Às vezes me sinto no fim do mundo

 

Hoje eu acordei com um peso no peito que não é só meu. É como se eu carregasse, junto dos meus próprios lutos e incertezas, a dor de um planeta inteiro. Abri o noticiário e vi mais um bombardeio em Gaza. Crianças mortas, bairros inteiros pulverizados. Em outro canto, imigrantes sendo arrastados, separados dos filhos, humilhados como se fossem objetos. Nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, a extrema-direita cresce como erva daninha — espalhando ódio com a convicção de quem acha que Deus está do seu lado.

E eu me pergunto: como foi que chegamos até aqui?

Sinto vergonha. Raiva. E, acima de tudo, uma tristeza funda, dessas que não se curam com otimismo barato ou com a velha promessa de que “tudo vai melhorar”. Porque não está melhorando. Está piorando — e rápido.

 

 A falência da humanidade

Vejo gente justificando o injustificável. Chamando genocídio de autodefesa. Chamando famílias inteiras de “ilegais”. Vejo líderes se orgulharem da crueldade como se ela fosse um valor. E o que mais me dói: vejo muita gente calada, indiferente, anestesiada — como se tudo isso fosse normal, inevitável, parte da vida.

Mas não é.

Nada disso é natural. A crueldade não é destino. Ela é escolha, estrutura, ideologia. E o que está falindo não é apenas a política — é o que há de mais íntimo e essencial no projeto de humanidade. A compaixão. A solidariedade. A vergonha diante do sofrimento alheio.

 

 A impotência como ferida e como prova de lucidez

Eu confesso: me sinto impotente. Não diante da dor em si — porque há formas de cuidar, acolher, lutar — mas diante da escala da brutalidade. Do silêncio institucional. Da covardia internacional. De ver crianças sendo apagadas enquanto potências discutem protocolos.

Essa impotência não é rendição. Ela é um grito contido, um reconhecimento amargo de que o mundo gira hoje sobre eixos de desumanização. E, paradoxalmente, sentir-se impotente ainda é prova de sanidade — porque só quem sente, vê. E só quem vê pode um dia fazer diferente.

 

 O ser humano pode — e deve — fazer melhor

E ainda assim, com tudo isso, eu não consigo abandonar a ideia de que o ser humano é capaz de mais. Porque já vi mãos que curam. Palavras que salvam. Gestos que resgatam. Vi comunidades inteiras resistindo ao esquecimento. Vi mães palestinas protegendo seus filhos com o corpo. Vi imigrantes cuidando uns dos outros nos campos de detenção. Vi resistência no invisível. E ali mora o que ainda resta de humanidade.

Não é o bastante — eu sei. Mas é real. E é nisso que me agarro quando tudo parece ruir.

 

 Não é esperança — é compromisso

Não escrevo isso para confortar. Escrevo porque preciso nomear o que sinto: tristeza, indignação, exaustão, mas também compromisso. Um compromisso com aquilo que me mantém vivo: a recusa em aceitar que este mundo, assim como está, é o único possível.

Se somos mesmo seres humanos, temos que nos comportar como tais. E isso significa dizer não ao massacre, ao ódio, à exclusão. Significa defender a vida onde ela está sob ataque. Significa transformar a impotência em presença, a tristeza em denúncia, o cansaço em gesto — mesmo que pequeno, mesmo que anônimo.

 

Ficar triste é também uma forma de resistência

Neste tempo em que a indiferença virou blindagem, sentir já é um ato político. Que minha tristeza seja lúcida. Que meu incômodo incomode. Que minha palavra ecoe o que muitos não conseguem dizer. Porque se eu calar, aceito. E eu não aceito.

O mundo está doente — mas ainda pulsa. E enquanto houver um sopro de humanidade, não está tudo perdido.

