Entre o corpo e a história: o que Reich ainda me obriga a pensar
Confesso que me aproximar de Wilhelm Reich nunca foi um movimento
confortável. Há algo em sua obra que provoca, desestabiliza, quase como se ele
não aceitasse que a psicologia se refugiasse apenas no discurso, na
interpretação ou no simbólico. Reich me obriga a descer para o corpo. E isso
muda tudo.
Minha formação, atravessada pela psicanálise,
sempre me ensinou a escutar o inconsciente nas palavras, nos lapsos, nos
sonhos. Mas Reich me faz uma pergunta incômoda: e o corpo, onde entra nisso tudo? Mais ainda: e se o
corpo não for apenas um veículo da mente, mas o próprio lugar onde a história
psíquica se inscreve?
Reich começa como discípulo de Freud, mas
rapidamente rompe com ele. E eu entendo esse rompimento menos como uma rejeição
e mais como um deslocamento radical. Freud havia identificado a repressão como
um mecanismo central da cultura. Reich dá um passo além: ele diz que essa
repressão não é apenas psíquica, ela é corporal, social e política. Isso me
impacta profundamente.
A ideia de couraça muscular
é, talvez, uma das contribuições mais marcantes de Reich. Ele observa que os
conflitos psíquicos não ficam apenas no campo simbólico; eles se cristalizam no
corpo, na forma de tensões crônicas, posturas rígidas, respirações curtas. O
corpo passa a funcionar como uma armadura que protege o sujeito, mas que também
o aprisiona. E aqui eu não consigo deixar de pensar na clínica.
Quantas vezes escuto alguém falar de sofrimento enquanto seu corpo parece
congelado? Ou, ao contrário, um corpo agitado, ansioso, que não encontra
repouso? Reich me ensinou a olhar para isso não como detalhe, mas como
linguagem. O corpo fala, e, muitas vezes, fala antes das palavras.
Mas Reich não para aí. E talvez seja isso que
o torna tão atual e, ao mesmo tempo, tão
incômodo.
Ele articula psicologia e sociedade de uma
forma direta, quase sem mediações. Para Reich, a repressão sexual não é apenas
um fenômeno individual, mas um instrumento de controle social. Ele chega a
afirmar que estruturas autoritárias, como o fascismo, se alimentam de sujeitos
reprimidos, incapazes de viver plenamente sua energia vital.
Quando li isso pela primeira vez, achei
exagerado. Hoje, não acho mais.
Vivemos em uma sociedade que, ao mesmo tempo, hiperestimula o corpo como
objeto de consumo e reprime profundamente a experiência corporal autêntica. Há
uma sexualização constante, mas também uma normatização rígida do desejo. Há
uma valorização da imagem, mas um esvaziamento da vivência. Isso, para mim, é
profundamente reichiano.
O sujeito contemporâneo parece dividido: de um lado, convocado a performar
prazer; de outro, impedido de senti-lo de forma livre. O resultado? Ansiedade,
compulsão, vazio. Corpos cansados, tensos, desconectados de si.
Reich falava de energia vital, o que ele chamou de orgone, um conceito
que, reconheço, gera controvérsias e críticas até hoje. E aqui faço questão de
manter uma posição crítica: nem tudo em Reich pode ser tomado ao pé da letra.
Algumas de suas formulações carecem de rigor científico e abriram espaço para
apropriações problemáticas. Mas seria um erro descartar sua obra por isso.
O que me interessa em Reich não é a literalidade de todos os seus conceitos,
mas a radicalidade de sua pergunta: o que
acontece com um ser humano quando sua vitalidade é sistematicamente bloqueada?
Essa pergunta continua atual.
Na prática clínica, vejo sujeitos que não sabem mais o que desejam. Que
vivem em função de expectativas externas. Que perderam o contato com o próprio
corpo, ou que só o percebem através da dor, da doença, do esgotamento.
E aí percebo o quanto Reich amplia o campo da
psicologia: ele não está interessado apenas em interpretar o sofrimento, mas em
transformar as condições que o produzem.
Isso tem implicações políticas importantes.
Se o sofrimento psíquico está ligado a formas de organização social,
repressivas, autoritárias, desiguais, então a clínica não pode ser
completamente neutra. Ela precisa, de alguma forma, se implicar com o mundo.
Reich foi perseguido, ridicularizado, preso.
Sua obra foi queimada. Isso, por si só, já diz muito sobre o tipo de pensamento
que ele produziu: um pensamento que incomoda estruturas estabelecidas.
Mas também me faz pensar: até que ponto
estamos dispostos, hoje, a sustentar ideias que desafiem o status quo?
Eu não tomo Reich como um autor a ser seguido
cegamente. Tomo como alguém que abre fissuras. Que me obriga a pensar o sujeito
para além da palavra, para além do consultório, para além da adaptação.
Se Winnicott me ensina sobre o ambiente, e
Freud sobre o inconsciente, Reich me lembra que há um corpo pulsando, ou
tentando pulsar, em meio a tudo isso.
E talvez a tarefa mais urgente, hoje, seja
justamente essa: restituir ao sujeito a
possibilidade de sentir, respirar e existir com mais liberdade.
Não como um ideal romântico, mas como um gesto
profundamente político e clínico. Porque, no fim das contas, um corpo que volta
a sentir é também um corpo que pode voltar a resistir.
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