Paul Ricoeur e Ailton Krenak: imaginação e ação como caminhos para reinventar o mundo

 

Há autores que nos ajudam a compreender o mundo. Outros nos ajudam a suportá-lo. E existem aqueles raros pensadores que nos convidam a transformá-lo. Quando leio Paul Ricoeur e Ailton Krenak, tenho a sensação de estar diante dessa terceira categoria. Embora pertençam a contextos culturais muito diferentes, Ricoeur, filósofo francês profundamente marcado pela fenomenologia e pela hermenêutica; Krenak, líder indígena, ambientalista e pensador brasileiro ligado às cosmologias dos povos originários, encontro entre eles uma convergência que me parece extraordinariamente atual: a defesa da imaginação como força capaz de abrir novos horizontes de ação.

Vivemos um tempo em que a imaginação parece estar em crise.

Não me refiro à imaginação como fantasia ou fuga da realidade. Refiro-me à capacidade de imaginar formas diferentes de viver, produzir, educar, governar e nos relacionar com a natureza. Em muitos momentos, tenho a impressão de que nossa sociedade perdeu essa capacidade. Falamos constantemente sobre inovação tecnológica, mas pouco sobre inovação ética, política ou civilizatória.

É como se tivéssemos nos tornado especialistas em aperfeiçoar o mundo existente, mas incapazes de imaginar um mundo diferente.

Ricoeur e a imaginação que interpreta

Paul Ricoeur me ensinou que a imaginação não é o oposto da realidade. Ela é uma forma de compreendê-la.

Ao estudar suas reflexões sobre narrativa, símbolo e utopia, percebi que os seres humanos vivem através de histórias. Não habitamos apenas um mundo físico; habitamos também mundos simbólicos. Interpretamos nossa existência por meio de narrativas que organizam memórias, expectativas e projetos.

Para Ricoeur, a imaginação possui um papel profundamente crítico.

Ela permite questionar aquilo que parece inevitável.

Ela rompe a prisão do "sempre foi assim".

Ela cria distância em relação ao presente e nos permite enxergar outras possibilidades.

Quando leio Ricoeur, compreendo que toda transformação social começa com uma mudança na forma como narramos o mundo.

Antes de existir uma nova realidade, existe uma nova imaginação.

Krenak e a imaginação que resiste

Ailton Krenak me leva por outro caminho, mas chega a um ponto semelhante.

Em obras como Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil, ele critica uma civilização que transformou a natureza em recurso, os rios em mercadorias e os seres humanos em peças de uma engrenagem econômica.

O que mais me impressiona em Krenak é sua recusa em aceitar que a lógica dominante seja a única possível.

Ele nos lembra que existem outras formas de habitar a Terra.

Outras formas de compreender o tempo.

Outras formas de construir comunidade.

Outras formas de relacionar-se com o mundo natural.

Sua imaginação não é abstrata.

Ela nasce de experiências concretas de povos que resistiram por séculos à colonização, ao extermínio e à destruição ambiental.

Quando Krenak fala da necessidade de sonhar, ele não está propondo escapismo.

Está propondo resistência.

O esgotamento da imaginação política

Ao aproximar Ricoeur e Krenak, percebo um diagnóstico comum: nossa capacidade coletiva de imaginar alternativas encontra-se enfraquecida.

A política contemporânea parece cada vez mais administradora do presente e menos construtora de futuros.

Os debates públicos frequentemente giram em torno de ajustes, reformas e disputas imediatas. Pouco se discute sobre os grandes projetos de sociedade.

A imaginação política foi substituída pela gestão.

A utopia foi substituída pela eficiência.

O sonho foi substituído pela planilha.

Isso me preocupa.

Sociedades que deixam de imaginar tornam-se prisioneiras do que já existe.

E quando isso acontece, problemas estruturais passam a ser tratados como fatalidades inevitáveis.

O Brasil e a crise dos horizontes

Quando olho para o Brasil, vejo essa crise de imaginação em diversos campos.

Na educação, discutimos indicadores, mas raramente perguntamos que tipo de ser humano queremos formar.

Na economia, debatemos crescimento, mas pouco refletimos sobre o significado do desenvolvimento.

Na política ambiental, frequentemente tratamos florestas, rios e territórios apenas como ativos econômicos.

Na cultura, muitas vezes reduzimos a criatividade a entretenimento.

Ricoeur e Krenak me ajudam a perceber que essas questões não são apenas técnicas.

São questões de imaginação.

O modo como imaginamos o país influencia aquilo que somos capazes de construir.

A imaginação como ação

Algo que considero fundamental nos dois autores é a recusa da separação entre imaginação e ação.

Há uma visão muito difundida de que imaginar é sonhar enquanto agir é enfrentar a realidade.

Eles mostram que essa oposição é falsa.

Toda ação transformadora nasce de uma imaginação prévia.

Os movimentos abolicionistas precisaram imaginar um mundo sem escravidão.

Os movimentos feministas precisaram imaginar relações mais igualitárias.

Os defensores da democracia precisaram imaginar sociedades mais livres.

As grandes transformações históricas começaram como impossibilidades imaginadas.

Por isso, considero a imaginação uma força política.

O que podemos aprender?

Penso que Ricoeur e Krenak oferecem lições importantes para o presente.

A primeira é recuperar a capacidade de escuta. Precisamos ouvir histórias diferentes das nossas. A imaginação cresce quando entramos em contato com outras experiências humanas.

A segunda é valorizar a diversidade de saberes. Nem todo conhecimento está nas universidades, nos laboratórios ou nos centros de poder. Povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais também produzem formas legítimas de compreender o mundo.

A terceira é resgatar o direito de sonhar coletivamente. Sonhar não é negar os problemas. É recusar a ideia de que eles são insolúveis.

Considerações finais

Ao refletir sobre Paul Ricoeur e Ailton Krenak, percebo que ambos me ajudam a resistir a uma das maiores tentações do nosso tempo: o conformismo.

Vivemos cercados por discursos que nos dizem que não há alternativa, que a realidade é esta e que devemos apenas nos adaptar.

Ricoeur me ensina que as narrativas podem abrir novos horizontes.

Krenak me ensina que outros mundos continuam possíveis.

Ambos me lembram que a imaginação não é um luxo intelectual.

É uma necessidade humana.

Sem ela, apenas repetimos o presente.

Com ela, podemos começar a transformá-lo.

Talvez seja essa a tarefa mais urgente da nossa época: recuperar a coragem de imaginar para, então, encontrar a força de agir. Porque os grandes desafios do século XXI, a crise ambiental, as desigualdades sociais, a violência, o esvaziamento da democracia e a solidão contemporânea, não serão enfrentados apenas com tecnologia ou gestão. Eles exigirão algo mais profundo.

Exigirão a capacidade de imaginar formas mais humanas de viver juntos na Terra. E é justamente nesse encontro entre imaginação e ação que Ricoeur e Krenak continuam iluminando caminhos para o futuro.

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