caminho. E esse caminho começa quando reconhecemos que
hegemonia imposta nunca produziu paz duradoura, apenas ciclos de ressentimento
e conflito.
Talvez
a pergunta central seja simples e urgente: que tipo de ordem global queremos
construir antes que seja tarde demais?
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