31 de março: entre a memória e a encruzilhada
Eu não
consigo atravessar o dia 31 de março como se fosse uma data qualquer. Há algo
que insiste em retornar, não apenas como lembrança histórica, mas como sintoma
social. A memória do golpe de 1964 não está enterrada. Ela respira nas
instituições, nas disputas narrativas e, sobretudo, na forma como o Brasil lida,
ou se recusa a lidar, com a responsabilidade histórica.
Ao ler e
refletir sobre o cenário político que se desenha para 2026, sinto que não
estamos apenas diante de uma eleição. Estamos diante de uma disputa de projetos
de sociedade que carrega, no fundo, uma tensão não resolvida desde a transição
da ditadura para a democracia. A chamada “Nova República” nasceu conciliada
demais com seus próprios algozes. E isso tem consequências.
A
sociologia já nos ensinou, de diferentes maneiras, que sociedades que não
elaboram seus traumas tendem a repeti-los. Durkheim falava da necessidade de
coesão social baseada em valores compartilhados; quando esses valores são
corroídos, ou relativizados, abre-se espaço para a anomia, para o colapso das
referências normativas. No Brasil, a ausência de responsabilização pelos crimes
da ditadura não foi apenas uma falha jurídica: foi um déficit moral coletivo.
A Lei de
Anistia de 1979, celebrada como pacto de pacificação, funcionou também como um
mecanismo de esquecimento seletivo. Perdoou-se quem torturou, quem matou, quem
sequestrou o Estado. E esse “perdão sem verdade” produziu algo perigoso: a
naturalização da violência política como instrumento legítimo. Não é
coincidência que, décadas depois, tenhamos assistido a uma tentativa de ruptura
institucional em 8 de janeiro de 2023.
Quando
olho para o presente, vejo um país novamente tensionado por forças que disputam
não apenas o poder, mas o próprio sentido da democracia. De um lado, um projeto
que se reivindica como reconstrutor, com ênfase em soberania, políticas sociais
e inserção internacional menos subordinada. De outro, uma articulação política
que, em muitos momentos, flerta com a ideia de anistia para atos
antidemocráticos, como se a democracia fosse negociável.
E aqui eu
preciso ser direto: não existe democracia possível quando crimes contra ela são
tratados como opinião política. A história mostra que toda anistia concedida
sem justiça abre caminho para novas violações. Foi assim após 1964. E há sinais
de que pode ser novamente.
Max Weber
dizia que o Estado é aquele que detém o monopólio legítimo da violência. Mas
essa legitimidade depende de regras claras, de instituições fortes e,
principalmente, de responsabilização. Quando agentes que atentam contra a ordem
democrática não são punidos, o Estado perde autoridade moral, e o campo fica
aberto para aventureiros, messianismos e projetos autoritários.
Ao mesmo
tempo, seria simplista reduzir o cenário atual a uma disputa entre “bem” e
“mal”. A sociologia crítica, de Bourdieu a Florestan Fernandes, nos alerta que
o poder se reproduz também por meio de estruturas profundas: desigualdade,
concentração de renda, exclusão política. Uma democracia frágil socialmente é
sempre uma democracia vulnerável institucionalmente.
Por isso,
a escolha que se coloca para 2026 não pode ser apenas eleitoral. Ela precisa
ser civilizatória.
Eu me
pergunto: que país queremos consolidar? Um país que aprende com sua história ou
um país que a repete como farsa, ou como tragédia? Um país soberano, capaz de
decidir seus próprios rumos, ou um território que se submete a interesses
externos em troca de proteção política e econômica? A América Latina tem sido,
historicamente, um laboratório de intervenções, dependências e disputas
geopolíticas. Não é ingenuidade pensar que o Brasil também está nesse
tabuleiro.
A menção
a possíveis acordos militares estrangeiros na região não pode ser tratada com
leveza. A história latino-americana, do Chile de 1973 às bases militares
espalhadas pelo continente, mostra que soberania não é um dado, é uma
construção permanente. E ela se perde rapidamente quando elites políticas abrem
mão de projetos nacionais em nome de alianças circunstanciais.
Diante
disso, minha posição é clara: não há futuro democrático sem memória, sem
justiça e sem compromisso com a soberania.
Mas eu
também não acredito que a saída esteja apenas nas urnas. Ela passa por um
processo mais profundo de reconstrução do tecido social. Precisamos investir em
educação crítica, em políticas públicas que reduzam desigualdades, em
fortalecimento das instituições e, sobretudo, em uma cultura política que não
normalize o autoritarismo.
Do ponto
de vista propositivo, vejo alguns caminhos urgentes:
Revisão crítica da Lei de Anistia, à luz dos tratados
internacionais de direitos humanos, garantindo verdade, memória e justiça.
Fortalecimento das instituições
democráticas, com
mecanismos mais eficazes de prevenção e punição de crimes contra o Estado de
Direito.
Educação histórica e política, para que novas gerações
compreendam o que foi a ditadura e por que ela não pode se repetir.
Política externa soberana, que recuse alinhamentos
automáticos e priorize a integração latino-americana e a cooperação Sul-Sul.
Combate estrutural às
desigualdades, porque
não há democracia sólida sobre uma base social fragmentada e excludente.
Eu não
escrevo isso com neutralidade. Escrevo com implicação. Como alguém que vive
neste país, que trabalha com gente, que escuta histórias de sofrimento, de
exclusão, de esperança. A democracia, para mim, não é um conceito abstrato. Ela
é a condição mínima para que possamos existir com dignidade.
O 31 de
março não é apenas uma data do passado. É um espelho incômodo do presente. E
talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer hoje seja: estamos dispostos,
desta vez, a aprender com a história, ou continuaremos a negociar com a
barbárie?
Eu,
sinceramente, não aceito mais a segunda opção.
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