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Mostrando postagens de maio, 2026

Edgar Morin e o pensamento complexo: contra as simplificações do nosso tempo

  Há autores que nos oferecem respostas. Edgar Morin, ao contrário, nos ensina a formular perguntas melhores. Ao longo dos anos, poucas leituras me desafiaram tanto quanto suas reflexões sobre o chamado pensamento complexo . E talvez o maior desafio não esteja em compreender suas ideias, mas em aceitar suas consequências. Vivemos em uma época que valoriza explicações rápidas. Queremos diagnósticos instantâneos para problemas históricos, opiniões definitivas para questões ambíguas e soluções simples para desafios que envolvem múltiplas dimensões. As redes sociais aceleraram ainda mais essa tendência. Tudo parece precisar caber em um vídeo curto, em uma manchete ou em uma frase de efeito. É justamente contra essa lógica que Edgar Morin se insurge. Ao ler Morin, percebo que grande parte dos conflitos contemporâneos nasce da nossa dificuldade de lidar com a complexidade. Gostamos de dividir o mundo entre bons e maus, certos e errados, progresso e atraso, esquerda e direita, desen...

Abolição: o fim da escravidão e as perguntas que ainda nos assombram

  Ler Abolição , de Seymour Drescher, foi uma experiência intelectualmente provocadora e, ao mesmo tempo, moralmente inquietante. Ao concluir o livro, fiquei com a sensação de que não estava apenas diante de uma obra sobre o passado. Estava diante de um espelho que reflete muitas das contradições do presente. A escravidão costuma ser apresentada nos livros escolares como um capítulo encerrado da história. Algo distante, pertencente a outro tempo. Drescher nos obriga a abandonar essa ilusão. Sua análise demonstra que a abolição da escravidão não foi um processo inevitável nem resultado natural do progresso humano. Foi uma conquista histórica construída por conflitos, disputas políticas, mobilizações sociais e mudanças profundas na forma como determinadas sociedades passaram a enxergar a dignidade humana. Essa constatação me parece fundamental. Quando transformamos a abolição em um desfecho inevitável, corremos o risco de apagar a coragem daqueles que lutaram para torná-la poss...

O ressentimento: quando a ferida passa a governar a vida

  Tenho pensado muito sobre o ressentimento. Não apenas como conceito filosófico ou psicológico, mas como experiência humana concreta. Todos nós, em algum momento, já fomos feridos, injustiçados, humilhados, rejeitados ou traídos. O problema não está na dor. O problema começa quando a dor deixa de ser uma experiência e passa a se tornar uma identidade. O ressentimento nasce justamente nesse lugar. Ele não é a mesma coisa que tristeza, indignação ou revolta. Essas emoções podem ser legítimas diante de uma injustiça. O ressentimento surge quando permanecemos presos ao acontecimento que nos feriu, revivendo-o continuamente, como se o passado ainda tivesse o poder de determinar o presente. É uma espécie de prisão emocional. A palavra já diz muito sobre isso. Ressentir é sentir novamente. E depois sentir outra vez. E mais uma vez. O ressentimento é uma memória que não consegue descansar. Uma sociedade ressentida O que mais me preocupa é que o ressentimento não é apenas um fe...

O que a chama iluminou: sobre as luzes que surgem em meio às ruínas

  Ler O que a chama iluminou , de Afonso Cruz, foi como caminhar por uma cidade ao anoitecer, quando as sombras começam a ocupar os espaços, mas algumas janelas ainda permanecem acesas. É um livro que fala da escuridão, mas não se rende a ela. Fala das perdas, mas não abandona a esperança. Fala das fragilidades humanas, mas sem perder a confiança na capacidade que temos de criar sentido em meio ao caos. Ao terminar a leitura, fiquei pensando em como a literatura de Afonso Cruz costuma realizar um movimento que considero raro: ela não separa a beleza da dor. Pelo contrário. Ela parece sugerir que muitas vezes é justamente a dor que nos obriga a olhar para aquilo que normalmente ignoramos. A chama do título me pareceu uma metáfora poderosa. Uma chama ilumina, aquece e orienta. Mas também é frágil. Pode ser apagada pelo vento. Pode consumir aquilo que toca. Pode desaparecer tão rapidamente quanto surgiu. Talvez por isso ela represente tão bem a condição humana. Somos seres de lu...