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Mostrando postagens de setembro, 2026

Quando a memória deixa de proteger: do Holocausto à tragédia palestina

 Ler A Indústria do Holocausto: Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento Judaico , de Norman G. Finkelstein, é entrar em um terreno no qual qualquer palavra precisa ser cuidadosamente pensada. Não porque o Holocausto deva ser colocado fora da crítica histórica, nenhuma experiência humana deveria estar, mas porque estamos diante de uma das maiores catástrofes produzidas pelo homem moderno. Aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores. Antes de discutir os usos políticos dessa memória, portanto, considero indispensável reconhecer a dimensão incomensurável do crime que lhe deu origem. É justamente dessa distinção que parte minha leitura de Finkelstein. Filho de sobreviventes judeus do Holocausto, ele não nega a Shoah nem diminui sua gravidade. Sua provocação consiste em separar aquilo que aconteceu historicamente daquilo que chama, de maneira deliberadamente controversa, de “indústria do Holocausto”: um conjunto de instituições, ...

O que o trabalho faz de nós: entre sofrimento, reconhecimento e a honra de estar vivo

 Ler O que há de melhor em nós: trabalhar e honrar a vida , de Christophe Dejours, provoca em mim uma sensação aparentemente contraditória. Depois de tantos diagnósticos contemporâneos sobre precarização, esgotamento, assédio, competição e adoecimento, Dejours me obriga a recordar que o trabalho não precisa ser apenas aquilo que nos destrói. Ele também pode ser uma das experiências pelas quais construímos nossa humanidade. Essa afirmação exige cuidado. Não se trata de romantizar o trabalho, muito menos de repetir a velha moral segundo a qual trabalhar dignifica automaticamente o ser humano. Conhecemos trabalhos humilhantes, alienantes, perigosos e psicologicamente devastadores. O próprio percurso intelectual de Dejours dedicou enorme atenção à psicopatologia e ao sofrimento relacionados ao trabalho. Por isso, quando ele aproxima trabalhar e honrar a vida , não interpreto essa aproximação como elogio ingênuo da produtividade. Entendo-a como uma pergunta muito mais profunda: o que a...

O Brasil no impasse: quando a democracia encontra a onda reacionária

 Ler Impasse: O Brasil diante da onda reacionária , de André Singer, é ser levado a pensar sobre uma contradição que atravessa a história política brasileira: como um país capaz de produzir importantes experiências de inclusão social também consegue gerar movimentos de reação tão intensos a essas mesmas transformações? Para mim, o livro interessa justamente porque Singer procura compreender a crise brasileira sem reduzi-la à personalidade de um governante, a uma eleição ou a uma sucessão de acontecimentos isolados. O que está em questão são movimentos mais profundos da sociedade brasileira, suas classes, seus conflitos e suas dificuldades históricas de construir uma democracia socialmente substantiva. O termo impasse me parece especialmente importante. Um impasse não significa simplesmente uma derrota. É uma situação na qual forças diferentes conseguem bloquear umas às outras sem que nenhuma consiga produzir uma solução estável. É dessa maneira que interpreto parte da história bra...

Quando trabalhar dói: a loucura escondida sob a aparência da normalidade

 Ler A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho , de Christophe Dejours, é entrar em contato com uma pergunta que considero cada vez mais urgente: quanto sofrimento somos capazes de suportar para continuar trabalhando, e, sobretudo, por que aprendemos a considerar esse sofrimento normal? O que mais me inquieta em Dejours é justamente sua capacidade de deslocar o problema. Em vez de perguntar apenas por que determinadas pessoas adoecem no trabalho, ele nos leva a perguntar como tantas pessoas conseguem permanecer aparentemente normais dentro de condições de trabalho que produzem medo, desgaste, frustração, humilhação e sofrimento. Essa mudança parece pequena, mas é radical. Estamos acostumados a individualizar o sofrimento. Quando alguém desenvolve ansiedade, depressão, insônia, irritabilidade, esgotamento ou sintomas físicos relacionados ao trabalho, frequentemente procuramos alguma fragilidade naquela pessoa. Talvez ela não saiba administrar o tempo. Talvez seja e...

Depois do teu corpo

 Depois do teu corpo ficou em mim uma espécie de noite. Não a noite das estrelas, nem a noite dos amantes que ainda acreditam que o amor pode vencer o tempo. Ficou uma noite mais funda, dessas que começam na carne e terminam não sei onde. Ainda me lembro da geografia dos teus ombros, da curva lenta das tuas costas, do pequeno silêncio que antecedia o beijo. Havia momentos em que tua boca sobre a minha parecia abolir o mundo. E eu acreditava. Como são ingênuos os amantes: encostam dois corpos e imaginam ter derrotado a morte. Talvez por isso eu gostasse tanto de permanecer nu ao teu lado depois do amor. Não era apenas desejo. Era espanto. Olhava teu corpo adormecido e pensava: como pode uma criatura tão provisória ser tão bela? Passava os dedos lentamente por tua pele, como quem lê um livro condenado ao incêndio. Eu sabia, mesmo então, que alguma coisa acabaria. Tudo acaba. A juventude. A febre. Os amantes. As cidades. Até nossas mãos, que naquela noite se procuravam desesperadament...

