Quando o animal humano perde suas ilusões: minha leitura de Cachorros de Palha, de John Gray
Ler Cachorros
de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais, de John Gray, produziu
em mim uma sensação desconfortável. Não porque o filósofo britânico
simplesmente descreva um mundo sombrio, mas porque dirige sua crítica contra
algumas das crenças que sustentam nossa maneira moderna de imaginar a nós
mesmos: progresso, racionalidade, domínio da natureza, liberdade individual e,
sobretudo, a convicção de que existe alguma coisa excepcional no ser humano.
Gray
parece aproximar-se de nós e perguntar: quem nos disse que somos tão
especiais?
É uma
pergunta perturbadora.
Durante
séculos, construímos diferentes justificativas para nossa excepcionalidade. A
religião afirmou que fomos criados à imagem de Deus. Parte da filosofia colocou
a razão como nossa característica distintiva. A modernidade secular substituiu
progressivamente Deus pela humanidade. A ciência e a tecnologia alimentaram a
expectativa de que poderíamos compreender, controlar e talvez superar os
limites impostos pela natureza.
Gray
suspeita de tudo isso.
E sua
suspeita constitui, simultaneamente, a força e o problema de Cachorros de
Palha.
O humanismo como religião secular
Uma das
ideias que mais me provocaram é a crítica de Gray ao humanismo moderno.
Costumamos
imaginar que o abandono das grandes certezas religiosas significou
necessariamente a secularização completa do pensamento ocidental. Gray
argumenta, entretanto, que parte do humanismo simplesmente preservou antigas
estruturas cristãs sob uma linguagem secular.
Retiramos
Deus, mas conservamos a salvação.
Retiramos
o Paraíso, mas inventamos o progresso.
Retiramos
a Providência, mas mantivemos a História caminhando em determinada direção.
Essa
provocação merece ser levada a sério.
A ideia
de que a humanidade necessariamente progride não é uma conclusão científica. É
uma interpretação histórica.
E a
história oferece evidências suficientes para desconfiarmos dela.
O século
XX produziu extraordinários avanços científicos e, simultaneamente, guerras
mundiais, genocídios, campos de concentração, armas nucleares e diferentes
experiências totalitárias.
Conhecimento
não produz automaticamente sabedoria.
Tecnologia
não produz necessariamente emancipação.
Educação
não imuniza sociedades contra a barbárie.
Talvez
esse seja um dos golpes mais fortes que Gray desfere contra nosso narcisismo
moderno: não existe garantia histórica de que amanhã seremos moralmente
melhores do que somos hoje.
Darwin levado a sério
Gray
também nos obriga a confrontar algo que aceitamos teoricamente e frequentemente
recusamos existencialmente.
Somos
animais.
A teoria
da evolução retirou o ser humano do centro da criação, mas continuamos muitas
vezes pensando como se Darwin valesse para nossos corpos e não para nossa
concepção de humanidade.
Aceitamos
compartilhar ancestrais com outros animais, mas continuamos imaginando que
existe dentro de nós alguma substância capaz de nos colocar completamente acima
da natureza.
Gray
radicaliza a consequência filosófica do darwinismo.
Se somos
resultado de processos evolutivos contingentes, por que acreditar que a espécie
humana representa o objetivo final de alguma história universal?
A
evolução não possui necessariamente um projeto.
Não
estava caminhando secretamente em nossa direção.
Homo
sapiens não é a conclusão de uma narrativa cósmica.
Somos uma
possibilidade que aconteceu.
E
poderíamos desaparecer.
Essa
ideia deveria produzir humildade.
Entretanto,
frequentemente produzimos exatamente o contrário.
O animal que acredita não ser animal
Existe
uma ironia profunda em nossa relação com a natureza.
Somos
natureza tentando dominar a natureza.
Construímos
cidades, máquinas, medicamentos, computadores e satélites e começamos a
imaginar que escapamos da condição animal.
Mas
continuamos necessitando de água.
Oxigênio.
Alimento.
Temperaturas
habitáveis.
Ecossistemas
funcionando.
Nosso
cérebro pode criar inteligência artificial, mas nosso corpo continua dependendo
de condições ambientais extremamente específicas.
A crise
climática torna essa contradição quase trágica.
Uma
espécie suficientemente inteligente para compreender as consequências de suas
próprias ações pode continuar realizando essas ações mesmo conhecendo suas
consequências.
Isso
deveria nos fazer pensar sobre os limites da racionalidade.
Saber não
significa necessariamente mudar.
Uma
pessoa pode conhecer os riscos do tabagismo e continuar fumando.
Uma
sociedade pode conhecer os efeitos da destruição ambiental e continuar
destruindo.
