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Justiça para os animais: a dignidade da vida para além das fronteiras humanas

 Há algo profundamente contraditório na maneira como a humanidade construiu sua relação com os demais seres vivos. Somos capazes de desenvolver tecnologias extraordinárias, investigar os mistérios do universo, formular teorias sofisticadas sobre a justiça e proclamar solenemente a universalidade dos direitos. Entretanto, continuamos organizando nossa existência sobre estruturas que naturalizam o sofrimento, a exploração e a morte de bilhões de animais. Criamos uma civilização que se orgulha de sua racionalidade, mas que frequentemente utiliza essa mesma racionalidade para justificar a dominação daqueles que não podem falar a nossa língua, reivindicar juridicamente seus direitos ou resistir às instituições que determinam seus destinos. Foi essa contradição que me atravessou ao refletir sobre Justiça para os animais: nossa responsabilidade coletiva, da filósofa norte-americana Martha C. Nussbaum. A obra me parece particularmente importante porque desloca a discussão sobre os animais ...

A profecia e as vozes que o mundo insiste em silenciar: reflexões sobre A profecia, de Dali Balla Fofana

 Há livros que nos convidam a olhar para o futuro, enquanto outros nos obrigam a interrogar o passado. Para mim, a ideia de profecia, evocada na obra A profecia, de Dali Balla Fofana, abre uma possibilidade de reflexão sobre a memória, a ancestralidade, o destino e as contradições de uma humanidade que, apesar de tantos avanços científicos e tecnológicos, continua reproduzindo antigas formas de dominação. A primeira pergunta que me faço é: o que significa uma profecia em uma sociedade que acredita controlar o futuro, mas demonstra tão pouca capacidade de compreender o próprio presente? Vivemos sob a promessa permanente do progresso. A tecnologia nos oferece instrumentos capazes de antecipar comportamentos, calcular probabilidades e projetar cenários. Os algoritmos pretendem conhecer nossos desejos antes mesmo de conseguirmos formulá-los. Entretanto, quanto mais sofisticados se tornam os mecanismos de previsão, mais evidente parece nossa dificuldade de construir coletivamente um fut...

O Brasil entre a tristeza, a cobiça e a esperança: uma leitura crítica de Retrato do Brasil, de Paulo Prado

 Há livros que envelhecem porque as sociedades se transformam. Outros permanecem inquietantes justamente porque revelam problemas que atravessam diferentes épocas, ainda que suas interpretações precisem ser profundamente questionadas. Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira, publicado em 1928 por Paulo Prado, pertence, para mim, a essa segunda categoria. Ao entrar em contato com essa obra, encontro um Brasil marcado pela cobiça, pela violência colonial, pela exploração econômica e por uma profunda inquietação diante de sua própria formação histórica. Entretanto, encontro também um olhar atravessado pelos preconceitos, pelas limitações científicas e pelas contradições sociais de uma elite intelectual que procurava interpretar o país sem conseguir romper inteiramente com os valores de seu próprio tempo. O livro me provoca uma pergunta que considero fundamental: a tristeza brasileira seria uma característica de nossa formação cultural ou uma consequência histórica das es...

Para além das fronteiras da justiça: dignidade, deficiência e o direito de existir em um mundo que não seja privilégio de poucos

 Há livros que nos oferecem respostas para problemas conhecidos. Outros, entretanto, possuem uma capacidade ainda mais importante: obrigam-nos a reconhecer que formulamos as perguntas de maneira insuficiente. Fronteiras da Justiça, da filósofa norte-americana Martha C. Nussbaum, pertence, para mim, a essa segunda categoria. Ao refletir sobre sua obra, percebo que muitas das concepções de justiça que orientam nossas instituições políticas, nossas relações sociais e até mesmo nossos valores morais foram construídas a partir de uma imagem limitada do ser humano. Imaginamos um indivíduo racional, autônomo, produtivo, independente e capaz de participar de relações de cooperação em condições relativamente equivalentes. Entretanto, essa representação deixa à margem milhões de pessoas cujas experiências não correspondem a esse ideal. Pessoas com deficiência, indivíduos que necessitam de cuidados permanentes, populações submetidas à pobreza extrema, refugiados, migrantes e até mesmo os anim...