Ciro Gomes e a Deriva da Incoerência: Do Trabalhismo à Cumplicidade com a Extrema Direita

 

Por que Ciro Gomes insiste em trair sua própria biografia?

O anúncio recente de que Ciro Gomes pode ser candidato ao Governo do Ceará em 2026, somado aos seus gestos políticos cada vez mais próximos da extrema direita, não apenas surpreende: desalenta. Não porque seja inesperado — Ciro há tempos vem flertando com a retórica reacionária —, mas porque representa o colapso definitivo de qualquer projeto ideológico consistente que um dia ele tenha representado.

De líder trabalhista a opositor visceral da esquerda democrática, de defensor do nacionalismo desenvolvimentista a crítico virulento do “lulopetismo” em uníssono com bolsonaristas: Ciro Gomes parece ter escolhido o caminho do ressentimento, da incongruência e da irrelevância moral.

 

Do discurso progressista à retórica oportunista

Durante décadas, Ciro cultivou a imagem de homem culto, técnico e nacionalista, inspirado por figuras como Getúlio Vargas, Darcy Ribeiro e Brizola. Por isso, causou espanto (e decepção) ver esse mesmo Ciro, nos últimos anos, adotando um discurso agressivo, desqualificador e — por vezes — ideologicamente indistinguível da nova direita populista.

Basta acompanhar suas falas recentes:
🔹 Ataques a universidades públicas e movimentos sociais;
🔹 Discurso de ordem moralizante, com tons punitivistas e autoritários;
🔹 Acenos à pauta anticorrupção da Lava Jato, mesmo diante de suas violações legais;
🔹 E, sobretudo, sua ambiguidade diante de Bolsonaro: alguém que ele criticou por conveniência, mas que nunca enfrentou com a clareza e coragem que o momento exigia.

Pior: Ciro se tornou útil à extrema direita, ao dividir a oposição, atacar Lula com mais virulência que os bolsonaristas, e estimular uma narrativa de “equivalência moral” entre o bolsonarismo e o campo progressista — uma falácia perigosa e intelectualmente desonesta.

 

O eterno troca-partidos

Ciro já passou por oito partidos: PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS, PDT e agora flerta com novas legendas. Sua trajetória partidária parece responder menos a convicções e mais a cálculos eleitorais e ressentimentos mal resolvidos.

Essa dança partidária compromete qualquer discurso de coerência política. Como confiar num líder que oscila entre espectros ideológicos opostos, se diz “progressista” e, ao mesmo tempo, agradece aplausos da extrema direita nas redes sociais?

A carência de enraizamento partidário, somada à incapacidade de construir alianças duradouras, revela um político cada vez mais isolado — e perigoso, justamente por buscar recuperar protagonismo à custa da erosão do debate público.

 

A possível volta ao Ceará: regressão ou ameaça?

A sinalização de Ciro de que pode disputar novamente o Governo do Ceará expõe o retrocesso político que se ensaia no estado. Após uma década de avanços em políticas públicas e relativa estabilidade administrativa sob lideranças como Camilo Santana e Elmano de Freitas, o retorno de Ciro ao cenário local parece menos um projeto coletivo e mais uma tentativa pessoal de sobreviver politicamente.

Ciro não quer reconstruir o Ceará — quer reconstruir sua autoestima política. Seu nome não traz esperança renovada: carrega mágoa, divisionismo e volatilidade.

 

A política como palco da vaidade

O caso de Ciro é emblemático de uma geração de políticos que, em vez de usar sua trajetória para somar forças com o campo democrático e popular, escolhem a vaidade, o rancor e a autossabotagem.

Ciro poderia ter sido uma voz lúcida da centro-esquerda. Poderia ter sido ponte entre setores progressistas e desenvolvimentistas. Preferiu, no entanto, o papel de franco-atirador retórico, agindo como linha auxiliar da extrema direita, mesmo quando jura combatê-la.

 

Conclusão: coerência é um valor político

No momento em que o Brasil precisa de união contra o autoritarismo, Ciro escolheu o caminho da irrelevância disfarçada de rebeldia. Sua possível candidatura ao Governo do Ceará não deve ser subestimada — mas deve ser enfrentada com firmeza e memória histórica.

Porque não se trata de apenas disputar uma eleição. Trata-se de defender um campo político comprometido com a democracia, com a justiça social e com a verdade.
E, nesse campo, **já faz tempo que Ciro Gomes não está mais.

 

 

 

 

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