Duas mãos, quatro mãos, uma alma só: Thomas Enhco no Jazz sous les Pommiers 2025
A música às vezes nos pega pelas beiradas da existência. Outras vezes, ela entra no centro do peito como uma luz súbita. Foi assim que me senti ao assistir à apresentação solo de Thomas Enhco e, em seguida, ao dueto de pianos com Kevin Hays, pelo festival Jazz sous les Pommiers 2025, exibido no canal do ARTE Concert. Era como se eu tivesse entrado num templo onde o silêncio fosse cúmplice e o som, oração.
Thomas Enhco: o piano como extensão da respiração
Thomas
Enhco não toca: ele dialoga com o invisível. Seu solo foi um passeio
lírico entre o jazz, a música erudita e uma espécie de travessia emocional que
dispensava qualquer palavra. Em suas mãos, o piano era vento, corda, suspiro.
Havia espaço para o improviso, mas também para a pausa. Cada nota parecia
escolhida com uma delicadeza quase ritual — como quem pisa com reverência sobre
um solo sagrado.
Na
plateia, vi pessoas de olhos fechados. Em casa, eu também fechei os meus. A
música me levou a lugares que não sabia que habitavam em mim: um campo aberto
na infância, um amor que não teve tempo, uma raiva que virou ternura.
Dois pianos, um encontro: Enhco e Kevin Hays
Se o solo
de Enhco já era transcendência, o encontro com Kevin Hays foi uma conversação
cósmica. Dois pianos, duas linguagens, dois tempos — e, ainda assim, uma
única escuta profunda. Não havia ego ali. Nenhum dos dois tentava brilhar
mais. Era como se cada um colocasse sua alma ao centro e, com humildade,
deixasse a música decidir o rumo.
Hays, com
seu toque levemente mais percussivo, provocava. Enhco respondia com lirismo. Em
outros momentos, era Enhco quem lançava uma melodia sonhadora, e Hays a
completava com acordes densos e quentes. A troca era viva, genuína — daquelas
que só acontecem quando há generosidade e escuta verdadeira.
Entre o clássico e o improviso: uma ponte sobre
abismos
O
repertório transitava entre peças autorais e improvisações que pareciam
compostas ali, no calor do instante. Ora Debussy espreitava entre os acordes,
ora Keith Jarrett sussurrava por entre os arpejos. Era jazz, mas era também
algo indizível, um som que escapava às definições de gênero. Um encontro
entre tradição e invenção, Europa e América, racionalidade e emoção.
O mais
bonito era perceber que o virtuosismo nunca vinha à frente da emoção. Os
dois tocavam como quem conta segredos — e o público ouvia como quem recebe
confidências que não se esquecem.
ARTE Concert como janela para o mundo
Mais uma
vez, o ARTE Concert me ofereceu um banquete espiritual. A qualidade da
filmagem, os ângulos delicados sobre as mãos dos pianistas, os closes nos
rostos absortos — tudo conspirava para que eu não apenas assistisse, mas vivenciasse
o concerto.
Não há
fronteiras quando a música é feita com alma. Do sofá de casa, viajei até
Coutances, entre maçãs e pianos, e voltei com algo transformado.
Epílogo: o som que permanece
Quando a
última nota silenciou, não aplaudi. Apenas respirei fundo. E entendi que aquilo
que me atravessou não era apenas música, mas presença, escuta e delicadeza
— três coisas que o mundo anda precisando urgentemente.
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