O morto que Fortaleza esqueceu
Fortaleza
tem um jeito particular de esconder seus mortos.
Durante o
dia, ninguém percebe.
Os ônibus
passam apressados, motocicletas costuram o trânsito, vendedores anunciam
mercadorias e o calor sobe do asfalto como se a cidade estivesse sendo cozida
lentamente pelo sol.
Mas à
noite é diferente.
Principalmente
perto do Cemitério São João Batista.
Foi ali
que tudo começou.
Meu nome
é Antônio.
E durante
vinte e três anos trabalhei enterrando pessoas.
Aprendi
algumas coisas nesse tempo.
A
primeira: morto não pesa mais que vivo. Isso é conversa.
A
segunda: família rica chora igual a pobre, embora algumas famílias tentem fazer
isso discretamente.
A
terceira:
nunca
responda quando alguém chamar seu nome dentro de um cemitério depois da
meia-noite.
Essa
última aprendi com Raimundo.
Infelizmente,
aprendi tarde demais.
Raimundo
trabalhava comigo havia quinze anos.
Era um
homem magro, desses que parecem ter sido desenhados com poucos traços. Gostava
de contar histórias enquanto cavávamos.
Dizia que
todo cemitério tinha dois mapas.
Um era o
mapa oficial.
Quadras.
Alamedas.
Sepulturas.
Mausoléus.
O outro
era conhecido somente pelos mortos.
Eu ria.
E morto precisa de mapa para quê, Raimundo?
Ele
enfiava a pá na terra.
Pra encontrar os vivos.
Nunca
achei graça nessa resposta.
Numa
sexta-feira de novembro, ficamos trabalhando até tarde.
Uma chuva
forte havia caído sobre Fortaleza durante a tarde, dessas chuvas que fazem a
cidade descobrir novamente que possui rios escondidos debaixo do concreto.
Quando
terminamos, já passava das onze.
O vigia
apareceu.
Antônio, Raimundo, bora.
Raimundo
ainda precisava guardar algumas ferramentas.
Fiquei
esperando perto de uma alameda.
Foi
quando ouvi.
Antônio.
A voz
vinha atrás de mim.
Virei.
Não havia
ninguém.
Raimundo
apareceu carregando duas pás.
Que foi?
Tu me chamou?
Ele
parou.
O rosto
mudou.
Não.
Ouvi meu nome.
Raimundo
colocou as pás no chão.
Uma vez?
Uma.
Ele olhou
para o relógio.
23h47.
Vamos embora agora.
Que besteira.
Antônio.
Nunca
tinha ouvido Raimundo falar daquele jeito.
Se ouvir de novo, não responde.
Às 23h58
estávamos quase chegando à saída.
Então
ouvimos:
Raimundo.
Dessa vez
escutamos os dois.
Uma voz
de mulher.
Distante.
Suave.
Raimundo
congelou.
Não olha.
Continuamos
andando.
Raimundo...
A voz
veio novamente.
Mais
perto.
Ele
apertou meu braço.
Continua.
Então
veio a terceira vez.
Raimundo.
Ele
parou.
Conheço
aquele instante até hoje.
Porque vi
no rosto dele uma coisa que jamais havia visto.
Reconhecimento.
Mãe?
A palavra
escapou de sua boca.
No mesmo
instante, todas as luzes do cemitério apagaram.
Escuridão.
Não a
escuridão comum de Fortaleza, onde sempre existe algum poste, farol, janela ou
luminosidade distante.
Era uma
escuridão inteira.
Raimundo
soltou meu braço.
Raimundo?
Silêncio.
Acendi a
lanterna do celular.
Ele havia
desaparecido.
Raimundo!
Nada.
Comecei a
procurá-lo.
Foi então
que percebi outra coisa.
Não
reconhecia mais o lugar.
Eu
trabalhava ali havia vinte e três anos.
Conhecia
aquelas alamedas como conhecia as ruas perto da minha casa.
Mas os
túmulos haviam mudado.
Os
mausoléus pareciam mais antigos.
Alguns
estavam rachados.
Outros
cobertos de limo.
Continuei
andando.
Até
encontrar uma sepultura que nunca havia visto.
Não havia
fotografia.
Somente
um nome:
ANTÔNIO
ALVES DE SOUSA
Meu nome.
Abaixo:
1967 –
2026
Meu
celular caiu.
Fiquei
olhando.
Aquele
era o ano em que estávamos.
Não havia
dia nem mês.
Somente o
ano.
Passei os
dedos pelas letras.
