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Monark diante da esquerda: liberdade, responsabilidade e o difícil direito de mudar

  Assistir a uma conversa entre Breno Altman e Bruno Aiub, o Monark, provoca em mim uma sensação que considero politicamente saudável: desconforto. Não porque o diálogo necessariamente modifique aquilo que penso sobre as declarações que tornaram Monark uma das figuras mais controversas da internet brasileira, mas porque me obriga a enfrentar uma pergunta que frequentemente evitamos: o que fazemos, democraticamente, com quem defende ideias que julgamos profundamente equivocadas? Há algo simbolicamente interessante no próprio encontro. De um lado, Breno Altman, jornalista identificado com a esquerda, acostumado a entrevistar intelectuais, militantes e personagens da política nacional e internacional. Do outro, Monark, personagem surgido da cultura digital, fundador do Flow Podcast e transformado, especialmente depois de 2022, em símbolo de uma determinada concepção quase absoluta da liberdade de expressão. Não me interessa transformar Monark nem em mártir nem em monstro. Essa t...

Quando o animal humano perde suas ilusões: minha leitura de Cachorros de Palha, de John Gray

  Ler Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais , de John Gray, produziu em mim uma sensação desconfortável. Não porque o filósofo britânico simplesmente descreva um mundo sombrio, mas porque dirige sua crítica contra algumas das crenças que sustentam nossa maneira moderna de imaginar a nós mesmos: progresso, racionalidade, domínio da natureza, liberdade individual e, sobretudo, a convicção de que existe alguma coisa excepcional no ser humano. Gray parece aproximar-se de nós e perguntar: quem nos disse que somos tão especiais? É uma pergunta perturbadora. Durante séculos, construímos diferentes justificativas para nossa excepcionalidade. A religião afirmou que fomos criados à imagem de Deus. Parte da filosofia colocou a razão como nossa característica distintiva. A modernidade secular substituiu progressivamente Deus pela humanidade. A ciência e a tecnologia alimentaram a expectativa de que poderíamos compreender, controlar e talvez superar os limites impos...