Entre o discurso da ordem e a prática do poder: o que não se diz sobre crime organizado e a direita brasileira

 

Falar sobre crime organizado no Brasil é, quase sempre, entrar em um território capturado por palavras prontas: “bandido bom é bandido morto”, “tolerância zero”, “guerra ao crime”. Eu cresci ouvindo isso  e, por muito tempo, acreditei que bastava endurecer leis, aumentar penas e dar mais poder às forças repressivas para resolver o problema. Hoje, já não consigo sustentar essa ingenuidade.

Porque quanto mais olho de perto, mais percebo que a relação entre crime organizado e setores da direita brasileira não é tão simples quanto o discurso oficial faz parecer. E dizer isso não é fazer acusação genérica ou panfletária é, antes, tentar compreender uma contradição estrutural que atravessa o país.

A direita brasileira, em suas múltiplas vertentes, construiu sua identidade recente muito apoiada na promessa de combate à criminalidade. Esse discurso mobiliza medo, e o medo mobiliza votos. Mas o que me inquieta é perceber que, em muitos casos, esse mesmo campo político convive, e por vezes se articula, com práticas que se aproximam perigosamente da lógica do crime organizado.Além de termos muitos político desse setor envolvidos com o crime organizado recentemente.

Não estou falando apenas das milícias, embora elas sejam talvez o exemplo mais evidente. No Rio de Janeiro, por exemplo, milícias surgiram com o discurso de “proteger a população” e combater o tráfico. Com o tempo, tornaram-se estruturas de poder territorial, explorando serviços básicos, cobrando taxas ilegais, controlando a vida cotidiana de comunidades inteiras. E, não raramente, estabeleceram vínculos com agentes políticos, inclusive de direita. Mas seria um erro reduzir essa discussão às milícias cariocas.

O problema é mais profundo e mais difuso. Ele envolve uma forma de fazer política baseada no controle, na informalidade e na instrumentalização da lei. Quando vejo setores defendendo flexibilizações que favorecem mercados ilegais, seja no garimpo em terras indígenas, na grilagem de terras públicas ou no desmonte de fiscalizações ambientais, percebo uma zona cinzenta onde o legal e o ilegal se misturam. E nessa zona cinzenta, o crime organizado prospera.

Há também algo que me incomoda do ponto de vista psíquico. O discurso da “guerra ao crime” frequentemente opera por cisão: de um lado, os “cidadãos de bem”; de outro, os “inimigos”. Essa divisão simplifica a realidade e permite projetar no outro tudo aquilo que não queremos reconhecer em nós mesmos enquanto sociedade.

Mas a verdade é menos confortável: o crime organizado não é um corpo estranho ao Brasil. Ele é, em grande medida, produzido pelas mesmas estruturas que organizam nossa economia e nossa política. Desigualdade extrema, ausência de políticas públicas consistentes, mercados ilegais altamente lucrativos, tudo isso cria o terreno onde essas organizações se desenvolvem.

E aqui está o ponto que me parece mais incômodo: combater o crime organizado exigiria enfrentar essas estruturas. Mas isso implicaria mexer em interesses econômicos e políticos profundos, algo que muitos preferem evitar. É mais fácil investir em espetacularização da violência.

Operações policiais midiáticas, discursos inflamados, promessas de “acabar com tudo isso”, tudo isso produz uma sensação de ação imediata. Mas, no longo prazo, pouco muda. Ou pior: a repressão seletiva pode fortalecer determinados grupos em detrimento de outros, reorganizando o próprio crime.

Eu não estou dizendo que a esquerda esteja imune a contradições ou a relações problemáticas com ilegalidades. Seria desonesto afirmar isso. O que tento apontar é que, no caso da direita brasileira contemporânea, há uma dissonância particularmente evidente entre o discurso moralizante e certas práticas políticas e econômicas que, direta ou indiretamente, dialogam com dinâmicas do crime organizado. E essa dissonância precisa ser enfrentada.

Do ponto de vista propositivo, começo por algo que parece simples, mas é profundamente difícil: precisamos sair da lógica da guerra. A segurança pública não pode continuar sendo pensada apenas como enfrentamento armado. Isso não significa ser “conivente com o crime”, como muitos rapidamente acusariam, mas reconhecer que o problema é mais complexo.