Uma
civilização pode produzir relatórios científicos extraordinariamente
sofisticados sobre mudanças climáticas enquanto mantém estruturas econômicas
dependentes de crescimento material permanente.
Nesse
ponto, Gray me parece particularmente atual.
A fé no progresso tecnológico
Hoje
existe uma nova versão da velha esperança de salvação: a tecnologia.
Inteligência
artificial, engenharia genética, interfaces cérebro-computador, biotecnologia e
projetos de extensão radical da vida alimentam discursos segundo os quais
finalmente poderemos superar limitações humanas.
Não
desprezo essas possibilidades.
A ciência
já reduziu sofrimentos que durante milênios pareciam inevitáveis. Vacinas,
antibióticos, saneamento, anestesia, transplantes e inúmeras tecnologias
salvaram milhões de vidas.
Minha
divergência com qualquer crítica indiscriminada ao progresso começa justamente
aqui.
Existem
progressos reais.
Uma
criança não morrer de uma doença evitável é progresso.
Reduzir
mortalidade materna é progresso.
Eliminar
determinada doença é progresso.
Ampliar
direitos também pode ser progresso.
A questão
é outra: nenhuma dessas conquistas garante que o progresso seja permanente,
universal ou irreversível.
Direitos
podem retroceder.
Tecnologias
podem ser utilizadas para emancipação ou controle.
Conhecimentos
podem curar ou matar.
A mesma
física que permite compreender as estrelas possibilitou construir a bomba
atômica.
Gray me
ajuda, portanto, menos a rejeitar o progresso do que a abandonar sua
interpretação religiosa.
Progresso
não é destino.
É
conquista precária.
Somos realmente seres racionais?
Outra
dimensão perturbadora do livro é sua crítica à ideia de indivíduo racional e
autônomo.
Gostamos
de imaginar que nossas decisões são resultado de reflexão consciente.
Mas
psicologia, psicanálise, neurociência e ciências sociais oferecem razões
suficientes para complicar essa imagem.
Somos
atravessados por desejos inconscientes, hábitos, emoções, pressões sociais,
vieses cognitivos, pertencimentos grupais e circunstâncias históricas.
Freud já
havia atacado violentamente o narcisismo humano ao afirmar, em essência, que o
eu não governa integralmente sua própria casa.
Gray
empurra essa ferida ainda mais fundo.
Talvez
nossa consciência seja menos soberana do que gostaríamos.
Isso
possui consequências políticas.
Se seres
humanos não são agentes perfeitamente racionais, não podemos construir
instituições imaginando que serão.
Precisamos
de freios, contrapoderes, regras e instituições justamente porque ninguém
deveria possuir poder ilimitado confiando apenas em sua própria virtude.
Nesse
sentido, uma visão menos idealizada do ser humano pode paradoxalmente produzir
uma política mais democrática.
Onde começo a discordar de Gray
Mas é
justamente aqui que minha resistência ao livro cresce.
Existe
uma diferença entre destruir a ingenuidade e destruir a esperança.
Em alguns
momentos, Gray parece aproximar-se perigosamente da ideia de que os esforços
humanos para construir sociedades melhores seriam apenas manifestações
renovadas de antigas ilusões.
Não
consigo acompanhá-lo completamente.
Se não
existe progresso inevitável, disso não decorre que toda transformação seja
ilusória.
A
escravidão não desapareceu do mundo, mas sua abolição jurídica em inúmeros
países representou uma transformação histórica real.
Direitos
trabalhistas não eliminaram exploração, mas alteraram concretamente a vida de
milhões.
A
democracia é imperfeita, vulnerável e frequentemente contraditória, mas não
considero indiferente viver sob instituições democráticas ou sob uma ditadura.
Direitos
humanos são construções humanas.
Mas serem
construções não os torna inúteis.
Dinheiro
também é uma construção humana.
Fronteiras
são construções.
Estados
são construções.
A
linguagem é uma construção coletiva.
Vivemos
justamente dentro das realidades que somos capazes de construir.
O perigo político do pessimismo
Há ainda
uma questão que considero importante.
Quando
afirmamos que seres humanos sempre foram violentos, egoístas e dominadores,
podemos inadvertidamente transformar aquilo que é histórico em inevitável.
"Os
seres humanos são assim" pode funcionar como uma extraordinária ideologia
conservadora.
Se
desigualdade, guerra e dominação pertencem simplesmente à natureza humana, para
que tentar transformar instituições?
Mas
antropologia e história revelam enorme diversidade nas formas humanas de
organização.
Somos
capazes de competição, certamente.
Mas
também somos capazes de cooperação.
