A bolha da inteligência artificial e o capitalismo do fim dos limites: uma reflexão sobre poder, tecnologia e futuro
Confesso
que tenho dificuldade em acompanhar o entusiasmo quase religioso que cerca a
inteligência artificial contemporânea. Não porque eu subestime sua importância
tecnológica ou seu potencial transformador. Ao contrário. Minha inquietação
nasce precisamente da percepção de que estamos diante de algo maior do que uma
inovação tecnológica: estamos diante de uma reconfiguração profunda das
relações entre capital, trabalho, poder, subjetividade e natureza.
A
pergunta que me acompanha não é se a inteligência artificial mudará o mundo.
Ela já está mudando. A questão que me parece decisiva é outra: quem controla
essa transformação, quem se beneficia dela e quais serão seus custos humanos,
democráticos e ecológicos.
Ao
observar a corrida atual pela inteligência artificial, não consigo deixar de
retornar a Karl Marx. Em seus escritos sobre o capitalismo industrial, Marx já
havia percebido que a lógica fundamental do capital não é a produção de bens ou
o atendimento das necessidades humanas, mas a valorização contínua do próprio
capital. O dinheiro investido deve retornar ampliado, indefinidamente. O
problema é que essa expansão permanente encontra, cedo ou tarde, limites
sociais, políticos e materiais.
A
inteligência artificial parece representar uma nova fronteira para essa
expansão. Não estamos apenas diante da automação do trabalho manual ou
intelectual. Estamos diante da tentativa de transformar a própria cognição
humana, a linguagem, a criatividade, a atenção e a interação social em ativos
econômicos exploráveis. O que Marx chamou de "subsunção real" da vida
ao capital talvez esteja alcançando uma escala inédita: não apenas nosso
trabalho, mas nossas emoções, desejos, relações e capacidades cognitivas
tornam-se matéria-prima para acumulação.
David
Harvey contribui para aprofundar essa análise ao mostrar que o capitalismo,
diante de suas crises recorrentes, busca constantemente novos espaços para
absorver excedentes de capital. Sua ideia de "ajuste espacial" ajuda
a compreender a corrida atual pela inteligência artificial. Quando os mercados
tradicionais apresentam limites de expansão, enormes volumes de capital migram
para novas fronteiras tecnológicas e financeiras. A IA tornou-se, nesse
sentido, uma gigantesca fronteira de absorção de excedentes, capaz de mobilizar
trilhões de dólares em investimentos, especulação e expectativa.
Mas
Harvey também nos lembra que essas soluções são sempre temporárias. O capital
resolve suas crises produzindo novas contradições. Os data centers construídos
hoje, os chips produzidos em escala massiva e as redes energéticas ampliadas
para alimentar sistemas de IA podem, paradoxalmente, tornar-se os ativos
encalhados de amanhã.
Joseph
Schumpeter talvez enxergasse nesse processo a expressão máxima daquilo que
chamou de "destruição criativa". O capitalismo avança destruindo
estruturas antigas e criando novas formas produtivas. Contudo, ao observar a
velocidade atual da inovação tecnológica, pergunto-me se não estamos entrando
em uma fase de destruição permanente, na qual a própria criação já nasce
condenada à obsolescência acelerada.
A
diferença fundamental entre a revolução da inteligência artificial e as grandes
revoluções industriais anteriores é que seus ativos centrais envelhecem numa
velocidade sem precedentes. Ferrovias podiam operar por décadas. Hidrelétricas
funcionam durante gerações. Já chips, modelos computacionais e infraestruturas
digitais exigem ciclos contínuos e cada vez mais rápidos de substituição e
reinvestimento.
É
justamente aqui que Hyman Minsky se torna indispensável. Sua hipótese da
fragilidade financeira descrevia como períodos prolongados de prosperidade e
confiança levam agentes econômicos a assumir riscos crescentes, até que o
próprio sistema se torne estruturalmente instável. O que observamos hoje parece
uma versão ampliada e tecnologicamente sofisticada desse mecanismo.
As
gigantes tecnológicas ainda possuem lucros extraordinários. Contudo, a
magnitude dos investimentos necessários para sustentar a corrida da
inteligência artificial já começa a pressionar seus modelos financeiros. A
emissão crescente de dívida, as operações fora do balanço e a necessidade de
expansão contínua da infraestrutura sugerem que estamos diante de uma dinâmica
cuja estabilidade depende, fundamentalmente, da manutenção permanente das
expectativas de crescimento futuro.
Mas
talvez o aspecto mais perturbador dessa transformação não seja econômico.
Talvez seja antropológico.
