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Mostrando postagens de junho, 2026

Por que nunca somos suficientes? Reflexões sobre Não se cobre tanto, de Ellen Hendriksen, entre a psicanálise e a crítica da sociedade contemporânea

  Ler Não se cobre tanto ( How to Be Enough ), de Ellen Hendriksen, foi uma experiência que me colocou diante de uma pergunta tão simples quanto perturbadora: por que, mesmo quando alcançamos objetivos, recebemos reconhecimento e acumulamos experiências, continuamos sentindo que ainda não somos suficientes? Ao longo da leitura, fui percebendo que essa pergunta não pertence apenas ao campo da psicologia clínica. Ela atravessa a psicanálise, a filosofia, a sociologia e, talvez, a própria condição humana contemporânea. O livro de Hendriksen, embora escrito em linguagem acessível e apoiado em evidências empíricas, aborda uma das grandes patologias do nosso tempo: a incapacidade de reconhecer nossa própria legitimidade para existir sem a necessidade permanente de provar nosso valor. O que mais me impressionou foi perceber que a autora não trata a autocrítica excessiva como um defeito de personalidade, mas como uma estrutura subjetiva profundamente enraizada. A voz interior que nos ...

Elegia para um Universo em Processo

  Nada existe sozinho. A pedra que repousa na margem do rio carrega em seu silêncio a memória das estrelas extintas, o trabalho paciente das águas, a passagem dos animais, o olhar distraído de um homem que, por um instante, a transformou em pensamento. Nada é apenas o que é. Cada instante é uma assembleia de tempos antigos, um parlamento invisível onde conversam o que fomos, o que somos e o que ainda não aprendemos a desejar. A árvore não cresce: ela negocia. Com a luz, com o vento, com a profundidade da terra, com a morte das folhas que a alimentam. O mar não avança: ele recorda. As montanhas não permanecem: elas acontecem num ritmo mais lento que a nossa impaciência. E nós, criaturas breves, inventamos o nome "realidade" para esconder nosso espanto diante do fato de que tudo está sempre nascendo. Talvez Deus, se existir, não seja o soberano imóvel que vigia o universo do lado de fora. Talvez seja a delicada persist...

Entre a Janela e o Infinito

  Há uma pequena folha que insiste em cair bem diante da minha janela. Ela não sabe que participa do movimento das estrelas. Passei a manhã inteira observando sua lenta despedida, enquanto a cidade, apressada e cheia de relógios, esquecia-se de olhar para o céu. Talvez a sabedoria seja apenas isto: descobrir que o universo fala baixo. Quando eu era jovem, imaginava que a eternidade morava nas grandes palavras, nos monumentos, nas revoluções, nos livros muito grossos. Agora suspeito que ela se esconda na poeira dourada que dança sobre a mesa, na mão que procura outra mão, na chuva que hesita antes de tocar a terra. Toda flor conhece um segredo sobre o tempo que os homens desaprenderam. Toda criança carrega uma pergunta que os filósofos ainda perseguem. E eu, que já quis compreender a ordem das coisas, contento-me hoje em escutar o vento atravessando as árvores. Porque talvez viver não seja conquistar o mundo, nem decifrar o destino,...

Por que fugimos da maturidade? Entre a psicanálise e a crítica da sociedade contemporânea

  Quanto mais observo a mim mesmo e o mundo à minha volta, mais me convenço de que a maturidade é uma das experiências humanas mais desejadas e, ao mesmo tempo, mais evitadas. Passamos a infância querendo ser adultos e, quando finalmente nos tornamos adultos, fazemos de tudo para escapar das exigências que a maturidade nos impõe. Consumimos juventude, performamos segurança, terceirizamos responsabilidades e buscamos incessantemente alguém, um líder, uma ideologia, uma religião, um algoritmo, um parceiro amoroso, que nos poupe da difícil tarefa de existir por conta própria. Durante muito tempo, acreditei que amadurecer fosse apenas uma questão de idade cronológica. Hoje, suspeito que a maturidade seja uma conquista psíquica, ética e política extremamente rara. E talvez seja justamente por isso que fujamos dela com tanta intensidade. Freud foi um dos primeiros a compreender que a maturidade implica uma renúncia dolorosa. Em O mal-estar na civilização , ele demonstra que viver em ...

