Por que fugimos da maturidade? Entre a psicanálise e a crítica da sociedade contemporânea
Quanto
mais observo a mim mesmo e o mundo à minha volta, mais me convenço de que a
maturidade é uma das experiências humanas mais desejadas e, ao mesmo tempo,
mais evitadas. Passamos a infância querendo ser adultos e, quando finalmente
nos tornamos adultos, fazemos de tudo para escapar das exigências que a
maturidade nos impõe. Consumimos juventude, performamos segurança,
terceirizamos responsabilidades e buscamos incessantemente alguém, um líder,
uma ideologia, uma religião, um algoritmo, um parceiro amoroso, que nos poupe
da difícil tarefa de existir por conta própria.
Durante
muito tempo, acreditei que amadurecer fosse apenas uma questão de idade
cronológica. Hoje, suspeito que a maturidade seja uma conquista psíquica, ética
e política extremamente rara. E talvez seja justamente por isso que fujamos
dela com tanta intensidade.
Freud foi
um dos primeiros a compreender que a maturidade implica uma renúncia dolorosa.
Em O mal-estar na civilização, ele demonstra que viver em sociedade
exige abandonar a fantasia de satisfação absoluta dos desejos. Tornar-se adulto
significa reconhecer limites: o limite do próprio corpo, o limite do prazer, o
limite do amor e, sobretudo, o limite da própria existência. O problema é que
uma parte de nós jamais aceita completamente essa perda. Continuamos
carregando, ao longo da vida, o sonho infantil de sermos excepcionais,
plenamente amados e protegidos contra toda forma de sofrimento.
Freud
talvez dissesse que a maturidade consiste em substituir o princípio do prazer
pelo princípio da realidade sem destruir completamente a capacidade de desejar.
Mas o que acontece quando a própria sociedade passa a prometer o contrário?
Quando somos constantemente estimulados a acreditar que podemos ter tudo,
imediatamente e sem renúncias?
Ferenczi
aprofundou essa questão ao mostrar como os traumas e as experiências precoces
de desamparo podem comprometer profundamente nossa capacidade de amadurecer.
Sua noção de "confusão de línguas" sugere que, muitas vezes, a
criança aprende precocemente a adaptar-se ao desejo do outro para sobreviver
emocionalmente. Ao invés de crescer, ela aprende a desempenhar papéis.
Talvez
muitos de nós jamais tenhamos deixado de fazer isso. Tornamo-nos adultos
competentes, produtivos, bem-sucedidos até, mas continuamos organizando nossas
vidas em função do reconhecimento alheio. Não amadurecemos; apenas sofisticamos
nossas estratégias de adaptação. A busca obsessiva por aprovação nas redes
sociais, no trabalho ou nos relacionamentos talvez seja uma das expressões
contemporâneas dessa antiga ferida.
Winnicott
oferece uma perspectiva igualmente inquietante. Para ele, amadurecer depende da
possibilidade de construir um verdadeiro self, capaz de existir de forma
espontânea e criativa. No entanto, quando as condições ambientais falham,
desenvolvemos um falso self: uma estrutura psíquica organizada para satisfazer
expectativas externas.
Às vezes
me pergunto se a sociedade contemporânea não se tornou uma gigantesca fábrica
de falsos selfes. Aprendemos a administrar nossa imagem, nosso currículo, nossa
identidade digital, nossas emoções e até nossa intimidade. Tornamo-nos gestores
de nós mesmos. O problema é que, quanto mais eficiente se torna essa gestão,
mais distante ficamos da experiência de sermos verdadeiramente reais.
Lacan
radicaliza ainda mais essa reflexão ao demonstrar que o sujeito humano é
constituído pela falta. Não existe completude possível. O desejo nasce
justamente daquilo que nos falta e nunca poderá ser plenamente preenchido. O
drama contemporâneo talvez resida no fato de que vivemos numa cultura que
promete incessantemente eliminar essa falta.
Compramos
objetos, experiências, relacionamentos, cursos, procedimentos estéticos e
identidades políticas ou culturais como se estivéssemos comprando fragmentos de
completude. Mas, como nos ensinou Lacan, o objeto definitivo da satisfação
simplesmente não existe. Fugimos da maturidade porque ela exige aceitar algo
quase insuportável: somos estruturalmente incompletos.