Sete virtudes que todo analista precisa cultivar

 Quando penso nas qualidades necessárias a um analista, procuro evitar a palavra “virtude” no sentido moralista. O analista não é alguém moralmente superior, mais equilibrado ou mais esclarecido do que aquele que chega ao consultório. A psicanálise, aliás, deveria nos tornar desconfiados dessa fantasia. O analista também é atravessado pelo inconsciente, pelo desejo, pelo narcisismo, pelas próprias feridas e pontos cegos. Por isso, quando falo em virtudes analíticas, penso menos em características que alguém possui definitivamente e mais em disposições que precisam ser continuamente cultivadas. Algumas delas não são aprendidas apenas nos livros. São construídas na análise pessoal, na supervisão, na experiência clínica e, principalmente, no confronto com aquilo que cada paciente desperta em nós. Para mim, sete delas são fundamentais. 1. Saber escutar sem ter pressa de compreender Talvez a primeira virtude seja justamente a mais óbvia e a mais difícil: escutar. Freud propôs a atenção ...

O Eu-prazer purificado e o narcisismo patológico: quando o outro só pode existir como espelho

 Quando penso no conceito freudiano de Eu-prazer purificado , não consigo tratá-lo apenas como uma formulação distante, pertencente aos primeiros tempos da constituição psíquica. Há algo dessa lógica primitiva que continua nos acompanhando durante toda a vida: a tendência de considerar como “meu” aquilo que proporciona prazer e expulsar para fora aquilo que provoca desprazer. Em determinadas configurações narcísicas, essa lógica parece adquirir uma força extraordinária. O outro deixa de ser verdadeiramente outro e passa a ser tolerado somente enquanto confirma aquilo que desejo encontrar em mim mesmo. Freud aborda essa questão de maneira particularmente interessante em Pulsões e seus destinos . Em determinado momento da constituição psíquica, estabelece-se aquilo que ele denomina Eu-prazer purificado . O que produz prazer tende a ser incorporado ao Eu; aquilo que produz desprazer é colocado para fora, relacionado ao não-Eu, ao mundo exterior. Forma-se uma oposição primitiva: prazer...

Quando não ouvimos a música do outro

 “Aqueles que dançavam foram julgados insanos por aqueles que não ouviam a música.” Há frases que sobrevivem porque condensam numa imagem algo profundamente humano. Independentemente das atribuições que circulam sobre sua autoria, gosto dessa frase porque ela me obriga a fazer uma pergunta incômoda: quantas vezes chamei de absurdo aquilo cuja música eu simplesmente não conseguia ouvir? A imagem é simples. Algumas pessoas dançam. Outras observam. Para quem dança, existe ritmo, sentido, intensidade, talvez alegria, desejo ou êxtase. Para quem está de fora e não escuta a música, porém, existem apenas corpos executando movimentos aparentemente inexplicáveis. É justamente nessa distância entre a experiência daquele que dança e o olhar daquele que observa que nasce o julgamento. Isso me faz pensar que aquilo que chamamos de normalidade nunca é completamente neutro. Toda sociedade constrói expectativas sobre como devemos falar, desejar, trabalhar, amar, vestir, produzir, envelhecer e até ...

Ecologias da Radicalização: Crise, Algoritmos e a Fabricação dos Inimigos

 Ler Ecologias de crise: uma teoria cibernética da radicalização , de Letícia Cesarino, me provoca uma sensação desconfortável: talvez estejamos procurando as causas da radicalização política nos lugares errados. Durante muito tempo, tentei compreender o crescimento da extrema direita principalmente pela ideologia, pela crise econômica, pelo ressentimento social, pela religião, pelo conservadorismo ou pela manipulação das redes sociais. Cesarino não torna essas explicações inúteis, mas me obriga a enxergar algo maior: a radicalização não acontece isoladamente dentro da cabeça das pessoas. Ela emerge de ambientes, relações, tecnologias e circuitos de retroalimentação. Essa mudança de perspectiva me parece fundamental. A pergunta deixa de ser apenas “por que determinada pessoa se radicalizou?” e passa a ser: que tipo de ecossistema tornou essa radicalização possível, desejável e continuamente reproduzível? É justamente a palavra “ecologia” que considero uma das grandes forças do pens...

Quando Atacam Aparecida: Fé, Poder e a Disputa pela Identidade do Brasil

 Há algo que me inquieta profundamente nos ataques que setores mais fundamentalistas e radicalizados da extrema direita brasileira dirigem a Nossa Senhora Aparecida. Não me refiro simplesmente à divergência teológica de evangélicos que, por razões doutrinárias, rejeitam a veneração de Maria, dos santos ou das imagens. Essa diferença pertence à história do cristianismo e deve ser respeitada numa sociedade plural. Minha preocupação começa quando a divergência religiosa deixa o espaço da fé e se transforma em projeto de poder, buscando redefinir os símbolos públicos do país segundo a crença de um segmento específico da população. É nesse ponto que considero necessário perguntar: o que significa Nossa Senhora Aparecida ser Padroeira do Brasil? E por que esse título incomoda determinados setores? A história ajuda a compreender a força desse símbolo. A tradição de Nossa Senhora Aparecida remonta a 1717, quando três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, teriam encontra...