O Brasil entre a soberania e a servidão voluntária: uma reflexão sobre dependência, poder e futuro nacional

  Confesso que, ao tomar conhecimento de que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, teria agradecido a Flávio Bolsonaro pela disposição de colocar uma eventual equipe de transição presidencial brasileira à disposição do governo dos Estados Unidos, não consegui interpretar esse gesto apenas como mais um episódio da disputa política contemporânea. O que me atravessou foi um sentimento histórico. Uma espécie de déjà vu latino-americano. Como se, por trás das palavras diplomáticas e dos gestos protocolares, ressurgisse uma velha questão que atravessa a história do Brasil desde a colonização: afinal, queremos ser uma nação soberana ou apenas uma periferia obediente dos centros de poder mundial? Não se trata de nacionalismo vazio nem de antiamericanismo automático. Trata-se de reconhecer que nenhum país se torna soberano quando suas elites políticas, econômicas e intelectuais passam a enxergar a tutela externa como condição de governabilidade. O que está em jogo não é ape...

Palantir e a nova arquitetura do poder: vigilância, capitalismo e geopolítica na era da inteligência artificial

  Confesso que sempre fui cauteloso diante de narrativas que atribuem a uma única empresa a pretensão de "dominar o mundo". Formulações desse tipo frequentemente alimentam teorias conspiratórias e obscurecem a complexidade das transformações históricas em curso. No entanto, quanto mais observo a trajetória da Palantir Technologies, mais me convenço de que a pergunta relevante não é se a empresa possui um plano secreto de dominação global. A questão verdadeiramente importante é compreender como estamos assistindo ao surgimento de uma nova arquitetura de poder, na qual empresas privadas passam a exercer funções tradicionalmente associadas à soberania estatal. Fundada em 2003, sob a influência intelectual e política de Peter Thiel e de setores ligados ao aparato de segurança norte-americano do pós-11 de setembro, a Palantir nasceu para resolver um problema específico: transformar quantidades gigantescas de dados dispersos em inteligência operacional e estratégica. Desde então,...

Quando a conexão se tornou prisão

  "Quando o telefone era preso por um fio, a gente era mais livre." Tenho pensado muito nessa frase. À primeira vista, ela parece apenas uma manifestação de nostalgia, uma saudade romântica de um tempo mais simples. Mas, quanto mais reflito sobre ela, mais percebo que talvez contenha uma das críticas mais profundas ao mundo contemporâneo. Houve uma época em que o telefone ocupava um lugar específico da casa. Ele tocava na sala, na cozinha ou no corredor. Para atender, era preciso interromper o que se estava fazendo e deslocar-se fisicamente até ele. O telefone não nos acompanhava para todos os lugares. Não dormia ao lado da cama. Não registrava nossos passos, nossos desejos, nossos medos ou nossas preferências políticas. O telefone tinha limites — e, talvez justamente por isso, nós também tivéssemos. Hoje, carregamos no bolso dispositivos infinitamente mais poderosos do que qualquer tecnologia imaginada há poucas décadas. Podemos conversar instantaneamente com pessoas d...

Freud no século XXI: por que a psicanálise continua a nos inquietar? Uma reflexão a partir de Gilson Iannini

  Ler Freud no século XXI – Volume 1: O que é psicanálise? , de Gilson Iannini, produziu em mim uma experiência intelectual rara: a sensação de que uma pergunta aparentemente simples pode desestabilizar quase tudo aquilo que pensamos saber sobre nós mesmos. Afinal, o que é a psicanálise? Seria uma ciência? Uma prática clínica? Uma hermenêutica? Uma ética? Uma teoria da cultura? Ou seria, precisamente, uma disciplina cuja força reside em escapar às classificações definitivas? Ao longo da leitura, fui tomado pela impressão de que Iannini não busca oferecer uma definição fechada da psicanálise. Ao contrário, ele nos convida a habitar a própria inquietação que constitui o gesto freudiano. Freud não fundou apenas uma técnica terapêutica; ele produziu uma ruptura antropológica comparável, em muitos aspectos, às revoluções copernicana e darwiniana. Depois de Freud, tornou-se impossível pensar o sujeito humano como plenamente transparente a si mesmo. Essa constatação, que poderia parec...

A bolha da inteligência artificial e o capitalismo do fim dos limites: uma reflexão sobre poder, tecnologia e futuro

  Confesso que tenho dificuldade em acompanhar o entusiasmo quase religioso que cerca a inteligência artificial contemporânea. Não porque eu subestime sua importância tecnológica ou seu potencial transformador. Ao contrário. Minha inquietação nasce precisamente da percepção de que estamos diante de algo maior do que uma inovação tecnológica: estamos diante de uma reconfiguração profunda das relações entre capital, trabalho, poder, subjetividade e natureza. A pergunta que me acompanha não é se a inteligência artificial mudará o mundo. Ela já está mudando. A questão que me parece decisiva é outra: quem controla essa transformação, quem se beneficia dela e quais serão seus custos humanos, democráticos e ecológicos. Ao observar a corrida atual pela inteligência artificial, não consigo deixar de retornar a Karl Marx. Em seus escritos sobre o capitalismo industrial, Marx já havia percebido que a lógica fundamental do capital não é a produção de bens ou o atendimento das necessidades ...