Essa
mesma percepção aparece, por outro caminho, em Erich Fromm. Em O medo à
liberdade, ele argumenta que os indivíduos frequentemente fogem da
autonomia porque a liberdade gera ansiedade. Ser livre significa ser
responsável. Significa abandonar tutelas. Significa aceitar a solidão inerente
à condição humana.
Ao
observar o crescimento dos fundamentalismos religiosos, dos autoritarismos
políticos e das diversas formas de fanatismo contemporâneo, pergunto-me se não
estamos assistindo precisamente a essa fuga da liberdade descrita por Fromm.
Muitas pessoas parecem dispostas a abrir mão da própria autonomia em troca da
promessa de segurança, pertencimento e certeza.
Zygmunt
Bauman, por sua vez, descreveu a nossa época como uma modernidade líquida,
caracterizada pela fragilidade dos vínculos, pela aceleração das mudanças e
pela dissolução das referências estáveis. Nesse contexto, amadurecer torna-se
particularmente difícil porque a própria ideia de estabilidade passou a ser
vista com suspeita.
Queremos
relacionamentos sem compromisso, carreiras sem permanência, identidades sem
fixidez e escolhas sem consequências definitivas. A imaturidade deixa de ser um
problema e passa a funcionar como uma estratégia adaptativa diante de um mundo
marcado pela incerteza permanente.
Hartmut
Rosa amplia essa análise ao mostrar como a aceleração social produz uma
experiência de alienação temporal. Vivemos correndo para não perder
oportunidades, informações, experiências e conexões. O resultado paradoxal é
que nos tornamos incapazes de construir relações profundas de ressonância com o
mundo, com os outros e conosco mesmos.
Talvez a
maturidade exija precisamente aquilo que nossa época menos tolera: tempo. Tempo
para elaborar perdas. Tempo para construir vínculos. Tempo para refletir sobre
os próprios desejos. Tempo para fracassar e recomeçar. Em uma sociedade
acelerada, amadurecer torna-se quase um ato de resistência.
Byung-Chul
Han leva essa crítica ao limite ao argumentar que vivemos na sociedade do
desempenho. Já não somos disciplinados por autoridades externas; exploramos a
nós mesmos voluntariamente. Somos empresários de nossa própria subjetividade.
Nesse
cenário, a imaturidade assume uma forma particularmente sofisticada. Não
fugimos mais da responsabilidade; transformamos a responsabilidade em culpa
permanente. Se fracassamos, acreditamos que a culpa é exclusivamente nossa. Se
sofremos, entendemos que precisamos apenas otimizar melhor nossa performance.
Perdemos, assim, a capacidade de reconhecer os limites humanos e a
vulnerabilidade compartilhada.
Quanto
mais penso sobre isso, mais suspeito que a fuga da maturidade não seja apenas
uma questão psicológica, mas uma característica estrutural do capitalismo
contemporâneo. O consumidor ideal é alguém permanentemente insatisfeito,
ansioso, dependente de reconhecimento e incapaz de aceitar limites. Uma
sociedade formada por indivíduos maduros, capazes de suportar frustrações,
assumir responsabilidades e resistir às promessas de satisfação imediata,
talvez fosse menos lucrativa e menos governável.
No
entanto, continuo acreditando que a maturidade permanece uma possibilidade
humana fundamental. Não a maturidade entendida como rigidez, conformismo ou
perda da capacidade de sonhar, mas como a coragem de habitar a própria
incompletude.
Talvez
amadurecer signifique aceitar, simultaneamente, várias verdades difíceis: que
somos vulneráveis, mas não impotentes; que somos incompletos, mas não vazios;
que somos livres, mas nunca completamente livres; que somos finitos, mas ainda
assim capazes de criar sentido.
Hoje,
penso que fugimos da maturidade porque ela nos obriga a abandonar a fantasia
mais sedutora de todas: a de que alguém, em algum lugar, poderá finalmente nos
poupar da tarefa de viver nossa própria vida.
E talvez
crescer seja justamente descobrir que ninguém poderá fazê-lo por nós, e que,
apesar disso, ou talvez exatamente por isso, a existência humana continua sendo
uma aventura extraordinária.
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