Entre a soberania e o palanque: quando o Brasil vira promessa em solo estrangeiro
Confesso
que senti um incômodo difícil de nomear quando li que, em um evento nos Estados
Unidos, Flávio Bolsonaro teria afirmado que, se vencer, os EUA teriam acesso às
terras raras e a outros recursos naturais brasileiros. Como se não bastasse, o
presidente do PL teria dito que Trump apoia essa eventual candidatura. Não é
apenas o conteúdo dessas falas que me inquieta, é o que elas revelam sobre a
forma como parte da política brasileira tem lidado com a própria ideia de país.
Eu me
pergunto: em que momento passamos a tratar a soberania como moeda de negociação
eleitoral?
Terras
raras não são um detalhe técnico. São estratégicas. Estão no centro das
disputas geoeconômicas do século XXI, da indústria tecnológica à transição
energética. Falar sobre seu acesso, ainda mais em solo estrangeiro e em tom de
promessa política, não é trivial. É, no mínimo, um gesto que exige
responsabilidade institucional. No máximo, pode configurar uma submissão
simbólica que fere a dignidade política de um país que ainda tenta se afirmar
no cenário global.
Mas é
preciso separar indignação de análise jurídica.
Do ponto
de vista legal, a pergunta que surge, e que você levanta, é: essas condutas
poderiam levar à cassação de uma candidatura ou até à proibição de um partido?
A
resposta, sendo rigoroso, é: não de forma automática.
A
legislação brasileira prevê cassação de candidatura em casos como:
abuso de poder econômico ou
político
uso indevido dos meios de
comunicação
captação ilícita de votos
interferência estrangeira no
processo eleitoral
Aqui,
talvez, esteja o ponto mais sensível: interferência estrangeira.
Se houver
comprovação de que apoio externo (como o de uma liderança internacional) foi
articulado de forma a influenciar o processo eleitoral brasileiro, com
financiamento, estratégia coordenada ou uso de estruturas estrangeiras, isso
pode, sim, abrir espaço para questionamentos jurídicos sérios.
Mas uma
declaração isolada, por mais grave que seja politicamente, dificilmente seria
suficiente, por si só, para cassação.
Quanto ao
partido (PL), a situação é ainda mais restrita. A Constituição brasileira
garante o pluripartidarismo. A extinção de um partido só ocorre em situações
extremas, como:
atuação contra o regime
democrático
financiamento ilícito comprovado
descumprimento reiterado de
normas legais
Ou seja: não
basta uma fala controversa, é necessário um conjunto robusto de provas e
violações.
Mas seria
um erro encerrar a discussão apenas no campo jurídico.
Porque há
algo anterior à lei: há a ética pública.
Quando um
político brasileiro, em território estrangeiro, sinaliza que recursos
estratégicos nacionais podem ser “acessados” por outra potência, o que está em
jogo não é apenas legalidade, é projeto de país.
E aqui,
inevitavelmente, penso no Brasil como um território historicamente atravessado
por ciclos de exploração: pau-brasil, ouro, café, borracha, minério. Sempre
houve uma tensão entre desenvolvimento interno e exportação de riqueza bruta. O
que vejo agora é uma atualização desse padrão, só que revestida de linguagem
moderna, de geopolítica, de tecnologia.
Como se
disséssemos: “não somos mais colônia… mas ainda estamos disponíveis.”
Isso me
incomoda profundamente.
E me
incomoda também a naturalização dessas falas. Como se fosse aceitável
transformar o país em plataforma de negociação internacional para ganho
político interno. Como se a soberania fosse um detalhe técnico, e não uma
construção histórica, social e simbólica.
Do ponto
de vista psíquico, talvez haja algo de revelador nisso. Uma espécie de desejo
de reconhecimento externo que atravessa nossa elite política. Como se a
validação viesse sempre de fora. Como se precisássemos ser aceitos por uma
potência para nos sentirmos relevantes.
Mas um
país não pode ser governado a partir dessa lógica.
Se há
algo de propositivo que posso extrair dessa inquietação, é a necessidade
urgente de repolitizar a soberania. Isso significa:
Debater publicamente o papel
estratégico dos recursos naturais
Estabelecer limites claros para
acordos internacionais
Fortalecer mecanismos de controle
sobre influência estrangeira
Exigir transparência de políticos
em eventos internacionais
Construir um projeto nacional que
não seja subordinado
E,
sobretudo, desenvolver uma cultura política em que esse tipo de declaração não
passe despercebido.
Porque o
risco maior não é apenas jurídico.
É simbólico.
É histórico.
É o risco
de, mais uma vez, nos tornarmos espectadores da negociação do nosso próprio
território.
Não sei
se haverá cassação. Provavelmente não, a menos que surjam elementos mais
concretos. Mas sei que há algo que já está em jogo, e isso não depende de
tribunal:
a forma como entendemos o Brasil
o valor que damos à nossa soberania
e o tipo de futuro que estamos dispostos
a aceitar
Se não
enfrentarmos isso agora, corremos o risco de repetir, com novas palavras, uma
velha história.
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