AFETO DE PLÁSTICO, AMOR DE SIMULAÇÃO: UMA LEITURA PSICANALÍTICA DAS NOVAS FORMAS DE RELAÇÃO SEM O OUTRO

 

Introdução

Num mundo hiperconectado e cada vez mais mediado por telas, algoritmos e consumos afetivos customizados, assistimos ao crescimento de comportamentos que desafiam as formas tradicionais de vínculo humano. Um número crescente de pessoas adota bebês reborn — bonecas hiper-realistas tratadas como filhos. Outros tantos casais tratam pets como bebês, com roupinhas, festas e "maternagens" completas. Paralelamente, multiplicam-se relatos de homens que se relacionam afetivamente — e sexualmente — com bonecas humanoides, programadas para obedecer sem contradições.

O que todos esses fenômenos têm em comum?
Na perspectiva psicanalítica, eles apontam para uma recusa — consciente ou inconsciente — da alteridade, da diferença e da imprevisibilidade do outro humano real.

 

O Outro que resiste: a impossibilidade do controle absoluto

O outro ser humano, seja na forma de um filho, um parceiro afetivo ou uma amizade, nos desafia, escapa ao nosso controle, impõe tempos e demandas próprias. Nenhuma relação verdadeiramente humana é sem conflito, sem frustração ou sem confrontos com os limites do eu.

O bebê chora, o filho cresce e questiona, o cônjuge tem vontades, o amigo decepciona.
Amar, educar, cuidar, conviver — tudo isso exige tolerância à frustração, disposição ao diálogo, escuta, renúncia e abertura ao que não se pode prever.

Ora, em tempos de subjetividades fragilizadas, marcadas pelo narcisismo e pela recusa do desconforto, muitos buscam relações sem alteridade real: vínculos onde o outro é simulado, previsível e sempre moldado ao desejo do sujeito.

 

Bebês reborn e o maternal sem dor

O caso das pessoas que criam bebês reborn é particularmente emblemático. São bonecas ultra-realistas, com peso, textura, cheiro e aparência de um recém-nascido. Em muitos casos, são “criados” com nomes, rotinas e quartos próprios.

Do ponto de vista psicanalítico, o que está em jogo aqui não é apenas uma fantasia de maternidade ou afeto, mas uma tentativa de acessar os aspectos gratificantes da função materna — o cuidado, a ternura, o colo — sem lidar com os impasses reais do desenvolvimento de um sujeito.

O bebê reborn nunca chora, nunca cresce, nunca desafia, nunca separa-se. Ele é o bebê ideal: eternamente dependente, eternamente dócil. Trata-se de uma maternidade narcisicamente satisfatória, mas simbolicamente estéril.

 

Pets como filhos: amor, compensação e fusão simbólica

O fenômeno da “filhificação” dos pets — cães e gatos tratados como filhos humanos — também pode ser compreendido como uma forma de responder a carências afetivas ou evitar os desafios da parentalidade real.

Não se trata de criticar o amor por animais — que pode ser profundo e legítimo —, mas de questionar a projeção simbólica sobre o pet como substituto de relações humanas frustradas, temidas ou rejeitadas.

O animal não verbaliza, não critica, não questiona a autoridade. É objeto de afeto total, mas também de controle total. O perigo é que esse tipo de vínculo reforce fantasias de fusão simbiótica, em que o sujeito nunca precisa se confrontar com a diferença, com o limite e com o desejo do outro.

 

Bonecas hiper-realistas e a solidão sexual sem alteridade

Mais radical — e mais sintomático — é o caso dos homens que estabelecem relações afetivo-sexuais com bonecas hiper-realistas. Há relatos de “casamentos” com bonecas de silicone, com rituais simbólicos e exclusividade amorosa.

Aqui, a recusa da alteridade se torna quase total: o parceiro ideal é aquele que jamais se frustra, jamais nega, jamais reage. O que está em jogo não é erotismo, mas controle absoluto sobre o vínculo. Não há conflito, nem negociação, nem linguagem partilhada — só performance e fantasia.

Segundo a psicanálise, isso pode ser lido como tentativa de blindagem narcisista diante do trauma da castração simbólica: o outro que deseja por si, que não está inteiramente sob o domínio do eu.

 

Educar, amar, conviver: os trabalhos da alteridade

Criar um filho, manter uma relação amorosa ou sustentar uma amizade são tarefas árduas, porque envolvem reconhecimento da diferença, aceitação do tempo do outro, e a renúncia ao ideal narcísico de completude.

Lacan nos ensina que o amor verdadeiro só é possível quando se reconhece no outro o que nele escapa — o que nele falta. Ou seja, amar é aceitar que o outro não vem para preencher o eu, mas para desorganizá-lo de forma criativa e real.

A crescente substituição do outro humano por simulacros — bebês reborn, pets humanizados, bonecas hiper-realistas — pode indicar um mal-estar contemporâneo diante da exigência simbólica de construção de laços reais. Em vez da alteridade, busca-se o reflexo ideal. Em vez do desafio do afeto, opta-se pela fantasia de obediência.

 

Conclusão: vínculos sem risco são vínculos sem verdade

Na psicanálise, o sujeito se constitui no encontro com o desejo do outro — e não na sua negação. Evitar o outro real é evitar o processo de subjetivação mais profundo.

As relações simuladas, por mais confortáveis que pareçam, empobrecem a experiência afetiva, sexual e educativa. Elas nos protegem da dor do vínculo, mas também nos excluem da alegria genuína da troca, da descoberta e da construção conjunta.

Cultivar relações com seres reais — com suas faltas, silêncios, falas, crises e transformações — é uma das formas mais radicais de se manter vivo.
E talvez a única forma de amar de fato.

 

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