Entre Espíritos e Sintetizadores: La Chica & El Duende Orchestra no Jazz sous les Pommiers
Por um
instante, senti que não assistia a um concerto, mas a uma invocação. Era como se cada nota, cada
respiração, cada gesto de La Chica invadisse o palco não apenas para apresentar
músicas, mas para evocar presenças, travessias, memórias. E que memórias! "El
Duende" não é apenas o nome do projeto — é o espírito que atravessa
tudo o que ela toca: o misterioso, o visceral, o que dança entre a vida e a
morte.
Assisti
ao concerto com o coração apertado e os olhos atentos. No palco do Jazz sous
les Pommiers, em Coutances, ela estava acompanhada da poderosa El Duende
Orchestra: uma fusão de jazzistas contemporâneos, instrumentos de sopro e
cordas, texturas eletrônicas e forças invisíveis que nos chamavam de volta às
nossas raízes mais profundas.
La Chica: entre Paris e a América Latina, entre o
piano e os abismos
La Chica,
nascida entre os mundos da França e da Venezuela, é uma dessas artistas
raras que canta com o corpo todo. Seu piano não acompanha — ele conduz.
Sua voz não apenas entoa — ela pulsa. E quando ela fala entre as músicas, em
francês ou espanhol, nos lembra que a música não é apenas som, mas também
luta, saudade, e resistência.
O
espetáculo gira em torno da morte trágica de seu irmão, Jorge, que ela
homenageia com delicadeza e brutalidade em seu álbum La Loba. Mas o luto
aqui não é resignação. É transformação. É fúria. É beleza devastadora. La Chica
não tem medo de chorar no palco — e é por isso que sua arte emociona tanto.
A orquestra como corpo coletivo de evocação
A El
Duende Orchestra é mais do que um acompanhamento. Ela respira com La
Chica, ampliando as camadas de sentido das composições. As cordas criam
atmosferas densas, os sopros sopram como se fossem vento em montanhas andinas.
Há jazz, mas também há tambores imaginários, ecos de cantos indígenas,
sintetizadores que lembram cidades em ruínas.
Cada
música parece um feitiço, cuidadosamente elaborado: há tensão, expansão,
vertigem. E ao mesmo tempo, há momentos de paz: quando ela sola ao piano, ou
sussurra em espanhol com a ternura de quem embala uma dor antiga. A performance
não tem medo do silêncio, e isso é raro. Porque o silêncio, nesse concerto,
é também presença.
Entre política e espiritualidade: uma arte que
resiste
Mais do
que uma apresentação, o que vimos foi um ato político e espiritual. La
Chica não separa essas dimensões. Ao cantar para seu irmão, ela canta também
para os mortos da violência, os exilados, as mães que não se
despediram de seus filhos, os povos que lutam para sobreviver. Há
uma energia feminina, feroz e mágica que atravessa o concerto como uma corrente
elétrica ancestral.
Esse é o feminismo
de La Chica: não panfletário, mas vibrando em cada célula do som. Uma
mulher que canta e grita, mas também acaricia. Que constrói sua própria
linguagem estética e sonora para expressar o que a linguagem comum não alcança.
ARTE Concert como janela sensível para um rito
musical
A
plataforma ARTE Concert mais uma vez cumpre seu papel de registrar e traduzir
o inefável. As câmeras não são invasivas: elas deslizam, observam com o cuidado
de quem reconhece o sagrado em cena. A iluminação, os closes no piano, os
planos da orquestra em uníssono — tudo cria uma experiência sensorial que
extrapola a tela. Mesmo assistindo de casa, fui atravessado.
Epílogo: o duende está entre nós
Federico
García Lorca dizia que o “duende” não é talento, nem técnica, nem
inspiração. É força misteriosa que queima o sangue e consome a alma. É
exatamente isso que presenciei com La Chica: uma música que não quer agradar,
mas revelar. Que não quer nos acalmar, mas nos inquietar e curar.
Ao fim,
entendi: ela não está apenas cantando. Está fazendo ritual, nos
ensinando a dar forma à ausência, a dançar com os fantasmas, a transformar a
dor em beleza — e a beleza em força.
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