Depois da tristeza, o que fazer? Caminhos possíveis para uma ética da resistência

 

Se há algo que aprendi é que a tristeza, quando reconhecida, pode virar força. Não aquela força ingênua, otimista, mas a força silenciosa e potente de quem decide, mesmo em ruínas, não se ajoelhar. O mundo está atravessado por brutalidades: Gaza sob fogo, crianças separadas na fronteira, o avanço da extrema-direita promovendo o ódio como política de Estado. Mas não basta sentir. É preciso responder. E resistir.

A seguir, compartilho não soluções definitivas — não tenho pretensão de ser guru —, mas trilhas possíveis para quem, como eu, se recusa a se render ao cinismo.

 

 1. Cuidar do comum, do pequeno, do próximo

Antes da macro-política, há a micropolítica do cuidado. A luta contra a desumanização começa no bairro, na escola, no afeto com os outros. Organizar um círculo de escuta. Apoiar quem sofre. Levar comida. Traduzir um documento para uma família migrante. Visitar um campo de refugiados. Ensinar direitos. Ouvir. É pouco? Talvez. Mas é onde a ética começa.

 

 2. Falar, nomear, denunciar

O silêncio é um dos instrumentos mais eficazes da barbárie. Por isso, romper o silêncio é tarefa política. Escrever, falar em público, questionar a naturalização da violência, confrontar falas racistas, xenofóbicas ou belicistas — mesmo no grupo da família. Não deixemos a extrema-direita falar sozinha.

 

 3. Estudar como forma de insurgência

A ignorância não é só falta de informação — é uma arma. Por isso, ler o mundo é um ato revolucionário. Estudar história, geopolítica, filosofia, espiritualidades negras, teorias descoloniais, pedagogias críticas. Formar-se com quem pensa contra a corrente: Angela Davis, Achille Mbembe, Boaventura, Silvia Rivera, Judith Butler, Fanon, bell hooks. Ler é cultivar armas para a lucidez.

 

 4. Organizar-se politicamente, mesmo com poucos

Sozinhos, somos frágeis. Juntos, somos torrente. Movimentos populares, coletivos de base, redes de solidariedade, ocupações culturais, mutirões agroecológicos — tudo isso são formas de dizer não à ordem estabelecida e sim à vida que resiste. Participar, fundar, apoiar. A utopia começa na prática.

 

5. Inventar outras formas de viver

Recusar o mundo como está é também propor outras formas de vida. Comunidades autônomas, cooperativas, partilhas, redes de afeto, produção coletiva de alimentos, culturas de cuidado e espiritualidade não colonial. Como dizia Cornelius Castoriadis, a verdadeira revolução é imaginar outros modos de existência.

 

 6. Construir uma política internacionalista da solidariedade

O sofrimento em Gaza, o exílio dos imigrantes, os golpes na África e na América Latina não são tragédias distantes — são expressões do mesmo sistema que destrói o planeta. É preciso, mais do que nunca, retomar uma ética internacionalista, que una os de baixo, os expulsos, os apagados. A solidariedade global é uma prática política, não um slogan.

 7. Cuidar da nossa saúde emocional como parte da luta

Não há revolução com burnout. Não há militância com depressão crônica ignorada. A luta política precisa incluir o cuidado com a saúde mental, sem cair na lógica individualizante da autoajuda neoliberal. O cuidado coletivo, a escuta, a pausa, a poesia, a dança, a espiritualidade (descolonizada) são também formas de resistência.

 

 Conclusão: o impossível precisa ser tentado

O mundo está errado. É verdade. Mas é também verdade que ele pode ser refeito, não de uma vez, não por decreto, mas com mãos múltiplas, com pequenas sublevações cotidianas, com alianças improváveis, com indignações que se tornam ato.

A extrema-direita quer nos convencer de que estamos sozinhos. Que não adianta. Que tudo é como é. Mas não estamos sozinhos. E nada é imutável. Como diz Eduardo Galeano:

“Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo.”

É nisso que acredito. Com tristeza, sim — mas com convicção.

 

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