A coragem de olhar para si

 

Há dias em que tudo o que eu mais quero é continuar olhando para fora. Para o mundo, para as crises, para os outros, para as injustiças  e não me entenda mal: elas são reais, urgentes e exigem posicionamento. Mas, se sou honesto comigo mesmo, percebo que, muitas vezes, esse olhar externo também funciona como um álibi. Um modo sofisticado de evitar o encontro mais difícil de todos: comigo. Olhar para si não é um gesto natural. É um ato de coragem.

Digo isso porque, ao contrário do que as narrativas contemporâneas de “autoconhecimento” costumam vender, leves, quase instagramáveis, o mergulho em si não é bonito. Ele é, antes de tudo, desorganizador. Quando começo a me observar de verdade, não encontro apenas virtudes escondidas esperando para serem celebradas. Encontro contradições, invejas, ressentimentos, medos antigos que ainda governam escolhas atuais. Encontro aquilo que passei anos tentando não ver.

Freud já nos advertia: não somos senhores em nossa própria casa. E talvez seja isso que mais assuste. Há algo em mim que me escapa, que insiste, que retorna. Um desejo que não se deixa domesticar facilmente. Um mal-estar que não se resolve com frases prontas. Olhar para si, então, não é encontrar uma essência pura, é lidar com uma divisão.

Na clínica, vejo isso com frequência. Pessoas que chegam exaustas, tentando sustentar versões de si mesmas que já não se sustentam. O falso self, como diria Winnicott, funciona bem até certo ponto: ele garante adaptação, reconhecimento, pertencimento. Mas cobra um preço alto, o esvaziamento da experiência de existir. E é nesse ponto que algo começa a rachar.

Lembro de uma vinheta clínica (ficcionalizada, mas profundamente real em sua estrutura): um homem que sempre foi “o responsável”, “o equilibrado”, “aquele que dá conta”. Ele chega dizendo que não sente mais nada. Não é tristeza, nem alegria, é um vazio. Ao longo do processo, algo se revela: ele nunca pôde errar, nunca pôde falhar, nunca pôde ser frágil. Olhar para si, para ele, significava desmontar essa identidade inteira. E isso doía mais do que continuar anestesiado. A coragem, nesse caso, não era enfrentar o mundo, era permitir-se desmoronar um pouco.

Vivemos em uma época que nos exige performance constante. Ser produtivo, interessante, seguro de si, emocionalmente inteligente, politicamente consciente, fisicamente saudável… uma lista interminável de exigências. Nesse cenário, olhar para si pode parecer um luxo, ou pior, uma ameaça. Porque o que acontece quando eu descubro que não sou tudo isso? Que sou, na verdade, atravessado por falhas, ambivalências, limites?

A tentação é fugir. E fugimos de muitas formas: hiperatividade, consumo, moralismo, militância sem reflexão, espiritualidade de negação, até mesmo certos discursos terapêuticos que prometem “curas rápidas”. Tudo isso pode funcionar como defesa contra o encontro consigo. Mas há um limite para a fuga.

Em algum momento, algo retorna. Um sintoma, uma angústia, uma repetição que não se explica. E é aí que surge uma encruzilhada: ou continuo me afastando de mim, ou começo, ainda que com medo, a me escutar.

E escutar-se não é simples. Porque implica renunciar a certas ilusões. A ilusão de controle, a ilusão de coerência absoluta, a ilusão de que somos plenamente racionais. Implica, também, reconhecer nossa participação naquilo que nos faz sofrer, o que não significa culpabilizar-se, mas responsabilizar-se.

Há uma diferença importante aí. Culpa paralisa. Responsabilidade movimenta.

Quando começo a me responsabilizar, algo muda. Eu deixo de ser apenas vítima das circunstâncias e passo a me implicar nelas. Isso não elimina as determinações sociais, históricas e econômicas, pelo contrário, as torna mais visíveis. Porque passo a entender como essas forças atravessam minha subjetividade. Como o capitalismo, por exemplo, não está apenas “lá fora”, mas também dentro de mim, na forma como me cobro, como me comparo, como me sinto insuficiente. Olhar para si, então, também é um ato político.

É recusar a lógica que nos quer alienados de nós mesmos. É interromper, ainda que por instantes, a engrenagem que nos transforma em máquinas de desempenho. É criar espaço para uma experiência mais autêntica de existir, mesmo que isso implique incerteza. Mas não romantizo esse processo.

Há momentos em que olhar para si é quase insuportável. Quando nos deparamos com nossas próprias violências, com nossas omissões, com aquilo que preferiríamos não ter sido. Nesses momentos, a tentação de recuar é enorme. E, às vezes, recuamos mesmo.

Faz parte. A coragem não é ausência de medo. É a decisão de não ser totalmente governado por ele.

Se há algo que aprendi, tanto na escuta clínica quanto na minha própria travessia, é que esse movimento não precisa (e talvez nem deva) ser solitário. Precisamos de espaços onde possamos falar, onde possamos ser escutados sem julgamento imediato. A clínica é um desses espaços. Mas não o único. A arte, a amizade, a política, os coletivos, todos podem funcionar como dispositivos de elaboração.

Olhar para si não é fechar-se no próprio umbigo. É, paradoxalmente, abrir-se para o mundo de outro modo.

Porque quando começo a me reconhecer em minha complexidade, também passo a reconhecer o outro em sua complexidade. A empatia deixa de ser uma palavra bonita e passa a ser uma experiência concreta: eu sei que o outro também carrega conflitos, dores, contradições. Isso não justifica tudo, mas humaniza.

E talvez seja disso que mais precisamos hoje: menos certezas rígidas, mais capacidade de sustentar ambiguidades.

Olhar para si é aceitar que não sou inteiro, que não sou acabado, que estou em processo. E, ao invés de ver isso como fraqueza, começo a enxergar como possibilidade.

A possibilidade de mudar. A possibilidade de escolher diferente. A possibilidade de existir com mais verdade. Não é um caminho fácil. Mas, sinceramente, começo a suspeitar que é o único que realmente vale a pena.

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