Somos
violentos.
Mas
cuidamos.
Disputamos
recursos.
Mas
compartilhamos.
A mesma
espécie que construiu Auschwitz produziu pessoas que arriscaram a própria vida
para esconder perseguidos.
Não
menciono isso para restaurar uma imagem romântica da humanidade.
Quero
preservar a contradição.
Talvez
sejamos animais perigosos justamente porque somos animais extremamente
plásticos.
Capitalismo e natureza
Também
não consigo pensar as questões ambientais apenas como resultado de uma abstrata
"humanidade".
Nem todos
os seres humanos destroem igualmente o planeta.
Existem
diferenças gigantescas entre países, classes sociais, empresas e padrões de
consumo.
Falar
apenas em "espécie humana" pode esconder relações concretas de poder.
Um
trabalhador pobre que utiliza ônibus para atravessar diariamente uma metrópole
e um bilionário que utiliza jatos particulares pertencem à mesma espécie, mas
suas responsabilidades ambientais não são equivalentes.
Por isso,
onde Gray enfatiza a espécie, considero necessário recolocar também economia
política, colonialismo, desigualdade e capitalismo.
A crise
ecológica é humana.
Mas é
também histórica.
Talvez não sejamos necessários ao universo
Há,
entretanto, uma ideia de Gray da qual não quero fugir.
O planeta
não precisa de nós.
Essa
afirmação fere profundamente nosso antropocentrismo.
Se Homo
sapiens desaparecesse, a Terra continuaria.
Outras
espécies ocupariam nichos.
Florestas
poderiam avançar sobre cidades.
Prédios
ruiriam.
Rodovias
desapareceriam sob vegetação.
Nossos
monumentos acabariam triturados pela geologia.
E o
universo continuaria indiferente.
Essa
imagem não me provoca apenas angústia.
Estranhamente,
também produz liberdade.
Talvez
não precisemos ser o objetivo do cosmos para que nossas vidas tenham valor.
Uma
amizade pode ser importante mesmo que o universo seja indiferente a ela.
Um amor
não precisa ser eterno para ser verdadeiro.
Uma
existência não precisa possuir finalidade cósmica para possuir significado
humano.
Uma ética sem garantias
É aqui
que minha leitura de Cachorros de Palha termina numa direção talvez
diferente daquela sugerida pelo pessimismo de Gray.
Se não
existe garantia de progresso, então nossa responsabilidade aumenta.
Se
nenhuma força histórica assegura a vitória da justiça, precisamos defendê-la.
Se
direitos podem desaparecer, precisamos protegê-los.
Se
democracias podem morrer, precisamos cultivá-las.
Se
ecossistemas podem colapsar, precisamos modificar nossa relação com eles.
Se somos
animais, precisamos abandonar a arrogância de imaginar que a Terra existe
exclusivamente para nós.
Não
preciso acreditar que a humanidade caminha inevitavelmente para um mundo melhor
para lutar por um mundo melhor.
Talvez
seja justamente o contrário.
Depois das ilusões
Fechei Cachorros
de Palha sem aceitar integralmente John Gray, mas agradecendo-lhe pelo
desconforto.
Há livros
importantes porque oferecem respostas.
Outros
são importantes porque destroem respostas excessivamente confortáveis.
Gray
pertence, para mim, à segunda categoria.
Ele me
obriga a desconfiar da religião secular do progresso, da arrogância
antropocêntrica, da soberania da razão e da crença de que tecnologia
necessariamente produzirá emancipação.
Mas não
quero substituir a ingenuidade otimista por uma ingenuidade pessimista.
Não
acredito que estejamos destinados ao progresso.
Também
não acredito que estejamos condenados à barbárie.
Talvez
não exista destino algum.
E
justamente aí encontro uma possibilidade ética.
Somos uma
espécie animal, contingente e temporária, vivendo sobre um pequeno planeta ao
redor de uma estrela comum entre bilhões de outras estrelas.
Não somos
o centro do universo.
Não somos
a finalidade da evolução.
Não
recebemos nenhuma garantia de permanência.
Mas
estamos aqui.
E
enquanto estivermos, podemos escolher, ainda que parcialmente, precariamente e
dentro de condições que não controlamos, que tipo de mundo construiremos uns
para os outros e para as demais formas de vida.
Depois de
Cachorros de Palha, talvez eu tenha menos fé na humanidade.
Mas isso
não significa que tenha menos compromisso com os seres humanos.
Pelo
contrário.
Se não
existe uma mão invisível conduzindo a história para o bem, a justiça deixa de
ser promessa.
Torna-se
tarefa.
Francisco José Mesquita Bezerra
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