E ouvi
uma voz atrás de mim:
Antônio.
Dessa vez
respondi.
Quem está
aí?
Foi meu
erro.
Alguma
coisa começou a caminhar entre os túmulos.
Não
conseguia vê-la.
Ouvia
apenas os passos.
Devagar.
Arrastados.
Depois
começaram outras vozes.
Antônio.
Uma
criança.
Antônio.
Um homem.
Antônio.
Uma
velha.
Antônio.
Dezenas.
Centenas.
As vozes
vinham das sepulturas.
Comecei a
correr.
Quanto
mais corria, mais o cemitério aumentava.
Passei
pelo mesmo anjo de mármore quatro vezes.
Na
quinta, havia algo diferente.
O anjo
estava olhando para mim.
Continuei.
Quando
passei pela sexta vez, suas mãos estavam cobrindo o rosto.
Na
sétima, ele não estava mais sobre o túmulo.
Ouvi
passos de pedra atrás de mim.
Não
olhei.
Corri.
Encontrei
Raimundo sentado diante de um mausoléu.
Raimundo!
Ele
levantou a cabeça.
Estava
chorando.
Minha mãe está aqui.
Atrás
dele havia uma mulher.
Devia ter
uns setenta anos.
Vestido
azul.
Cabelos
brancos.
Venha, meu filho.
Raimundo
levantou-se.
Segurei
seu braço.
Tua mãe morreu há trinta anos.
Ele
sorriu.
Eu sei.
A mulher
abriu os braços.
Foi
quando iluminei seu rosto.
Não havia
olhos.
Não havia
nariz.
Não havia
boca.
O rosto
era completamente liso.
Mesmo
assim, a voz saiu de algum lugar.
Venha, meu filho.
Puxei
Raimundo.
Corremos.
Atrás de
nós ouvimos a mulher gritar.
Não era
mais voz humana.
Parecia o
barulho de centenas de pessoas respirando dentro de uma caixa fechada.
Chegamos
a uma parte do cemitério que nenhum de nós conhecia.
Havia
sepulturas muito antigas.
Datas do
século XIX.
Numa
delas estava escrito:
AQUI JAZ
AQUELE QUE NÃO DEVE SER LEMBRADO.
Raimundo
apontou.
Antônio.
A terra
estava mexendo.
De baixo
para cima.
Alguma
coisa tentava sair.
Vamos embora.
Então
ouvimos sinos.
Não sei
de onde.
Doze
badaladas.
Meia-noite.
Na décima
segunda, a terra abriu.
Uma mão
apareceu.
Mas não
era uma mão apodrecida.
Era uma
mão normal.
Depois
outra.
Um homem
saiu da sepultura.
Parecia
ter uns quarenta anos.
Usava
roupas antigas.
Sacudiu a
terra do paletó.
Olhou
para nós.
Que ano
é?
Ninguém
respondeu.
Ele
repetiu:
Que ano é?
Raimundo
falou:
2026.
O homem
fechou os olhos.
Então Fortaleza já me esqueceu.
Quem é você? perguntei.
Ele
sorriu.
É por isso que ainda estou aqui.
Atrás
dele começaram a surgir outras pessoas.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Velhos.
Centenas.
Não saíam
apenas daquela sepultura.
Saíam de
todas.
Alguns
tinham roupas do século XIX.
Outros
pareciam trabalhadores do começo do século XX.
Alguns
eram elegantes.
Outros
estavam descalços.
Havia
pessoas cujos nomes provavelmente ninguém pronunciava havia cem anos.
O homem
perguntou:
Sabe qual é a verdadeira morte, Antônio?
Balancei
a cabeça.
Não é
quando o coração para.
Apontou
para as sepulturas.
É quando ninguém mais lembra.
Olhei ao
redor.
Milhares
de mortos.
O que vocês querem?
Ele
respondeu:
Ser lembrados.
Por quem?
Então
todos olharam para mim.
Entendi.
Não.
O homem
aproximou-se.
Uma cidade construída sobre seus mortos
precisa carregar seus nomes.
Eu não posso lembrar de todos.
Pode tentar.
As vozes
começaram novamente.
Dessa vez
não chamavam meu nome.
Diziam os
próprios nomes.
Milhares.
Ao mesmo
tempo.
Nomes
portugueses.
Indígenas.
Africanos.
Sobrenomes
conhecidos.
Sobrenomes
desaparecidos.
Gente
rica.
Gente
pobre.
Crianças
mortas cedo demais.
Mulheres
apagadas das histórias familiares.
