Monark diante da esquerda: liberdade, responsabilidade e o difícil direito de mudar

 

Assistir a uma conversa entre Breno Altman e Bruno Aiub, o Monark, provoca em mim uma sensação que considero politicamente saudável: desconforto. Não porque o diálogo necessariamente modifique aquilo que penso sobre as declarações que tornaram Monark uma das figuras mais controversas da internet brasileira, mas porque me obriga a enfrentar uma pergunta que frequentemente evitamos: o que fazemos, democraticamente, com quem defende ideias que julgamos profundamente equivocadas?

Há algo simbolicamente interessante no próprio encontro. De um lado, Breno Altman, jornalista identificado com a esquerda, acostumado a entrevistar intelectuais, militantes e personagens da política nacional e internacional. Do outro, Monark, personagem surgido da cultura digital, fundador do Flow Podcast e transformado, especialmente depois de 2022, em símbolo de uma determinada concepção quase absoluta da liberdade de expressão.

Não me interessa transformar Monark nem em mártir nem em monstro.

Essa talvez seja a primeira conclusão que retiro desse encontro.

O erro de transformar liberdade em absoluto

A controvérsia que mudou a trajetória de Monark ocorreu quando, em 2022, durante uma edição do Flow Podcast, ele defendeu que deveria ser legalmente possível existir no Brasil um partido nazista. A declaração provocou enorme reação pública, perda de patrocinadores e seu afastamento do programa.

Considero aquela posição indefensável.

E não considero necessário relativizá-la para reconhecer que discutir suas consequências continua sendo importante.

O problema da concepção de liberdade frequentemente defendida por Monark está em imaginar a palavra como se ela existisse fora da história. Nessa perspectiva, quanto maior a possibilidade de dizer qualquer coisa, maior seria automaticamente a liberdade existente numa sociedade.

Mas a história do século XX deveria ter nos ensinado que democracia não funciona dessa maneira.

Palavras não são apenas sons circulando livremente pelo espaço público. Elas organizam afetos, legitimam identidades, constroem inimigos, mobilizam grupos e podem preparar condições sociais para determinadas formas de violência.

O nazismo não começou nas câmaras de gás.

Antes dos campos de extermínio existiram discursos, jornais, partidos, teorias raciais, caricaturas, campanhas políticas e uma progressiva transformação de seres humanos em inimigos cuja existência parecia representar uma ameaça à sociedade.

Por isso, quando alguém reivindica abstratamente o "direito" de organização política do nazismo, não estamos discutindo simplesmente uma opinião desagradável. Estamos falando de uma ideologia historicamente constituída em torno da perseguição, da hierarquia racial, do autoritarismo e do extermínio.

Karl Popper formulou o conhecido paradoxo da tolerância: uma sociedade ilimitadamente tolerante pode terminar destruída pelos intolerantes caso estes utilizem as liberdades democráticas justamente para eliminar a democracia.

A questão, portanto, não é escolher entre liberdade e censura.

A questão muito mais difícil é descobrir quais limites são necessários para que a própria liberdade continue existindo.

Mas existe outro problema: quem decide os limites?

Entretanto, também não me satisfaz responder a Monark simplesmente afirmando que determinados discursos devem ser proibidos.

Porque imediatamente surge outra pergunta: quem determina aquilo que pode ou não ser dito?

Esse problema não pode ser tratado com ingenuidade.

Governos autoritários frequentemente apresentam censura como proteção da sociedade. Regimes políticos perseguem adversários alegando combater desinformação, extremismo, terrorismo ou ameaças à ordem pública.

Por isso, defender limites democráticos à expressão exige simultaneamente estabelecer limites ao poder daqueles que podem impor esses limites.

É justamente aí que considero necessária uma posição mais sofisticada do que dois slogans opostos:

"liberdade de expressão absoluta";

ou

"certas pessoas não deveriam ter voz".

Nenhuma dessas fórmulas me parece suficiente.

Uma democracia precisa proteger vigorosamente opiniões impopulares, desagradáveis, minoritárias e até ofensivas. Caso contrário, a liberdade existirá apenas para quem pensa como a maioria.

