A Última Estrela do Oceano

 

Pouco depois da meia-noite, o cargueiro Rosa dos Ventos cortava silenciosamente as águas escuras do oceano Índico, entre Madagascar e o Sri Lanka.
O céu estava limpo, salpicado de estrelas, e o mar, embora calmo, carregava um silêncio espesso, como se aguardasse alguma coisa.

A bordo, restavam poucos acordados. Apenas um marinheiro de vigia — Miran — e o velho capitão Adham, que costumava beber chá preto e contar histórias que faziam os mais jovens zombar em voz baixa.

Mas naquela noite, até os que dormiam sonhavam com presságios.

Do convés, Miran avistou um ponto luminoso que parecia se mover.
Uma estrela… que não estava no céu.

— Capitão? — chamou, hesitante. — Tem… tem uma luz no mar.

Adham, sem pressa, subiu as escadas com sua lanterna.

No horizonte líquido, algo brilhava, pulsava, como se fosse uma estrela caída.

— Ela voltou… — murmurou.

— Quem? — perguntou Miran, assustado.

O capitão não respondeu. Apenas ordenou:

— Desça os motores. E ninguém mais sobe ao convés.

 

O mito da estrela submersa

Naquela noite, Adham contou aos tripulantes uma história que seu avô lhe contara, e que agora parecia mais aviso do que lenda.

Disse que no fundo do Índico dorme uma estrela viva, chamada Mirzani, filha da noite e do vento, caída do céu antes que houvesse mapas.
De tempos em tempos, ela desperta. E quando o faz, não quer ser tocada, vista ou lembrada.

Navios que tentaram se aproximar de sua luz nunca mais foram encontrados.
Ou pior: retornaram sem tripulação. Vazios. Mas os sinos ainda tocavam sozinhos.

— Não olhem pra luz, mesmo que ela chame.
— Chame? — perguntou alguém.

— Ela canta.

 

A canção submersa

Na terceira noite, o mar começou a brilhar em círculos, como se o navio estivesse sobre um olho que se abria devagar.

E então começou o canto.

Era doce, longo, com uma voz que parecia feita de sal e tempo.
Era impossível dizer se vinha da água ou do ar.
E era impossível não querer ouvir.

Um por um, os tripulantes foram subindo ao convés, como sonâmbulos.

Miran tentou resistir. Tapou os ouvidos. Rezou.
Mas sentia o coração pulsar com o ritmo daquela voz antiga.
Chegou a ver um rosto sob a água — não humano, mas belo demais para ser da Terra.

Quando abriu os olhos, o convés estava vazio.
Somente ele e o capitão restavam.

Mas Adham estava imóvel, com os olhos abertos e secos.
O coração havia parado, mas ele ainda sorria, como se tivesse visto algo que desejava desde sempre.

 

A estrela e o esquecimento

Na manhã seguinte, o navio estava à deriva.
Nenhum rastro de tripulação, apenas o diário de bordo de Miran, onde escreveu:

“A luz sumiu com eles.
Ela brilha apenas para aqueles que perderam algo que não sabem nomear.
Talvez seja saudade.
Talvez seja promessa.
Mas sei que voltará.
E sei que vou esperá-la.”

 

Dizem que às vezes, pescadores noturnos veem uma luz no Índico, como se uma estrela nadasse sozinha entre as ondas.

E dizem que alguns a seguem.

E nunca mais voltam.

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