Quando comecei a me esconder de mim mesmo: sobre o nascimento do falso self
Há algo inquietante quando começo a pensar sobre o falso self: ele não surge
como uma escolha consciente, nem como um erro isolado. Ele nasce, muitas vezes,
como uma solução. Uma solução precoce, silenciosa, quase invisível, mas
profundamente estruturante. E talvez seja isso que mais me atravessa: o falso
self não é, em sua origem, um problema. Ele é uma tentativa de sobrevivência.
Ao me debruçar sobre Winnicott, percebo que o
falso self começa a se formar muito cedo, nos primeiros momentos da vida,
quando o bebê ainda não distingue claramente entre o que é “eu” e o que é
“mundo”. É nesse tempo primitivo que o ambiente, sobretudo a mãe ou quem exerce
essa função, tem um papel decisivo. Quando esse ambiente consegue ser
suficientemente bom, ele acolhe os gestos espontâneos do bebê, responde a eles,
os reconhece. É nesse reconhecimento que o verdadeiro self começa a emergir.
Mas quando isso falha, e não precisa ser uma
falha brutal, basta uma inadequação persistente, algo se desloca.
Eu imagino aquele bebê que estende um gesto,
um choro, uma necessidade, e encontra um ambiente que não responde de forma
ajustada. Talvez responda demais, talvez de menos, talvez responda com
ansiedade, invasão ou ausência. E então, pouco a pouco, esse bebê aprende algo
fundamental: ser espontâneo pode ser
perigoso.
É nesse ponto que o falso self começa a se
formar.
Ele surge como uma adaptação. Uma espécie de
máscara funcional que se molda ao desejo do outro. Ao invés de expressar o que
sente, o bebê passa a antecipar o que é esperado dele. Ao invés de existir a
partir de dentro, ele passa a se organizar a partir de fora.
E isso, eu preciso dizer, não é raro. É
estrutural em muitos de nós.
Na clínica, e também fora dela, eu encontro
frequentemente sujeitos que funcionam muito bem. Pessoas eficientes,
responsáveis, adaptadas, até admiradas socialmente. Mas que, por dentro,
carregam uma sensação difusa de vazio, de irrealidade, de desconexão consigo
mesmas. Como se estivessem vivendo uma vida que não lhes pertence inteiramente.
Winnicott diria que, nesses casos, o falso
self assumiu uma função defensiva dominante. Ele protege o verdadeiro self, que
permanece oculto, muitas vezes empobrecido, às vezes quase inacessível.
Mas há algo que me inquieta ainda mais quando
penso nisso: o quanto a nossa sociedade contemporânea não apenas tolera, mas produz e recompensa falsos selves.
Vivemos em uma cultura que valoriza
performance, produtividade, adequação, imagem. Desde cedo, somos ensinados a
corresponder: à escola, à família, ao mercado, às redes sociais. Há pouco
espaço para o erro, para a ambivalência, para o gesto espontâneo que não se
encaixa.
Nesse sentido, o falso self deixa de ser
apenas uma resposta a falhas ambientais primárias e passa a ser também um
produto social. Ele se torna quase um requisito de sobrevivência no mundo
adulto.
Eu me pergunto, então: quantos de nós fomos
autorizados, de fato, a ser?
A psicologia, especialmente a psicanálise, nos
ajuda a entender que o problema não está na existência do falso self em si.
Todos nós desenvolvemos, em algum grau, formas de adaptação. O ponto crítico é
quando essa adaptação se torna rígida, totalizante, quando ela sufoca o
verdadeiro self.
É aí que surgem os sintomas: depressão,
ansiedade, sensação de vazio, dificuldade de sentir prazer, relações
superficiais ou marcadas por um profundo sentimento de não pertencimento.
Na clínica, vejo pessoas que dizem: “eu faço
tudo certo, mas não sinto nada” ou “parece que tem alguém vivendo por mim”.
Essas falas, para mim, são ecos claros de um falso self que se tornou
dominante.
Mas também vejo algo potente: o desejo de
romper com isso.
E aqui entra a dimensão propositiva que não
posso ignorar. Se o falso self se forma na relação, é também na relação que
algo pode se transformar. Um ambiente suficientemente bom,agora na forma de um
espaço terapêutico, de vínculos mais autênticos, de experiências que autorizem
a espontaneidade, pode permitir que o verdadeiro self volte a respirar.
Isso não é rápido. Nem simples.
Porque, no fundo, reencontrar o verdadeiro
self implica um risco: o risco de deixar de agradar, de frustrar expectativas,
de entrar em conflito, de não saber exatamente quem se é. Implica abrir mão de
uma identidade construída muitas vezes ao longo de anos.
Mas também implica algo fundamental: a possibilidade de viver com mais verdade.
Eu não acredito em uma vida totalmente livre
de máscaras. Isso seria ingênuo. O que eu busco, e o que vejo como horizonte
ético na clínica e na vida, é uma relação menos alienada com essas máscaras.
Uma possibilidade de escolher, em vez de apenas repetir.
Talvez o falso self comece a se formar quando
o mundo não suporta o nosso gesto espontâneo. Mas ele se mantém quando nós
mesmos passamos a não suportá-lo.
E
talvez o trabalho mais difícil, e mais necessário, seja justamente esse:
reaprender, pouco a pouco, a sustentar aquilo que em nós ainda insiste em ser
verdadeiro.
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