Byung-Chul
Han argumenta que vivemos em uma sociedade do desempenho, na qual a exploração
externa foi progressivamente substituída pela autoexploração. O sujeito
contemporâneo não é mais coagido; ele se sente permanentemente compelido a
produzir, otimizar, aprender e superar a si mesmo. A inteligência artificial
representa a radicalização dessa lógica. Ela produz não apenas ferramentas mais
eficientes, mas um novo padrão civilizacional baseado na aceleração contínua,
na disponibilidade permanente e na obsolescência constante.
Hartmut
Rosa, por sua vez, descreve nossa época como marcada pela aceleração social.
Segundo ele, o paradoxo contemporâneo é que, quanto mais tecnologias
desenvolvemos para economizar tempo, mais sentimos que nunca temos tempo
suficiente. A inteligência artificial parece aprofundar dramaticamente essa
condição. Ela promete eficiência absoluta, mas pode produzir uma sociedade
ainda mais ansiosa, mais acelerada e mais incapaz de experimentar relações
significativas com o mundo.
Talvez
estejamos assistindo ao surgimento do que Rosa chama de perda da ressonância:
uma condição em que nossa relação com a natureza, com os outros e conosco
mesmos passa a ser mediada predominantemente por critérios de controle,
desempenho e eficiência.
Nesse
contexto, as reflexões de Shoshana Zuboff tornam-se fundamentais. Sua teoria do
capitalismo de vigilância revelou como as plataformas digitais transformaram a
experiência humana em matéria-prima para previsão e modificação comportamental.
A inteligência artificial amplia radicalmente essa lógica. Não se trata apenas
de prever comportamentos futuros, mas de criar sistemas capazes de moldá-los,
direcioná-los e monetizá-los em escala inédita.
O que
está em disputa, portanto, não é apenas a propriedade dos meios de produção,
como formulava Marx, mas a própria propriedade dos meios de previsão,
interpretação e influência sobre a experiência humana.
Evgeny
Morozov acrescenta uma crítica igualmente necessária ao denunciar aquilo que
chama de "solucionismo tecnológico": a crença de que problemas
sociais, políticos e humanos complexos podem ser resolvidos principalmente por
meio de soluções técnicas. O entusiasmo atual em torno da inteligência
artificial frequentemente assume esse caráter quase messiânico. Supõe-se que
algoritmos resolverão problemas educacionais, ambientais, econômicos e
políticos que, em sua origem, são produtos de relações históricas de poder e
desigualdade.
Essa
crença talvez seja uma das formas ideológicas mais sofisticadas do capitalismo
contemporâneo. Ela desloca o debate político para o campo técnico e transforma
conflitos distributivos, éticos e democráticos em supostos problemas de
otimização computacional.
Mas
existe ainda uma dimensão que frequentemente permanece invisível: a ecológica.
A
economia digital costuma ser imaginada como imaterial, limpa e virtual. Nada
poderia ser mais enganoso. A inteligência artificial depende de mineração
intensiva, consumo massivo de energia, uso crescente de água e expansão
acelerada de infraestrutura física. Cada avanço algorítmico repousa sobre uma
gigantesca base material distribuída globalmente, frequentemente sustentada
pela exploração de recursos naturais e de trabalho precarizado.
Estamos,
portanto, diante de um paradoxo histórico extraordinário: desenvolvemos
sistemas capazes de simular aspectos sofisticados da inteligência humana
justamente no momento em que nos aproximamos perigosamente dos limites
ecológicos do planeta.
Isso me
leva a uma hipótese inquietante. Talvez a verdadeira bolha contemporânea não
seja apenas financeira, tecnológica ou especulativa. Talvez seja antropológica.
Talvez tenhamos construído uma civilização baseada na crença de que crescimento
infinito, aceleração permanente e inovação contínua possam coexistir
indefinidamente em um planeta finito.
Por isso,
acredito que a discussão sobre inteligência artificial não pode permanecer
restrita aos engenheiros, investidores e executivos das grandes plataformas.
Trata-se de uma questão profundamente democrática.
Precisamos
construir formas internacionais de governança da inteligência artificial.
Precisamos estabelecer limites ecológicos obrigatórios para a expansão da
infraestrutura computacional. Precisamos democratizar o acesso ao conhecimento
científico e tecnológico. Precisamos desenvolver sistemas públicos e
cooperativos de inteligência artificial. Precisamos discutir tributação global
sobre rendas extraordinárias derivadas da automação e da concentração
tecnológica. E, acima de tudo, precisamos recuperar a capacidade política de
decidir coletivamente quais tecnologias queremos desenvolver e para quais
finalidades.
A
pergunta mais importante do nosso tempo talvez não seja se as máquinas se
tornarão inteligentes. A pergunta decisiva é se nós, enquanto sociedade,
continuaremos suficientemente sábios para reconhecer que nem tudo o que pode
ser construído deve necessariamente ser construído.
Porque,
no final das contas, a maior ameaça não é que a inteligência artificial pense
como os seres humanos. A maior ameaça é que os seres humanos passem a pensar
apenas como o capital.
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