Investimento em inteligência, controle financeiro de fluxos ilícitos, combate à corrupção institucional, fortalecimento de políticas sociais, urbanização de territórios vulnerabilizados, tudo isso é parte de uma estratégia séria de enfrentamento ao crime organizado.

Além disso, é urgente enfrentar a captura de territórios por grupos armados, sejam eles traficantes ou milicianos, com políticas que combinem presença estatal qualificada e participação comunitária. Não basta entrar com polícia; é preciso garantir direitos.

E há ainda um aspecto que considero central: transparência e responsabilização política. Precisamos de mecanismos mais rigorosos para investigar e punir vínculos entre agentes públicos e atividades ilegais, independentemente de sua orientação ideológica. Isso exige instituições fortes, e, sobretudo, vontade política. Por fim, volto a mim

Percebo que também fui seduzido, em algum momento, por soluções fáceis. Pela ideia de que bastaria “endurecer” para resolver. Hoje, entendo que essa lógica, além de ineficaz, pode reforçar exatamente aquilo que diz combater.

A coragem, aqui, é outra: é sustentar a complexidade. É recusar respostas simples para problemas estruturais. É olhar para as contradições, inclusive as nossas. É não transformar o medo em política de Estado.

Se quisermos, de fato, enfrentar o crime organizado no Brasil, teremos que ir além dos slogans. E isso implica, inevitavelmente, questionar não apenas “o outro lado”, mas também aqueles que dizem falar em nome da ordem enquanto operam, muitas vezes, nas sombras do poder.

Projetos de lei e agendas associadas à direita que geram críticas

Aqui é importante ser honesto:
 não existem projetos que “defendam o crime organizado” explicitamente.

O debate é outro: certas propostas são criticadas por especialistas porque podem enfraquecer mecanismos de controle, fiscalização ou investigação.

 

 1. Flexibilização ambiental (garimpo e terras indígenas)

Exemplos:

PL 191/2020 (mineração em terras indígenas)

PLs de regularização fundiária com menos exigências

Crítica:

Podem facilitar:

garimpo ilegal

grilagem

atuação de facções e milícias na Amazônia  O crime organizado hoje atua fortemente nesses mercados.

 

 2. Ampliação do acesso a armas

Exemplos:

Decretos e propostas legislativas pró-armamento (governo Bolsonaro)

Tentativas de flexibilizar controle de CACs

Crítica:

Armas legais desviadas abastecem:

milícias

facções

Dificulta rastreamento e controle estatal

 

 3. Enfraquecimento de mecanismos de fiscalização

Exemplos:

Tentativas de limitar atuação de:

IBAMA

ICMBio

órgãos de controle

Crítica:

Reduz capacidade do Estado de enfrentar:

crimes ambientais (ligados ao crime organizado)

economias ilegais estruturadas

 

 4. Abuso do conceito de “excludente de ilicitude”

Exemplo:

Propostas de ampliar proteção legal a policiais em operações

Crítica:

Pode:

dificultar responsabilização de abusos

favorecer alianças informais entre agentes e grupos ilegais

aumentar violência sem desarticular organizações

 

 5. Afrouxamento de regras de rastreabilidade financeira

Exemplos:

Resistência a maior controle sobre movimentações financeiras suspeitas

Críticas a órgãos como COAF

Crítica:

Dificulta combate a:

lavagem de dinheiro

financiamento de organizações criminosas

 

 6. Regularização fundiária ampla (sem controle rigoroso)

Exemplos:

PLs conhecidos como “PL da grilagem”

Crítica:

Pode legalizar:

terras ocupadas ilegalmente

áreas controladas por crime organizado

17.Minha leitura crítica

 

Quando olho para esses casos e propostas, o que mais me inquieta não é apenas “quem está envolvido”, mas como certas estruturas políticas acabam criando ambientes favoráveis ao crime organizado.

Não se trata de dizer que “a direita apoia o crime”. Isso seria simplista.

Mas também não dá para ignorar que:

discursos de “ordem” coexistem com práticas que fragilizam o Estado

mercados ilegais são, muitas vezes, tolerados quando geram lucro

o combate ao crime vira espetáculo, enquanto suas bases econômicas seguem intactas

E isso me parece o ponto mais grave.

 

 

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