Quando o fascismo conversa com o poder: minhas reflexões sobre Os Camisas Negras e a Esquerda Radical, de Michael Parenti
Ler Michael Parenti nunca é confortável. Em Os
Camisas Negras e a Esquerda Radical, senti novamente essa sensação de ter
o chão interpretativo deslocado. O livro questiona uma narrativa muito
difundida: a ideia de que o fascismo teria sido simplesmente uma irrupção
irracional, um desvio histórico isolado. Parenti propõe outra leitura, o
fascismo como resposta política e econômica às crises do capitalismo e às
ameaças vindas dos movimentos populares.
Essa perspectiva me fez pensar o quanto a
história costuma ser simplificada para se tornar palatável. Quando o fascismo
aparece apenas como loucura coletiva, evitamos discutir interesses, alianças e
estruturas. Parenti insiste que o fascismo teve apoio de elites econômicas, que
reprimiu violentamente sindicatos e organizações de esquerda e que reorganizou
a sociedade para preservar relações de poder. O foco muda: não é apenas
ideologia, é função.
Enquanto lia, percebi como essa análise ecoa
no presente. Em diferentes contextos, vemos discursos autoritários que prometem
ordem diante da crise, que transformam minorias em inimigos, que atacam
universidades, imprensa, cultura e direitos trabalhistas. O padrão não é
idêntico, mas a lógica é reconhecível. O medo social pode ser convertido em
ferramenta política.
O livro também tensiona a forma como a
esquerda é retratada historicamente. Muitas narrativas colocam movimentos
radicais como equivalentes ao fascismo, produzindo uma simetria que apaga
diferenças fundamentais. Parenti critica essa equiparação e argumenta que ela
serve para deslegitimar projetos de transformação social. Concorde-se ou não
com suas conclusões, a provocação é importante: quem define as categorias e com
quais interesses?
Na clínica, penso em como essa discussão se
relaciona com subjetividade. O fascismo não se sustenta apenas por coerção; ele
mobiliza afetos, medo, ressentimento, desejo de pertencimento, nostalgia de uma
ordem imaginada. Há uma promessa de proteção que seduz. Entender isso é
essencial, porque ninguém adere a discursos autoritários apenas por ignorância.
Há necessidades psíquicas em jogo.
Parenti me faz olhar para a dimensão material
dessas emoções. Crises econômicas, precarização, sensação de perda de status,
tudo isso cria terreno fértil para narrativas que oferecem culpados simples e
soluções duras. A complexidade é substituída por certeza. E a certeza, em
tempos de insegurança, é extremamente atraente.
Outro aspecto que me marcou foi a discussão
sobre memória histórica. Quando o fascismo é lembrado apenas como passado
distante, perde-se a capacidade de reconhecer seus mecanismos no presente. O
livro insiste que estudar essas experiências não é exercício acadêmico
abstrato; é ferramenta de vigilância democrática.
Isso me leva a pensar no Brasil e na América
Latina, regiões marcadas por ditaduras recentes, violência política e disputas
intensas sobre narrativa histórica. Quem controla a memória controla o
horizonte do possível. Se regimes autoritários são relativizados, abre-se
espaço para sua repetição simbólica.
Também me chamou atenção a crítica à ideia de
neutralidade. Parenti escreve a partir de posição assumida, e isso
frequentemente incomoda leitores acostumados à aparência de distanciamento. Mas
a leitura me fez refletir que toda interpretação histórica envolve escolhas. O
importante não é fingir ausência de posição, e sim explicitar critérios e
argumentos.
Na minha experiência, essa discussão se
conecta com a formação de consciência política. Muitas pessoas sentem confusão
diante de excesso de informações, narrativas concorrentes, polarização. Livros
como esse não oferecem respostas definitivas, mas ajudam a formular perguntas
melhores: quem ganha com determinadas versões da história? Quais interesses são
invisibilizados? O que significa ordem e para quem?
Penso também no papel da cultura e da
educação. O fascismo frequentemente começa atacando esses campos porque eles
ampliam imaginação e pensamento crítico. Quando a complexidade é vista como
ameaça, a simplificação vira estratégia de poder. Essa percepção atravessa
tanto a análise histórica quanto o cotidiano.
Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de
que o maior risco não é a repetição literal do passado, mas a naturalização de
seus mecanismos: desumanização, militarização da política, desprezo por
direitos, culto à força. Esses processos podem ocorrer gradualmente, muitas
vezes sob linguagem de proteção e eficiência.
Para mim, a leitura reforçou a importância de
olhar para a democracia como prática cotidiana e não como garantia permanente.
Instituições importam, mas também importam vínculos sociais, distribuição de
recursos, confiança pública e capacidade de lidar com conflitos sem transformar
adversários em inimigos absolutos.
Os Camisas
Negras e a Esquerda Radical não é um livro confortável porque exige
reconhecer que o autoritarismo não surge do nada. Ele emerge de relações
sociais, de crises não resolvidas, de disputas por poder e sentido. Isso
desloca a responsabilidade: não é apenas “algo que aconteceu”, é algo que pode
ser prevenido, ou permitido.
Fechei a leitura pensando que compreender o
passado é um exercício de imaginação política. Não para reproduzir modelos, mas
para perceber sinais, evitar simplificações e sustentar a complexidade que a
democracia exige.
Talvez
o maior aprendizado tenha sido este: quando a história é contada apenas como
exceção, perdemos a capacidade de reconhecer padrões. E reconhecer padrões é
uma das formas mais importantes de cuidar do futuro.
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