“Encantado com Silva: quando a música respira junto da gente”
Ainda
estou com a alma dançando.
Fui hoje ao show Encantado, do Silva, no Shopping RioMar Fortaleza, e é
difícil escrever com objetividade quando a gente ainda está com o coração em
estado de suspensão. Mas vou tentar. Porque algumas noites não podem passar em
branco — precisam ser ditas, lembradas, tatuadas na linguagem.
Silva
entrou no palco como quem já conhece o mistério do encanto: sem pressa, sem
exagero, com aquela delicadeza que parece simples, mas é pura arquitetura de
afeto. A voz limpa, luminosa. O corpo leve. E a presença — ah, a presença —
de quem parece que canta direto do próprio centro.
A delicadeza
como potência
O
repertório de Encantado é um convite à escuta, mas também ao delírio
suave. Silva não precisa gritar para ser intenso. Ele sussurra — e o público inteiro
inclina o corpo para ouvir melhor. E foi assim, música após música, que ele
costurou uma noite em que sensibilidade virou política e emoção virou arte.
Em “Pra
vida inteira”, eu senti casais se abraçando mais forte. Em “Feliz e ponto”,
ouvi suspiros vindo de gente que talvez não sabia que precisava escutar aquilo.
E quando veio “A Cor é Rosa”, o teatro inteiro parecia ter sido atravessado por
uma onda de afeto coletivo. Uma comoção íntima. Ninguém se tocava, mas todo
mundo se sentia junto.
Um show que
é também território
O palco
era simples, quase minimalista, e talvez por isso mesmo tão bonito. Não era
sobre efeitos. Era sobre presença. E Silva tem essa rara habilidade de fazer da
canção um lugar de encontro — entre gerações, entre amores possíveis, entre
silêncios que a gente carrega sem nomear.
O show
também teve algo de confissão pública, de carta cantada, de comunhão entre
corpos diversos que estavam ali não só para ouvir, mas para sentir-se
legítimos. Homens de mãos dadas, mulheres chorando sozinhas, adolescentes
cantando como quem reza. E isso me tocou profundamente. Porque um show como
esse não acontece só no palco. Acontece no corpo de quem se permite estar
inteiro.
Encantado.
Literalmente.
Saí do
show mais calado do que entrei.
Mas era um silêncio bonito. Um silêncio de quem foi tocado por algo delicado
demais para ser quebrado com pressa.
Silva,
com sua voz e sua estética tão própria, lembrou a mim — e talvez a muitos
ali — que a beleza ainda existe. Que há espaço para a gentileza. Que o
amor, mesmo ferido, ainda canta. Que ser encantado não é perder-se, mas
finalmente lembrar-se de onde a gente sente.
E hoje eu
senti.
Muito.
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