Memória, diáspora e pertencimento: o que aprendi com Os libaneses, de Murilo Meihy

 

Ler Os libaneses, de Murilo Meihy, foi para mim um encontro com a ideia de que a história não é apenas uma sequência de fatos,  é uma trama de vozes, silêncios e deslocamentos. O livro me atravessou porque fala de migração, mas, sobretudo, fala de pertencimento. E pertencimento é uma questão profundamente psíquica e política.

Meihy trabalha com história oral, e isso muda tudo. Não estamos diante de uma narrativa distante; estamos diante de memórias que respiram. Ao acompanhar as trajetórias de famílias libanesas no Brasil, percebo que migrar não é apenas mudar de lugar, é reorganizar identidade, língua, sonhos e perdas. Há sempre algo que fica e algo que nunca chega completamente.

Enquanto lia, pensei muito no Brasil como país de diásporas. Italianos, japoneses, sírios-libaneses, africanos trazidos pela violência da escravidão, migrantes internos. Somos um país feito de deslocamentos, mas muitas vezes contamos essa história de forma simplificada, celebrando o empreendedorismo e apagando a dimensão do sofrimento, do racismo, da precariedade inicial.

O livro rompe essa simplificação.

O que me marca é a tensão entre adaptação e preservação. As famílias constroem negócios, redes comunitárias, formas de sobrevivência, mas também carregam a nostalgia, a memória da guerra, o idioma que se transforma, a religião que se reinventa. Identidade aparece como algo móvel, nunca totalmente fixo, nunca totalmente dissolvido.

Na clínica, escuto ecos disso com frequência. Filhos de migrantes que vivem entre mundos, sentimentos de não pertencimento, conflitos geracionais sobre tradição e autonomia. Meihy mostra que essas experiências não são exceções individuais; são processos históricos compartilhados. O sofrimento ganha contexto.

Outro ponto que me atravessa é a ideia de narrativa como resistência. Registrar histórias de migrantes é impedir o apagamento. Quando alguém conta sua trajetória, ela deixa de ser apenas estatística. Isso me faz pensar no quanto memória é política. Quem tem sua história contada existe socialmente de outra maneira.

Também percebo como a figura do “imigrante empreendedor” pode funcionar como mito ambíguo. Por um lado, reconhece a capacidade de construção. Por outro, pode ocultar desigualdades estruturais e reforçar a ideia de que basta esforço individual. O livro tensiona essa narrativa ao mostrar redes de apoio, solidariedade comunitária e contextos históricos que possibilitaram certas trajetórias.

Nada acontece no vazio.

Há ainda uma dimensão afetiva que me tocou profundamente: a herança invisível. Gestos, culinária, formas de falar, expectativas familiares. A cultura se transmite não apenas por discursos, mas por atmosferas. Muitas vezes carregamos histórias que não vivemos diretamente, mas que organizam nossas escolhas. A psicanálise chamaria isso de transmissão psíquica intergeracional.

Ler Os libaneses me fez pensar no Brasil contemporâneo, especialmente no aumento recente de novos fluxos migratórios e no crescimento de discursos xenofóbicos. A obra lembra que o país que hoje debate fronteiras foi construído por pessoas que também chegaram de fora. A memória pode funcionar como antídoto contra o esquecimento seletivo.

Outra questão importante é a complexidade da assimilação. Integrar-se não significa desaparecer. Meihy mostra negociações constantes: manter costumes, adaptar práticas, reinventar identidades. Esse movimento me parece uma metáfora potente para a própria experiência brasileira, uma cultura que se forma por mistura, mas também por tensões.

Pessoalmente, saí do livro com a sensação de que pertencimento é sempre parcial. Todos habitamos fronteiras simbólicas: entre passado e presente, origem e escolha, família e autonomia. A história dos libaneses no Brasil torna visível algo universal, a busca por um lugar onde seja possível existir sem negar a própria história.

Também me chamou atenção a importância da escuta. A metodologia de história oral se aproxima, de certo modo, da clínica: criar espaço para que alguém conte sua trajetória com suas palavras. Há algo ético nisso. Não interpretar antes de ouvir. Não reduzir a experiência a categorias rápidas.

Num tempo de velocidade e simplificação, esse gesto é quase radical.

Penso que o livro nos convida a ampliar a ideia de identidade nacional. Ser brasileiro não é uma essência fixa; é um processo contínuo de encontros, conflitos e traduções. Reconhecer isso pode nos tornar menos defensivos e mais abertos à diferença.

No fundo, Os libaneses fala sobre memória como forma de existir. Sem memória, resta apenas o presente imediato. Com memória, surgem continuidade, crítica e possibilidade de transformação.

Fechei a leitura com uma imagem persistente: pessoas reconstruindo vida em território desconhecido, carregando histórias que não cabem em documentos oficiais. Essa imagem me lembra que toda sociedade é feita de narrativas em trânsito.

Talvez o maior aprendizado tenha sido este: migrar não é apenas atravessar fronteiras geográficas,  é atravessar versões de si. E ouvir essas travessias nos ajuda a compreender melhor quem somos, de onde viemos e que país ainda podemos construir.

 

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