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Mostrando postagens de junho, 2026

O pecado original da República: uma democracia que nasceu sem povo?

  Ler O Pecado Original da República , de José Murilo de Carvalho, foi uma experiência ao mesmo tempo esclarecedora e desconfortável. Esclarecedora porque o autor possui uma capacidade admirável de iluminar aspectos fundamentais da formação política brasileira. Desconfortável porque, ao avançar pelas páginas do livro, fui percebendo o quanto muitos dos problemas que atribuímos ao presente possuem raízes profundas, plantadas no momento em que a República foi instaurada. Ao terminar a leitura, fiquei com uma pergunta insistente: será que a República brasileira nasceu sem povo? Não no sentido literal, evidentemente. O povo existia. Trabalhava, produzia riqueza, construía cidades, cultivava a terra e sustentava a vida econômica do país. O problema era outro: ele não participou efetivamente da fundação do novo regime político. E é justamente aí que José Murilo de Carvalho localiza aquilo que chama de "pecado original". Uma República proclamada de cima para baixo A narrat...

A Terra e o Homem

  A manhã surgiu áspera sobre a planície. O sol, antes mesmo de alcançar a plenitude do céu, já lançava sobre a paisagem seu peso inclemente. A vegetação, retorcida pelo tempo e pelas secas sucessivas, parecia resistir não apenas ao clima, mas à própria ideia de existência. Os galhos secos erguiam-se como braços petrificados em direção ao horizonte, enquanto o vento percorria a caatinga com a solenidade de quem conhece antigos segredos. Ali, onde muitos enxergam apenas aridez, existe uma complexa arquitetura da sobrevivência. O observador apressado vê pobreza. O olhar atento encontra engenhosidade. O sertão não é vazio. É condensação. Condensação de luta, de memória e de adaptação. Cada pedra carrega uma história geológica mais antiga que os impérios. Cada mandacaru representa uma vitória silenciosa sobre as adversidades do clima. Cada vereda é um tratado vivo sobre a persistência da vida. E o homem que habita esse cenário não poderia ser diferente. Durante muito te...

O veto ao gato-do-mato e a contradição ambiental de Fortaleza

  Recebi com preocupação a notícia do veto do prefeito de Fortaleza ao projeto de lei que declarava o gato-do-mato patrimônio natural da cidade. À primeira vista, alguns podem considerar a questão secundária diante dos inúmeros desafios urbanos que enfrentamos. Eu penso exatamente o contrário. A forma como uma cidade trata sua fauna, sua flora e seus ecossistemas revela muito sobre o modelo de desenvolvimento que escolhe seguir. O gato-do-mato não é apenas um animal silvestre. Ele é um indicador da saúde ambiental dos territórios onde ainda consegue sobreviver. Sua presença sinaliza a existência de fragmentos de vegetação, de cadeias ecológicas minimamente preservadas e de condições ambientais que permitem a manutenção da biodiversidade. Quando uma espécie como essa se aproxima do risco de desaparecimento, não estamos diante apenas da perda de um animal. Estamos diante do enfraquecimento de um ecossistema inteiro. Por isso, a proposta de transformá-lo em patrimônio natural p...

Pedra e Homem

  O sertão não pede licença. Chega como pedra. Pedra na estrada. Pedra no rio seco. Pedra na palavra. O homem aprende cedo a linguagem da dureza. Não aprende nos livros. Aprende no chão. A terra lhe ensina que a chuva não é promessa. É acontecimento. Por isso, quando uma nuvem aparece, ninguém celebra. Espera. O sertanejo sabe que a esperança exagerada é irmã da decepção. O açude vazio não sonha água. Espera água. A diferença é toda uma filosofia. As mãos do agricultor não possuem poesia. Possuem calos. Mas os calos são também uma escrita. Escrita de enxada. Escrita de sol. Escrita de sobrevivência. Há quem veja pobreza. Eu vejo engenharia. Uma casa de taipa é uma tese sobre resistência. Um pote de barro é um tratado sobre frescor. Uma cisterna é uma aula de futuro. O sertão inventa porque precisa. A necessidade é sua universidade. Ao cair da tarde, o vento atravessa os mandacarus. Nada diz. Nada precisa di...

Paul Ricoeur e Ailton Krenak: imaginação e ação como caminhos para reinventar o mundo

  Há autores que nos ajudam a compreender o mundo. Outros nos ajudam a suportá-lo. E existem aqueles raros pensadores que nos convidam a transformá-lo. Quando leio Paul Ricoeur e Ailton Krenak, tenho a sensação de estar diante dessa terceira categoria. Embora pertençam a contextos culturais muito diferentes, Ricoeur, filósofo francês profundamente marcado pela fenomenologia e pela hermenêutica; Krenak, líder indígena, ambientalista e pensador brasileiro ligado às cosmologias dos povos originários, encontro entre eles uma convergência que me parece extraordinariamente atual: a defesa da imaginação como força capaz de abrir novos horizontes de ação. Vivemos um tempo em que a imaginação parece estar em crise. Não me refiro à imaginação como fantasia ou fuga da realidade. Refiro-me à capacidade de imaginar formas diferentes de viver, produzir, educar, governar e nos relacionar com a natureza. Em muitos momentos, tenho a impressão de que nossa sociedade perdeu essa capacidade. Falam...