O veto ao gato-do-mato e a contradição ambiental de Fortaleza

 

Recebi com preocupação a notícia do veto do prefeito de Fortaleza ao projeto de lei que declarava o gato-do-mato patrimônio natural da cidade. À primeira vista, alguns podem considerar a questão secundária diante dos inúmeros desafios urbanos que enfrentamos. Eu penso exatamente o contrário. A forma como uma cidade trata sua fauna, sua flora e seus ecossistemas revela muito sobre o modelo de desenvolvimento que escolhe seguir.

O gato-do-mato não é apenas um animal silvestre. Ele é um indicador da saúde ambiental dos territórios onde ainda consegue sobreviver. Sua presença sinaliza a existência de fragmentos de vegetação, de cadeias ecológicas minimamente preservadas e de condições ambientais que permitem a manutenção da biodiversidade.

Quando uma espécie como essa se aproxima do risco de desaparecimento, não estamos diante apenas da perda de um animal. Estamos diante do enfraquecimento de um ecossistema inteiro.

Por isso, a proposta de transformá-lo em patrimônio natural possuía um valor que ultrapassava o aspecto simbólico. Ela representava um compromisso público com a preservação ambiental, a educação ecológica e a proteção dos últimos remanescentes naturais de Fortaleza.

Uma cidade que perde sua natureza

Tenho a impressão de que Fortaleza vem travando uma batalha silenciosa contra sua própria biodiversidade.

Ao longo das últimas décadas, a expansão urbana avançou sobre dunas, manguezais, lagoas, áreas de vegetação nativa e corredores ecológicos. Em muitos casos, o discurso do desenvolvimento foi utilizado para justificar intervenções que produziram ganhos econômicos imediatos, mas deixaram passivos ambientais duradouros.

O caso das áreas de vegetação nas imediações do Aeroporto Pinto Martins permanece, para mim, um dos exemplos mais emblemáticos dessa contradição.

Assistimos à supressão de uma importante área verde sem que houvesse uma mobilização proporcional dos órgãos ambientais. O silêncio institucional diante daquela destruição continua gerando questionamentos legítimos.

Onde estavam os mecanismos de fiscalização?

Onde estavam os estudos de impacto amplamente debatidos com a sociedade?

Onde estavam as vozes que deveriam defender o patrimônio ambiental coletivo?

Quando áreas verdes desaparecem, não desaparecem apenas árvores. Desaparecem habitats, espécies, serviços ecossistêmicos, memória ambiental e qualidade de vida.

A contradição de um governo progressista

Talvez o que mais me cause estranhamento seja justamente o contexto político.

Historicamente, os partidos do campo progressista, entre eles o PT, construíram parte importante de sua identidade associando justiça social e proteção ambiental. Muitas das lutas ambientais brasileiras foram protagonizadas por movimentos populares, organizações de esquerda, sindicatos rurais, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Por isso, esperava de uma gestão identificada com esse campo político uma sensibilidade maior para questões ambientais.

Não se trata de exigir perfeição. Governar uma cidade complexa como Fortaleza envolve conflitos de interesse permanentes. Desenvolvimento urbano, habitação, mobilidade, geração de emprego e preservação ambiental frequentemente entram em tensão.

Mas justamente por isso, decisões simbólicas importam.

Declarar o gato-do-mato patrimônio natural não impediria automaticamente sua extinção. Contudo, ajudaria a fortalecer políticas de proteção, educação ambiental e conscientização pública.

O veto transmite uma mensagem oposta.

O problema do ambientalismo de discurso

Vivemos uma época em que praticamente todos os governos afirmam defender o meio ambiente.

O discurso ecológico tornou-se quase obrigatório.

Mas existe uma diferença entre incorporar a sustentabilidade aos discursos e incorporá-la às decisões.

A verdadeira política ambiental começa quando interesses econômicos poderosos entram em conflito com a preservação dos ecossistemas.

É nesse momento que se revela o grau de compromisso das administrações públicas.

Proteger o meio ambiente quando não existem pressões econômicas relevantes é relativamente simples.

Difícil é fazê-lo quando a preservação impõe limites à especulação imobiliária, ao crescimento urbano desordenado ou a determinados empreendimentos.

Fortaleza e a emergência climática

A discussão sobre o gato-do-mato não pode ser isolada do contexto mais amplo das mudanças climáticas.

Fortaleza já enfrenta desafios relacionados ao aumento das temperaturas, às ilhas de calor, às enchentes urbanas e à pressão sobre seus recursos naturais.

Áreas verdes urbanas deixaram de ser apenas elementos paisagísticos.

Elas são infraestrutura climática.

Contribuem para reduzir temperaturas, proteger recursos hídricos, preservar biodiversidade e melhorar a qualidade de vida.

Quando perdemos áreas naturais, aumentamos nossa vulnerabilidade ambiental.

Quando protegemos a biodiversidade, fortalecemos a resiliência urbana.

O que deveria ser feito?

Na minha opinião, o debate não deveria terminar com o veto.

Pelo contrário.

Ele deveria servir como ponto de partida para uma política ambiental mais ambiciosa para Fortaleza.

Defendo algumas medidas concretas:

Criação de um plano municipal de proteção da fauna silvestre;

Mapeamento e monitoramento das populações de espécies ameaçadas presentes no município;

Ampliação das unidades de conservação urbanas;

Recuperação de corredores ecológicos e áreas degradadas;

Fortalecimento da fiscalização ambiental;

Participação da sociedade civil e das universidades na formulação das políticas ambientais;

Inclusão da biodiversidade local nos programas de educação ambiental das escolas municipais.

Mais do que proteger uma espécie específica, precisamos proteger os ecossistemas que tornam sua existência possível.

Uma escolha sobre o futuro

Ao refletir sobre o veto ao reconhecimento do gato-do-mato como patrimônio natural de Fortaleza, chego à conclusão de que estamos diante de uma escolha que vai muito além de uma lei.

Estamos discutindo qual cidade queremos construir.

Uma cidade que vê a natureza apenas como obstáculo ao crescimento urbano?

Ou uma cidade que compreende que desenvolvimento e preservação precisam caminhar juntos?

Eu continuo acreditando que Fortaleza pode ser uma referência em sustentabilidade urbana. Possui universidades, pesquisadores, movimentos ambientais e uma população cada vez mais consciente dos desafios ecológicos.

Mas isso exige coragem política.

Exige coerência.

Exige que o compromisso ambiental apareça não apenas nos discursos, mas também nas decisões concretas.

Porque quando uma cidade deixa desaparecer seus animais, suas árvores e seus ecossistemas, ela perde algo de si mesma.

E nenhuma obra, por maior que seja, consegue substituir aquilo que a natureza levou séculos para construir.

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