Entre as Portas
Desde criança, Lina sonhava com portas.
Nunca com
lugares.
Sempre com portas.
Algumas
eram de madeira antiga, outras metálicas, outras feitas de vidro que nunca
refletia seu rosto. Havia até uma que parecia feita de vapor.
Mas o mais estranho era que, ao acordar, ela lembrava exatamente onde cada
uma estava — não no sonho, mas no mundo real.
A
primeira vez foi aos 9 anos, quando apontou uma portinhola minúscula atrás de
uma estante da biblioteca municipal.
Os adultos riram. Mas quando moveram os móveis, lá estava ela: uma pequena
porta escondida no rodapé, que ninguém jamais notara.
Estava
trancada.
Mas Lina
sabia — e passou a vida sabendo — que cada uma daquelas portas levava
a outro lugar. Outra realidade. Outra versão de si mesma.
O homem do casaco esverdeado
Aos 27
anos, Lina era bibliotecária. Evitava conversas longas, preferia cadernos sem
pauta e escrevia com caneta azul-claro porque, segundo ela, “é uma cor que
escuta”.
Foi numa
manhã chuvosa que ele apareceu: um homem de cabelos brancos e casaco
esverdeado, com olhos de duas cores diferentes — um cinza claro, outro
negro.
Ele
entrou, olhou ao redor e disse:
— Você
está pronta para abrir?
Lina, sem
surpresa, respondeu:
— Qual
delas?
Ele
sorriu.
— A que você nunca ousou tocar.
O corredor de Lina
Naquela
noite, eles caminharam até um galpão abandonado nos arredores da cidade.
Lá dentro, apenas uma porta: de metal, enferrujada, com marcas de mãos no
entorno.
— Esse é
o Corredor de Si — disse ele. — Cada passo, uma escolha que você não
fez.
Lina
entrou.
O
corredor era escuro e silencioso, mas em cada lateral havia portas, centenas
delas, cada uma com uma placa:
“Lina que escolheu não amar.”
“Lina que se mudou para Berlim.”
“Lina que morreu aos 14.”
“Lina que nunca nasceu.”
Ela parou
diante de uma:
“Lina que entrou na primeira porta.”
Abriu.
A realidade ao lado
Do outro
lado, havia uma cidade parecida, mas o céu era lilás, e as pessoas sorriam
olhando diretamente nos olhos.
Ali, Lina era outra — mais leve, mais falante, ainda bibliotecária, mas também
escritora.
Tinha um gato que falava frases aleatórias de livros.
E vivia com uma mulher chamada Clara, que conhecera num café onde nunca foi na
sua realidade.
— Você me
trocou — disse a outra Lina, sorrindo. — Ou será que eu fui você que me trocou?
Lina
ficou alguns dias ali. Aprendeu. Sentiu. Quase quis ficar.
Mas uma
noite, o homem do casaco apareceu novamente.
— Só há
duas regras:
- Você só pode visitar.
- Toda visita muda o que você
é quando volta.
O retorno
Lina
retornou ao seu mundo.
Mas algo havia mudado.
Ela
começou a escrever, a falar com desconhecidos, a usar roupas coloridas.
Passou a rir mais e chorar menos com culpa.
E toda vez que alguém dizia “isso é impossível”, ela sorria de canto e
respondia:
— Você só não achou a porta ainda.
Desde
então, há rumores de portas abrindo em lugares improváveis: atrás de espelhos
antigos, sob escadas esquecidas, dentro de livros de segunda mão.
Dizem
que, ao abrir uma dessas portas, você não encontra outro mundo.
Você encontra a parte de si que você abandonou.
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