Mas proteger opiniões controversas não significa conceder imunidade a ameaças, perseguições, incitação à violência ou organizações destinadas a eliminar direitos fundamentais de determinados grupos.

A fronteira é difícil.

Justamente por isso ela precisa ser jurídica, pública, transparente, proporcional e permanentemente discutida.

Monark também é produto da internet que criamos

Há outra dimensão da entrevista que me interessa particularmente. Monark não deveria ser analisado apenas como indivíduo.

Ele é também um personagem típico de determinada transformação da esfera pública brasileira.

Durante décadas, jornalistas, professores, intelectuais, partidos e instituições tradicionais funcionaram como mediadores do debate público. A internet rompeu parcialmente essas estruturas.

Isso teve efeitos profundamente democráticos.

Pessoas que jamais teriam acesso a grandes emissoras passaram a produzir conteúdo. Podcasts criaram conversas longas que dificilmente caberiam na televisão. Grupos historicamente marginalizados conquistaram espaços próprios de expressão.

Mas a mesma revolução produziu uma estranha economia da atenção.

Quanto mais controversa uma declaração, maior sua circulação.

Quanto maior a indignação, maior o engajamento.

Quanto maior o conflito, maior a audiência.

Assim, a arquitetura das plataformas cria incentivos para que todos nós nos tornemos personagens cada vez mais caricaturais de nossas próprias opiniões.

O moderado desaparece.

O hesitante não viraliza.

A dúvida não produz tantos cliques.

A indignação, sim.

Nesse sentido, Monark não é uma anomalia da internet. Ele é, em alguma medida, um dos seus produtos mais característicos.

A armadilha da perseguição

Também considero necessário refletir sobre aquilo que acontece depois que alguém comete um erro público grave.

Existe hoje uma espécie de punição potencialmente infinita proporcionada pelas redes sociais.

Antigamente, uma declaração podia desaparecer no fluxo do tempo. Hoje ela permanece armazenada, recortada, compartilhada e recuperável indefinidamente.

Isso cria um problema moral importante.

Qual deve ser a duração social de uma condenação?

Uma pessoa pode mudar?

Pode reconsiderar posições?

Pode reconstruir sua vida pública?

Se acreditamos que ninguém pode mudar, estamos adotando uma concepção profundamente determinista do ser humano.

Eu não quero uma sociedade na qual um erro, mesmo grave, transforme necessariamente alguém em condenado perpétuo da esfera pública.

Mas existe uma condição fundamental: mudança não significa simplesmente declarar-se vítima das consequências.

Rever uma posição exige reconhecer aquilo que havia de errado nela.

Existe enorme diferença entre dizer "fui injustiçado por aquilo que falei" e dizer "compreendo hoje por que aquilo que falei era problemático".

A primeira frase preserva intacta a antiga convicção.

A segunda abre possibilidade de transformação.

Escutar não significa concordar

Por isso considero relevante que Breno Altman converse com Monark.

Existe atualmente uma tendência preocupante de confundirmos entrevista com endosso.

Entrevistar alguém não significa concordar com essa pessoa.

Escutar alguém não significa absolvê-la.

Permitir que alguém explique suas ideias não significa legitimá-las.

Pelo contrário: algumas ideias somente revelam plenamente suas contradições quando são submetidas ao diálogo.

Uma esquerda democrática não deveria temer a conversa.

Se nossas ideias são suficientemente sólidas, precisamos ser capazes de confrontá-las com argumentos diferentes, inclusive argumentos que consideramos equivocados.

O risco aparece quando substituímos debate por espetáculo.

Uma entrevista intelectualmente relevante precisa fazer aquilo que as redes sociais raramente fazem: desacelerar.

Perguntar.

Contradizer.

Exigir explicações.

Recuperar contexto.

Apontar inconsistências.

E, eventualmente, reconhecer quando o interlocutor apresenta uma questão legítima.

A liberdade que defendo

Eu defendo a liberdade de expressão justamente porque sou contrário ao autoritarismo.

Quero uma sociedade na qual alguém possa criticar o presidente, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o capitalismo, o socialismo, as religiões, as empresas, os meios de comunicação e qualquer autoridade política ou moral.

