Elegia para um Universo em Processo

 

Nada existe sozinho.

A pedra que repousa
na margem do rio
carrega em seu silêncio
a memória das estrelas extintas,
o trabalho paciente das águas,
a passagem dos animais,
o olhar distraído
de um homem
que, por um instante,
a transformou em pensamento.

Nada é apenas o que é.

Cada instante
é uma assembleia
de tempos antigos,
um parlamento invisível
onde conversam
o que fomos,
o que somos
e o que ainda não aprendemos
a desejar.

A árvore não cresce:
ela negocia.
Com a luz,
com o vento,
com a profundidade da terra,
com a morte das folhas
que a alimentam.

O mar não avança:
ele recorda.

As montanhas
não permanecem:
elas acontecem
num ritmo
mais lento
que a nossa impaciência.

E nós,
criaturas breves,
inventamos o nome
"realidade"
para esconder
nosso espanto
diante do fato
de que tudo
está sempre nascendo.

Talvez Deus,
se existir,
não seja o soberano imóvel
que vigia o universo
do lado de fora.

Talvez seja
a delicada persistência
com que o cosmos
convida cada coisa
a tornar-se
mais do que era.

Por isso,
quando a noite cai
e as constelações
reaparecem
sobre a antiga inquietação humana,
gosto de pensar
que também eu
não sou uma substância,
nem um destino,
nem uma identidade concluída.

Sou apenas
uma ocasião passageira
no grande poema
que o universo
escreve sobre si mesmo
desde antes
do primeiro tempo
e para além
da última estrela.

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