Canto ao Concreto e à Sombra

 

Já não ecoa, altiva, a voz dos rios
em sua língua antiga e soberana;
cortam-lhes o curso, e em leitos frios
jaz a memória verde que se engana.

Eu vi, não nos sertões de outrora livres,
mas no asfalto quente das cidades,
erguerem-se, vorazes e insensíveis,
torres de vidro a ocultar verdades.

Onde cantava o vento entre as folhas,
hoje ressoa o tráfego incessante;
e a ave, que outrora em céu se acolha,
perde-se em fios, muda e vacilante.

Ó pátria minha, de vasto peito,
que já nutriste em teu solo fecundo
os povos primeiros, em seu direito,
hoje és mercado aberto ao mundo.

Vejo o Tapajós, de dor tingido,
clamar em vão por escuta e cuidado;
seu curso, outrora vivo e destemido,
é cálculo frio de lucro traçado.

E o Norte, que guarda em seu silêncio
saberes mais antigos que o aço e a máquina,
é ferido em nome do progresso imenso
que arranca raízes, consome e massacra.

Não há mais guerra de espada e lança,
mas trato assinado, decreto e cifrão;
o inimigo avança sob a bonança
de um falso discurso de evolução.

E nós, herdeiros de tantas ruínas,
caminhamos cegos entre os destroços,
crendo que o brilho das grandes usinas
nos salvará dos próprios alvoroços.

Mas ainda pulsa, em terra ferida,
um canto antigo, quase esquecido:
é voz que resiste, que insiste na vida,
que nega o destino já prometido.

Se outrora cantaram feitos e glórias
em versos que exaltam conquista e poder,
eu canto as perdas, as outras histórias,
o que tentaram nos fazer esquecer.

E se este canto, por ora disperso,
não move impérios nem muda a nação,
que ao menos sirva, humilde e diverso,
de chama acesa na escuridão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado