Por que nunca somos suficientes? Reflexões sobre Não se cobre tanto, de Ellen Hendriksen, entre a psicanálise e a crítica da sociedade contemporânea
Ler Não
se cobre tanto (How to Be Enough), de Ellen Hendriksen, foi uma
experiência que me colocou diante de uma pergunta tão simples quanto
perturbadora: por que, mesmo quando alcançamos objetivos, recebemos
reconhecimento e acumulamos experiências, continuamos sentindo que ainda não
somos suficientes?
Ao longo
da leitura, fui percebendo que essa pergunta não pertence apenas ao campo da
psicologia clínica. Ela atravessa a psicanálise, a filosofia, a sociologia e,
talvez, a própria condição humana contemporânea. O livro de Hendriksen, embora
escrito em linguagem acessível e apoiado em evidências empíricas, aborda uma
das grandes patologias do nosso tempo: a incapacidade de reconhecer nossa
própria legitimidade para existir sem a necessidade permanente de provar nosso
valor.
O que
mais me impressionou foi perceber que a autora não trata a autocrítica
excessiva como um defeito de personalidade, mas como uma estrutura subjetiva
profundamente enraizada. A voz interior que nos acusa, nos compara e nos
desqualifica não surge espontaneamente. Ela é construída historicamente,
relacionalmente e culturalmente.
Ao ler
Hendriksen, voltei inevitavelmente a Freud. Em O ego e o id e em O
mal-estar na civilização, Freud descreve o supereu como uma instância
psíquica que, longe de funcionar apenas como consciência moral, pode tornar-se
extraordinariamente cruel. O supereu não se satisfaz facilmente; ao contrário,
ele intensifica suas exigências à medida que tentamos obedecê-lo.
Essa
talvez seja uma das intuições mais brilhantes da psicanálise: quanto mais
buscamos ser perfeitos, mais experimentamos nossa imperfeição. O sofrimento não
nasce apenas da incapacidade de atingir o ideal, mas do fato de que o próprio
ideal é estruturalmente inalcançável.
Ao
reconhecer em mim essa voz crítica, que exige produtividade, excelência,
coerência, felicidade e sucesso simultaneamente, comecei a suspeitar que talvez
não estejamos apenas diante de um problema psicológico individual, mas diante
da interiorização de uma ordem social inteira.
Donald
Winnicott ajuda a aprofundar essa compreensão. Para ele, a saúde psíquica
depende da possibilidade de desenvolver um verdadeiro self, capaz de existir
espontaneamente e de experimentar a vida como algo criativo e autêntico. No
entanto, quando o ambiente falha ou impõe exigências excessivas, construímos um
falso self, organizado em torno da adaptação às expectativas externas.
Ao
observar a cultura contemporânea, pergunto-me quantos de nós vivem, hoje,
sustentados por sofisticados falsos selfes. Construímos perfis digitais,
carreiras, performances afetivas e identidades cuidadosamente administradas.
Aprendemos a parecer felizes, competentes e realizados, mesmo quando nos
sentimos exaustos, insuficientes e desconectados de nossos próprios desejos.
Talvez a
pergunta "sou suficiente?" seja, na verdade, o sintoma de uma
pergunta mais profunda: "quem sou eu quando deixo de tentar agradar os
outros?"
Lacan
radicaliza ainda mais essa questão ao afirmar que o sujeito humano é
constituído pela falta. Nunca somos plenamente idênticos a nós mesmos. O desejo
humano nasce justamente dessa incompletude estrutural.
No
entanto, a sociedade contemporânea parece organizada em torno da promessa de
eliminar essa falta. Consumimos produtos, experiências, identidades e estilos
de vida como se estivéssemos comprando fragmentos de completude. O problema,
como Lacan insistiu, é que a falta não é um defeito a ser corrigido; ela é a
própria condição do desejo.
Talvez
soframos tanto porque vivemos numa cultura que promete aquilo que
estruturalmente não pode entregar: a sensação definitiva de sermos suficientes.
Essa
percepção me levou inevitavelmente a Christopher Lasch e à sua análise da
cultura do narcisismo. Lasch observou que as sociedades contemporâneas produzem
indivíduos simultaneamente inflados e fragilizados. Somos incentivados a
acreditar que somos especiais, únicos e extraordinários, ao mesmo tempo em que
dependemos desesperadamente da validação dos outros para sustentar essa crença.
