Balas no lugar de balões: mais uma operação desastrosa da PM do RJ interrompe festa junina na favela Santo Amaro
Na noite
em que a favela de Santo Amaro, no Catete, zona sul do Rio de Janeiro,
se preparava para celebrar uma tradicional festa junina, a Polícia
Militar invadiu o território com tiros, gritos e medo. O que deveria ser uma
noite de música, quadrilha, milho cozido e forró virou mais uma página do livro
trágico e recorrente das operações policiais em favelas cariocas.
Segundo
relatos de moradores e vídeos divulgados por redes de coletivos locais, a
operação foi desproporcional, sem mandado visível, sem critérios
transparentes e com disparos realizados em plena área comunitária. Crianças
choraram, idosos se esconderam, barracas foram desmontadas às pressas. A festa
foi interrompida. O terror ocupou o espaço do arraial.
Estado ausente, Estado violento
Esse tipo
de intervenção não é exceção: é padrão. A polícia que não aparece para
garantir direitos sociais, chega armada até os dentes quando a favela tenta
celebrar, resistir, viver. A festa junina é um dos símbolos mais profundos da
cultura popular brasileira, especialmente nas periferias: é um espaço de
encontro, de ancestralidade, de beleza e de economia local.
A
pergunta se impõe: por que o Estado insiste em criminalizar a alegria dos
pobres?
Política de segurança ou política de extermínio?
As
operações policiais nas favelas do Rio são justificadas, geralmente, como parte
de uma “guerra às drogas” ou “combate ao tráfico”. Mas o que se vê, na prática,
é uma guerra contra territórios inteiros, onde a lógica do inimigo se
aplica a qualquer morador, seja ou não envolvido com qualquer atividade ilegal.
A favela
é tratada como espaço inimigo, onde os corpos negros e pobres são
considerados suspeitos por princípio. A operação em Santo Amaro, como tantas
outras, viola decisões do STF que restringem ações policiais em
comunidades durante festas, atividades culturais ou sem planejamento rigoroso.
Essa ação
reforça o que especialistas e organizações de direitos humanos vêm denunciando:
a PM do Rio de Janeiro atua, muitas vezes, como uma força de ocupação e
intimidação — não como garantia de segurança.
Cultura é direito, não concessão
A festa
junina na favela não é só recreação. Ela é expressão de identidade,
espiritualidade e economia popular. Nas barracas, circula renda para os
moradores. Nos ensaios da quadrilha, há transmissão de saberes, memória e
pertencimento. Interromper uma festa como essa é agredir a dignidade e a
autonomia de um povo.
A PM não
interrompe festas em condomínios da zona sul, mesmo quando há denúncias de uso
de drogas. O critério, portanto, não é jurídico, é classista e racial.
Basta de guerra: por uma política de paz e
cidadania
O que
Santo Amaro viveu não é um acidente. É um projeto de segurança baseado em:
- Militarização da pobreza
- Racismo institucional
- Impunidade de agentes
públicos armados
- Negação da favela como
espaço de cultura e vida legítima
A
resistência a isso precisa ser coletiva. É urgente denunciar, documentar,
reagir. Movimentos comunitários, redes de cultura, defensores de direitos
humanos e instituições democráticas devem exigir:
- Apuração rigorosa da
operação e responsabilização dos envolvidos
- Respeito ao calendário e aos
espaços culturais das comunidades
- Investimento real em
segurança cidadã e políticas públicas
- Desmilitarização da polícia
e reformulação da doutrina bélica do Estado
Conclusão: São João não combina com fuzil
A favela
tem o direito de dançar. Tem o direito de amar, de se reunir, de celebrar suas
tradições. O que aconteceu em Santo Amaro é mais um episódio de tristeza
nacional que precisa virar indignação organizada.
O Brasil
precisa decidir: vai continuar usando o aparato do Estado para silenciar os
tambores da periferia — ou vai, finalmente, ouvir sua música?
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