Pedra e Homem

 

O sertão não pede licença.

Chega
como pedra.

Pedra na estrada.
Pedra no rio seco.
Pedra na palavra.

O homem aprende cedo
a linguagem da dureza.

Não aprende nos livros.

Aprende no chão.

A terra lhe ensina
que a chuva não é promessa.

É acontecimento.

Por isso,
quando uma nuvem aparece,
ninguém celebra.

Espera.

O sertanejo sabe
que a esperança exagerada
é irmã da decepção.

O açude vazio
não sonha água.

Espera água.

A diferença
é toda uma filosofia.

As mãos do agricultor
não possuem poesia.

Possuem calos.

Mas os calos
são também uma escrita.

Escrita de enxada.
Escrita de sol.
Escrita de sobrevivência.

Há quem veja pobreza.

Eu vejo engenharia.

Uma casa de taipa
é uma tese sobre resistência.

Um pote de barro
é um tratado sobre frescor.

Uma cisterna
é uma aula de futuro.

O sertão inventa
porque precisa.

A necessidade
é sua universidade.

Ao cair da tarde,
o vento atravessa
os mandacarus.

Nada diz.

Nada precisa dizer.

Há silêncios
que trabalham mais
que muitos discursos.

E o homem continua.

Não por heroísmo.

Não por destino.

Continua
porque a vida,
como a água,

mesmo quando escondida,

procura caminho.

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