Nunca
fomos tão estimulados a falar sobre autoestima e, paradoxalmente, talvez nunca
tenhamos sido tão inseguros. O sujeito narcísico descrito por Lasch não é
alguém excessivamente confiante, mas alguém incapaz de sustentar internamente
sua própria autoestima.
Ao ler
Hendriksen, tive a sensação de estar observando precisamente os efeitos
subjetivos dessa cultura narcísica: indivíduos permanentemente avaliando seu
próprio valor, incapazes de descansar da obrigação de justificar a própria
existência.
Byung-Chul
Han oferece talvez a formulação mais contundente dessa condição ao descrever a
sociedade do desempenho. Segundo ele, deixamos de viver em uma sociedade
disciplinar organizada pela proibição para habitar uma sociedade da
positividade, na qual somos permanentemente convocados a maximizar nosso
potencial.
Já não
ouvimos "você deve". Ouvimos "você pode". E justamente por
isso nos tornamos exploradores de nós mesmos.
Essa
transformação altera profundamente a experiência da culpa. Não atribuímos mais
nossos fracassos às condições sociais, econômicas ou políticas. Passamos a
interpretá-los como evidência de insuficiência pessoal. Se não somos felizes,
produtivos, saudáveis, desejáveis ou bem-sucedidos, concluímos que a
responsabilidade é exclusivamente nossa.
A
consequência é aquilo que Han chama de sociedade do cansaço: uma civilização
formada por indivíduos exaustos de tentar corresponder a expectativas
impossíveis.
Hartmut
Rosa complementa essa análise ao demonstrar como a aceleração social destrói
nossa capacidade de estabelecer relações de ressonância com o mundo. Vivemos
acumulando experiências sem realmente habitá-las, estabelecendo conexões sem
aprofundá-las e perseguindo objetivos sem experimentar satisfação duradoura.
Talvez
uma das razões pelas quais nunca nos sentimos suficientes seja porque já não
dispomos do tempo necessário para experimentar nossa própria suficiência. Antes
que possamos reconhecer uma conquista, já somos convocados a perseguir a
próxima.
A lógica
da aceleração produz uma subjetividade permanentemente provisória, incapaz de
experimentar repouso existencial.
Foi nesse
ponto da leitura que comecei a perceber algo ainda mais inquietante: a
autocrítica excessiva talvez não seja um defeito psicológico, mas uma virtude
funcional ao capitalismo contemporâneo.
Uma
sociedade baseada no consumo, na competição e na produtividade ilimitada
depende de indivíduos permanentemente insatisfeitos consigo mesmos. O
consumidor ideal é aquele que nunca se sente suficientemente belo, saudável,
inteligente, produtivo ou feliz. O trabalhador ideal é aquele que transforma a
própria exploração em projeto pessoal de aperfeiçoamento.
Nesse
sentido, a pergunta "sou suficiente?" deixa de ser uma questão íntima
e torna-se uma questão política.
A
contribuição mais radical de Ellen Hendriksen, ainda que talvez involuntária,
consiste em recolocar em circulação uma ideia profundamente subversiva: a de
que nossa dignidade não depende do nosso desempenho.
Essa
afirmação parece simples, mas desafia praticamente toda a lógica cultural
contemporânea. Significa reconhecer que não precisamos conquistar o direito de
existir. Não precisamos justificar permanentemente nossa presença no mundo
através de produtividade, excelência ou sucesso.
Ao
terminar o livro, fiquei com a sensação de que a verdadeira maturidade talvez
não consista em finalmente nos tornarmos suficientes. Talvez ela consista em
abandonar a fantasia de que algum dia precisaremos sê-lo.
Freud nos
ensinou que somos seres divididos. Winnicott, que somos vulneráveis. Lacan, que
somos faltantes. Lasch, que somos inseguros. Byung-Chul Han, que somos
explorados. Hartmut Rosa, que somos acelerados.
E Ellen
Hendriksen parece nos lembrar de algo igualmente importante: apesar de tudo
isso, continuamos sendo humanos.
Talvez
seja precisamente essa nossa insuficiência constitutiva, e não a sua superação,
aquilo que torna possível a experiência do amor, da solidariedade, da
criatividade e da própria liberdade.
Hoje,
suspeito que a pergunta mais libertadora não seja "como posso me tornar
suficiente?", mas outra, muito mais difícil e, talvez, muito mais humana:
o que
aconteceria se eu finalmente aceitasse que nunca precisei ser?
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