A democracia necessita da irreverência.

Necessita inclusive de pessoas inconvenientes.

Mas liberdade não é ausência de responsabilidade.

Nenhum direito fundamental existe isoladamente. Minha liberdade convive com a dignidade, a integridade e os direitos das outras pessoas.

Talvez parte do problema contemporâneo esteja justamente na transformação da liberdade em propriedade individual.

"Minha liberdade."

"Minha opinião."

"Meu direito."

Esquecemos que liberdade é também uma relação social.

Só sou verdadeiramente livre numa sociedade em que outras pessoas também possam existir livremente.

É por isso que uma ideologia dedicada a eliminar a liberdade de determinados grupos não pode simplesmente reivindicar proteção democrática como se estivesse defendendo uma preferência gastronômica.

Existe uma contradição aí que o liberalismo mais simplificado não consegue resolver.

O que Monark nos obriga a discutir

Ao final, penso que a importância dessa entrevista ultrapassa seus dois participantes.

Ela coloca diante de nós algumas das questões centrais do nosso tempo.

Quem controla a esfera pública?

Até onde plataformas privadas podem decidir quem fala?

Qual deve ser o papel do Estado?

Como combater desinformação sem construir instrumentos futuros de censura?

Como impedir movimentos autoritários sem transformar a democracia em autoritarismo preventivo?

Como responsabilizar pessoas sem instituir punições sociais eternas?

Não tenho respostas simples para essas perguntas.

E talvez seja justamente esse o problema de nossa época: queremos respostas simples para problemas que são estruturalmente complexos.

Monark frequentemente me parece representar uma concepção excessivamente simples da liberdade: se todo mundo puder dizer tudo, a verdade acabará prevalecendo.

Não acredito nisso.

A história demonstra que mentiras também mobilizam multidões.

Preconceitos também vencem eleições.

Propaganda também constrói consensos.

Mas igualmente me preocupa a solução inversa: imaginar que alguma instituição suficientemente sábia possa separar definitivamente verdade e mentira, opinião legítima e opinião ilegítima.

Também não acredito nisso.

Prefiro uma democracia barulhenta, conflituosa e imperfeita, mas cercada por direitos, instituições, contraditório e responsabilidade.

O direito ao arrependimento

Talvez, porém, exista uma dimensão ainda mais humana nessa conversa.

Vivemos numa sociedade que documenta nossos erros, mas oferece poucos rituais de retorno.

Sabemos cancelar.

Sabemos denunciar.

Sabemos expor.

Ainda precisamos aprender a reconstruir.

Isso não significa esquecer aquilo que aconteceu.

Muito menos relativizar nazismo, racismo, violência ou autoritarismo.

Significa reconhecer algo elementar: se não acreditamos na possibilidade de transformação humana, qualquer política emancipatória perde parte de seu sentido.

Quero poder dizer a alguém: "aquilo que você fez foi errado".

Mas também quero poder perguntar:

"o que você pensa hoje?"

Porque entre essas duas frases existe todo um projeto de sociedade.

A primeira estabelece responsabilidade.

A segunda admite transformação.

Talvez uma democracia madura precise das duas.

Por isso, ao observar Breno Altman conversando com Monark, não vejo apenas um jornalista de esquerda entrevistando um influenciador controverso. Vejo dois personagens de mundos políticos e comunicacionais distintos colocados diante de uma pergunta que diz respeito a todos nós.

O que devemos fazer com quem pensa radicalmente diferente de nós?

Minha resposta continua sendo: confrontar ideias, estabelecer limites democráticos quando direitos forem ameaçados, responsabilizar quando houver violações, mas preservar, sempre que possível, o espaço do diálogo.

Porque democracia não é o lugar onde finalmente conseguimos eliminar aqueles que consideramos errados.

Democracia é o difícil aprendizado de construir uma sociedade na qual o conflito não precise terminar na destruição do outro.

E talvez seja exatamente por isso que conversar ainda seja uma das atividades mais políticas que podemos realizar.

Francisco José Mesquita Bezerra

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