Trabalhadores
que construíram uma cidade onde jamais tiveram uma rua com seus nomes.
As vozes
entravam em minha cabeça.
Tapei os
ouvidos.
Não
adiantava.
Raimundo
caiu de joelhos.
Começou a
repetir nomes.
Um.
Depois
outro.
Depois
outro.
Até que
sua voz se misturou às deles.
Acordei
diante do portão do cemitério.
Era
manhã.
Carros
passavam.
Ônibus.
Gente
indo trabalhar.
Fortaleza
havia voltado a ser Fortaleza.
O vigia
me encontrou.
Antônio!
Correu
até mim.
Onde tu tava?
Aqui dentro.
Como?
Eu e Raimundo...
Ele ficou
pálido.
Que Raimundo?
Raimundo. Trabalha comigo.
O homem
me encarou.
Antônio, Raimundo morreu.
Ri.
Para com isso.
Morreu faz seis anos.
Senti as
pernas enfraquecerem.
Mentira.
Tu mesmo ajudou a enterrar.
Então
lembrei.
Não de
uma vez.
A
lembrança veio devagar.
Hospital.
Câncer.
Velório.
Caixão.
Eu
segurando uma pá.
Terra
caindo.
Raimundo
realmente estava morto.
Havia
seis anos.
Mas como
eu poderia ter esquecido?
Fui até
sua sepultura.
Estava
exatamente onde sempre estivera.
Sentei
diante dela.
No
mármore:
RAIMUNDO
NONATO FERREIRA
Abaixo
havia uma frase que eu nunca tinha percebido:
"Enquanto
alguém disser meu nome, ainda caminho."
Comecei a
chorar.
Foi então
que vi marcas de barro no chão.
Pegadas.
Vinham da
sepultura de Raimundo.
Seguiam
pela alameda.
Iam até o
portão.
E
desapareciam na calçada, misturadas às pegadas dos vivos.
Pedi
demissão naquele mesmo dia.
Nunca
mais entrei no São João Batista depois do anoitecer.
Hoje
tenho cinquenta e nove anos.
Às vezes
caminho pelo Centro de Fortaleza e penso em quantas cidades existem debaixo
desta cidade.
Fortalezas
indígenas.
Fortalezas
coloniais.
Fortalezas
de escravizados e libertos.
Fortalezas
de retirantes.
Fortalezas
de trabalhadores.
Fortalezas
de pessoas que nasceram, desejaram, sofreram e morreram sem entrar nos livros.
A cidade
continua crescendo sobre elas.
Prédios
sobem.
Ruas
mudam de nome.
Casas
desaparecem.
Famílias
esquecem fotografias dentro de gavetas.
E os
mortos esperam.
Mas nunca
mais esqueci Raimundo.
Todas as
noites, antes de dormir, digo:
Raimundo Nonato Ferreira.
Só uma
vez.
Para que
ele saiba que ainda existe em algum lugar.
O
problema começou três semanas atrás.
Acordei
às 3h17 da madrugada.
Alguém
estava batendo na porta do meu apartamento.
Três
batidas.
Esperei.
Mais
três.
Levantei.
Quem é?
Do
corredor veio uma voz conhecida.
Antônio.
Meu
sangue gelou.
Era
Raimundo.
Não abri.
A voz
chamou novamente:
Antônio.
Fiquei
parado.
Então ele
disse:
Tu lembra daquele homem que saiu da sepultura?
Não
respondi.
Raimundo
continuou:
A gente descobriu quem ele era.
Silêncio.
Depois
ouvi sua respiração do outro lado da porta.
Antônio...
Afastei-me.
Ele não queria ser lembrado.
A
maçaneta começou a girar lentamente.
Ele queria ser chamado.
A luz do
corredor apagou.
E antes
que eu pudesse correr, Raimundo sussurrou:
Tu perguntou o nome dele naquela noite.
Meu
coração quase parou.
Porque
finalmente me lembrei.
Eu tinha
perguntado.
E ele
havia respondido.
Durante
seis anos minha memória escondera aquele nome de mim.
Agora ele
voltava.
Primeiro
uma sílaba.
Depois
outra.
Depois o
nome inteiro.
E no
instante em que pensei nele, alguma coisa bateu três vezes.
Não na
porta.
Debaixo
da minha cama.
Então
compreendi por que algumas pessoas precisam ser esquecidas.
E por
que, depois da meia-noite,
quando um
morto chama seu nome,
jamais
devemos responder.
Francisco José Mesquita Bezerra
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