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Mostrando postagens de agosto, 2026

Quando o animal humano perde suas ilusões: minha leitura de Cachorros de Palha, de John Gray

  Ler Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais , de John Gray, produziu em mim uma sensação desconfortável. Não porque o filósofo britânico simplesmente descreva um mundo sombrio, mas porque dirige sua crítica contra algumas das crenças que sustentam nossa maneira moderna de imaginar a nós mesmos: progresso, racionalidade, domínio da natureza, liberdade individual e, sobretudo, a convicção de que existe alguma coisa excepcional no ser humano. Gray parece aproximar-se de nós e perguntar: quem nos disse que somos tão especiais? É uma pergunta perturbadora. Durante séculos, construímos diferentes justificativas para nossa excepcionalidade. A religião afirmou que fomos criados à imagem de Deus. Parte da filosofia colocou a razão como nossa característica distintiva. A modernidade secular substituiu progressivamente Deus pela humanidade. A ciência e a tecnologia alimentaram a expectativa de que poderíamos compreender, controlar e talvez superar os limites impos...

O morto que Fortaleza esqueceu

  Fortaleza tem um jeito particular de esconder seus mortos. Durante o dia, ninguém percebe. Os ônibus passam apressados, motocicletas costuram o trânsito, vendedores anunciam mercadorias e o calor sobe do asfalto como se a cidade estivesse sendo cozida lentamente pelo sol. Mas à noite é diferente. Principalmente perto do Cemitério São João Batista. Foi ali que tudo começou. Meu nome é Antônio. E durante vinte e três anos trabalhei enterrando pessoas. Aprendi algumas coisas nesse tempo. A primeira: morto não pesa mais que vivo. Isso é conversa. A segunda: família rica chora igual a pobre, embora algumas famílias tentem fazer isso discretamente. A terceira: nunca responda quando alguém chamar seu nome dentro de um cemitério depois da meia-noite. Essa última aprendi com Raimundo. Infelizmente, aprendi tarde demais. Raimundo trabalhava comigo havia quinze anos. Era um homem magro, desses que parecem ter sido desenhados com poucos traços. Gostava de cont...