Quando o animal humano perde suas ilusões: minha leitura de Cachorros de Palha, de John Gray
Ler Cachorros de Palha: reflexões sobre humanos e outros animais , de John Gray, produziu em mim uma sensação desconfortável. Não porque o filósofo britânico simplesmente descreva um mundo sombrio, mas porque dirige sua crítica contra algumas das crenças que sustentam nossa maneira moderna de imaginar a nós mesmos: progresso, racionalidade, domínio da natureza, liberdade individual e, sobretudo, a convicção de que existe alguma coisa excepcional no ser humano. Gray parece aproximar-se de nós e perguntar: quem nos disse que somos tão especiais? É uma pergunta perturbadora. Durante séculos, construímos diferentes justificativas para nossa excepcionalidade. A religião afirmou que fomos criados à imagem de Deus. Parte da filosofia colocou a razão como nossa característica distintiva. A modernidade secular substituiu progressivamente Deus pela humanidade. A ciência e a tecnologia alimentaram a expectativa de que poderíamos compreender, controlar e talvez superar os limites impos...