Balada ao Espelho Digital

 

Senhora Tela, a vós me rendo,
que em vossa luz me faço e vendo;
se outrora à corte eu me curvava,
hoje ao algoritmo me entrego e emendo.

Meu verso, antes livre e errante,
agora pede um clique constante;
se agrado, vivo, se não, me apago,
sou súdito dócil do instante.

Ó Tempo, que em roldanas gira,
mais veloz que antiga lira,
roubais-me o ócio e o silêncio
com vossa doce mentira.

Dizei-me, Espelho tão brilhante:
sou eu quem fala ou um semblante?
Que rosto é este que cultivo
para um público distante?

Se amo, registro; se sofro, posto;
se penso, resumo em desgosto;
que vida é esta, em vitrine exposta,
que pede aplauso a qualquer custo?

Ah! Quem me dera, em vossa ausência,
viver sem tanta transparência,
guardar segredos, ter mistério,
e errar sem vossa audiência.

Mas volto, fiel, como amante,
ao toque leve e cintilante;
pois mesmo cativo e cansado,
sou servo vosso, e constante.

Assim concluo, em tom singelo:
se outrora eu temia o duelo,
hoje temo o esquecimento,
esse vil, moderno flagelo.

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