Eleições de 2026: Bolsonaro, Big Techs e o cerco à democracia

 

Introdução

O Brasil se aproxima das eleições de 2026 sob um clima de tensões acumuladas, desinformação organizada e disputa intensa pela narrativa pública. Mais do que uma disputa entre partidos, o que está em jogo é a natureza da democracia brasileira: seus limites, suas fissuras e a forma como será (ou não) controlada pelas forças do mercado e do autoritarismo digital.

Nesse cenário, Jair Bolsonaro — inelegível até segunda ordem, mas ainda muito influente politicamente — articula alianças, testa candidatos e segue mobilizando sua base em torno de pautas ultraconservadoras, antissistêmicas e de ruptura institucional.
Ao lado dele — ou por vezes acima dele — estão as Big Techs: plataformas como YouTube, Meta (Facebook/Instagram), X (ex-Twitter) e WhatsApp, que operam como atores políticos não eleitos, capazes de moldar o debate público, manipular emoções e interferir nos resultados eleitorais.

Este artigo busca analisar criticamente os riscos que essa triangulação — Bolsonarismo, Big Techs e eleições — representa para a democracia brasileira e as estratégias necessárias para enfrentá-la.

 

1. Bolsonaro fora da urna, mas dentro da eleição

Embora juridicamente impedido de se candidatar, Bolsonaro segue sendo o principal nome da extrema direita no Brasil, com capacidade de transferir votos, mobilizar redes e sustentar um discurso de guerra cultural.

Nas redes, ele permanece ativo, propagando teorias conspiratórias, discursos antidemocráticos, negacionismo climático e científico, e um ataque constante às instituições republicanas.

Seu capital político é mantido por três pilares:

  • Radicalização religiosa e moral, que mantém setores evangélicos sob forte alinhamento;
  • Discurso antipetista e antissistema, explorando o ressentimento e a desconfiança popular;
  • Aparato digital sofisticado, que envolve desde “influencers” a redes de desinformação.

Em 2026, mesmo fora da cédula, Bolsonaro será o principal cabo eleitoral da extrema direita — e a sombra que pairará sobre a estabilidade do processo democrático.

 

2. Big Techs: o novo poder sem rosto

As eleições de 2026 ocorrerão em um ambiente marcado pela hegemonia digital.
A informação circula principalmente por plataformas privadas, que não se submetem plenamente à soberania nacional e regem seus algoritmos com lógicas de engajamento e lucro, não de verdade ou cidadania.

Essas empresas:

  • Lucram com desinformação, polarização e discurso de ódio, pois estes conteúdos geram mais engajamento;
  • Controlam o alcance de vozes políticas, movimentos sociais e campanhas oficiais, podendo restringir, amplificar ou silenciar atores sociais com base em critérios opacos;
  • Oferecem pouco ou nenhum compromisso com a transparência de seus algoritmos e práticas de moderação, e reagem com resistência a qualquer tentativa de regulação.

Durante a eleição de 2018 e, em menor escala, a de 2022, já se viu o papel estratégico das plataformas na manutenção de bolhas de extrema direita, viralização de mentiras e ataques a instituições democráticas.

Em 2026, esse risco aumenta, dado que a sofisticação tecnológica (com uso de IA, deepfakes e bots) se combina com um ambiente jurídico frágil e dependente das próprias plataformas.

 

3. O risco da captura algorítmica da democracia

A questão central não é apenas Bolsonaro ou sua base — mas como o debate público e a escolha eleitoral estão sendo mediadas por sistemas algorítmicos construídos fora do Brasil, com fins comerciais, sem compromisso com a verdade, o equilíbrio informativo ou a soberania nacional.

Quem controla os fluxos de informação hoje não são os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais ou a imprensa — são as plataformas.

O bolsonarismo compreendeu isso muito bem e soube usar as regras do jogo a seu favor, criando um ecossistema de propaganda, fake news e mobilização emocional que opera 24 horas por dia, com alta capilaridade nas periferias urbanas, nos interiores e nos espaços religiosos.

 

4. O que está em jogo em 2026

Mais do que escolher representantes, o Brasil testará:

  • Se é possível manter eleições democráticas num ambiente de comunicação capturado pelo capital digital estrangeiro;
  • Se o Estado brasileiro terá coragem política para regular as plataformas e impedir a manipulação algorítmica da opinião pública;
  • Se os movimentos democráticos conseguirão construir uma contra-narrativa popular e afetiva, capaz de disputar mentes e corações em ambientes polarizados.

Se o país falhar nessas frentes, a eleição de 2026 poderá marcar um novo ciclo de erosão institucional, pavimentando o retorno da extrema direita ao poder por meio de candidatos-fantoche, desinformação em massa e ataques pré-fabricados à legitimidade do processo eleitoral.

 

5. Caminhos para a resistência democrática

Para enfrentar essa conjuntura, algumas ações se tornam urgentes:

✅ Regulação democrática das plataformas

Seguir o exemplo da União Europeia, com regras claras de responsabilidade, transparência algorítmica e punição por disseminação de fake news.

✅ Educação midiática e digital crítica

Ampliar o letramento digital, especialmente em escolas e comunidades populares, para fortalecer a autonomia cognitiva dos cidadãos.

✅ Financiamento público e descentralizado da comunicação alternativa

Apoiar mídias comunitárias, independentes e progressistas que façam frente à hegemonia desinformativa das Big Techs.

✅ Mobilização popular e ação política de base

É fundamental que os movimentos sociais, sindicatos, juventudes e partidos se organizem fora das redes também, com ação concreta nos territórios, nas igrejas, nas escolas e nas periferias.

 

Conclusão: entre a urna e o algoritmo

As eleições de 2026 serão decisivas para o futuro do Brasil.
O que está em disputa não é apenas quem vencerá — mas quem controlará as condições de possibilidade da escolha.

A combinação entre o poder residual de Bolsonaro, a permissividade das plataformas digitais e o enfraquecimento da esfera pública tradicional ameaça transformar a democracia brasileira em um simulacro: formalmente livre, mas materialmente dominada por lógicas comerciais, tecnológicas e autoritárias.

Para impedir isso, não basta vencer nas urnas — é preciso reconstruir a confiança coletiva, democratizar a comunicação e enfrentar os verdadeiros donos do poder no século XXI: os que controlam a informação.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O elétron é a Matrix da realidade? Uma pergunta entre a física, o mito e o desejo de sentido

Saudade que Amanhece

A viagem proibida: quando o corpo feminino se torna território vigiado