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Mostrando postagens de abril, 2026

O público que não decide: entre a ilusão democrática e o desconforto de Lippmann

  Ler O Público Fantasma , de Walter Lippmann, foi como encarar um espelho incômodo, daqueles que não deformam a imagem, mas retiram dela todas as ilusões confortáveis. E eu confesso: não é um livro fácil de aceitar, especialmente para quem, como eu, acredita na potência da participação popular e na necessidade de radicalizar a democracia. Porque Lippmann vai direto ao ponto: o “público”, essa entidade que tanto invocamos, “a opinião pública”, “a vontade do povo”, não é o sujeito ativo, informado e racional que gostamos de imaginar. Ele é, segundo Lippmann, intermitente, desinformado e, muitas vezes, incapaz de compreender a complexidade dos problemas que o afetam. Dói ler isso. Dói porque há um fundo de verdade. Lippmann escreve em um contexto de expansão dos meios de comunicação de massa, mas sua análise parece antecipar o nosso tempo de redes sociais, fake news e polarização extrema. Ele argumenta que os cidadãos comuns não têm tempo, nem acesso, nem ferramentas para acomp...

Entre Vargas e Lula: o peso da história e o tempo da experiência

 Essa é uma pergunta que me inquieta mais do que parece à primeira vista. Não porque seja impossível de responder, mas porque ela carrega uma armadilha: a de transformar a história em uma disputa de grandezas individuais, como se líderes políticos existissem fora das estruturas sociais que os produziram. Ainda assim, eu me permito entrar nesse terreno, não para escolher um “maior”, mas para compreender o tipo de importância histórica que cada um representa. Quando penso em Getúlio Vargas, eu vejo um momento de fundação. Não no sentido absoluto, porque o Brasil já existia muito antes dele, mas no sentido de uma reconfiguração profunda do Estado brasileiro. Vargas é, para mim, o nome de uma transição: do Brasil agrário-oligárquico para um Brasil urbano-industrial. Ele não apenas governou, ele ajudou a inventar um novo tipo de Estado, mais centralizado, mais interventor, mais presente na vida econômica e social. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação de empresas estatais...

Quando a linguagem apodrece, a política adoece: um incômodo chamado Orwell

  Ler A política e a língua inglesa , de George Orwell, não foi apenas um exercício intelectual. Foi um choque de reconhecimento. Porque, enquanto eu avançava no texto, não conseguia evitar a sensação de que Orwell não estava falando apenas da Inglaterra do seu tempo, ele estava, de alguma forma, descrevendo o Brasil de hoje, o mundo de hoje, e talvez até a maneira como eu mesmo, em alguns momentos, me escondo atrás das palavras. Orwell parte de uma constatação simples, mas devastadora: a linguagem política tende a se deteriorar quando passa a servir mais à manipulação do que à comunicação. E essa deterioração não é neutra. Ela tem função. Ela mascara, suaviza, distorce. E eu comecei a perceber o quanto estamos imersos nisso. Quantas vezes ouvimos expressões como “ajuste fiscal”, “flexibilização”, “dano colateral”, “pacificação”, “reordenamento urbano”? Palavras que parecem técnicas, neutras, quase inevitáveis, mas que, quando olhadas de perto, escondem cortes de direitos, viol...

O coração desvelado: entre o desejo de compreender e o medo de sentir

  Ler O coração desvelado , de Peter Gay, foi para mim menos uma experiência intelectual e mais um confronto íntimo. Não é um livro que se limita a explicar o amor, a sexualidade ou a afetividade na modernidade. Ele escancara algo mais profundo: a tensão permanente entre aquilo que sentimos e aquilo que a cultura nos permite sentir. E eu me vi ali. Peter Gay, com sua erudição histórica e sensibilidade psicanalítica, percorre séculos para mostrar como o amor, esse fenômeno que muitos ainda insistem em tratar como “natural” , é, na verdade, profundamente moldado por convenções sociais, repressões morais e rearranjos culturais. O coração, como ele sugere, nunca esteve completamente livre. Ele sempre esteve, de alguma forma, disciplinado. E isso me inquieta. Porque crescemos acreditando que amar é algo espontâneo, quase instintivo. Mas o livro mostra o contrário: aprendemos a amar. Aprendemos o que é aceitável desejar, o que deve ser reprimido, o que pode ser confessado e o que dev...

Quando a crítica vira crime: o risco de silenciar a consciência

  Confesso que senti um incômodo profundo quando me deparei com a notícia de que a deputada federal Tábata Amaral apresentou um projeto de lei que, na prática, pode criminalizar críticas ao Estado de Israel. Não se trata aqui de uma discordância pontual, nem de um embate partidário. Trata-se de algo mais grave: o risco de transformar a crítica política, sobretudo em temas internacionais sensíveis, em matéria penal. E isso, para mim, é um limite que não deveria ser atravessado. Eu parto de um princípio que considero inegociável: criticar um Estado não é o mesmo que atacar um povo. Criticar políticas de governo não é o mesmo que promover ódio. Misturar essas duas coisas é perigoso e, muitas vezes, conveniente. Vivemos um tempo em que o debate público tem sido cada vez mais tensionado por tentativas de enquadramento moral e jurídico das opiniões. No caso de Israel e Palestina, o cenário é ainda mais delicado. Há, sim, um histórico real e inegociável de antissemitismo que precisa s...

O preço da soberania: entre o que vendemos e o que agora nos cobra

  Eu não consigo olhar para a atual crise de combustíveis, atravessada pela escalada de tensões entre Irã, Israel e Estados Unidos, sem sentir que estamos, mais uma vez, pagando uma conta antiga. Uma conta que não foi apenas econômica, mas profundamente política, estratégica e, eu diria, civilizatória. Durante o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), assistimos à venda de ativos estratégicos da Petrobras sob o discurso da “eficiência” e da “modernização do mercado”. Foram 62 ativos vendidos, somando cerca de US$ 33,9 bilhões. Entre eles, a BR Distribuidora, hoje Vibra Energia, e refinarias como a Landulpho Alves (RLAM), entregue ao fundo Mubadala. Na época, muitos de nós alertamos: não se trata apenas de vender empresas, trata-se de abrir mão de instrumentos de soberania. E hoje, com o mundo novamente em ebulição geopolítica, essa escolha volta como sintoma. Quando uma crise internacional atinge o petróleo, como agora, com riscos reais de desestabilização no Oriente Médio, paíse...