Entre Máscaras e Pele Viva: Um Encontro com Ney Matogrosso em Homem com H
por quem
assiste e é assistido
Fui ao
cinema ver um filme sobre Ney Matogrosso, e saí de lá como quem
atravessa um espelho sem se reconhecer de volta.
Homem com H não é apenas um documentário. É um rito, uma espécie
de travessia emocional e simbólica onde o sujeito Ney se esconde e se
revela, se multiplica e se retira, se oferece e se protege.
O filme
não explica Ney — e talvez essa seja sua maior fidelidade ao retratado. Porque Ney
Matogrosso nunca quis ser decifrado. Ele quis ser visto, sentido, ouvido. E
mesmo assim, sempre fugindo da prisão do nome.
O corpo que canta com o inconsciente à flor da pele
Há algo
em Ney que escapa à categoria de “artista”. Ele é, antes, uma força estética
encarnada, uma pulsação sensível que dissolve fronteiras entre o
masculino e o feminino, entre o sagrado e o profano, entre o erudito e o
popular.
Na tela,
vemos fragmentos da sua trajetória: o menino do interior que via fantasmas, o
cantor dos Secos & Molhados que se recusava à caretice revolucionária, o
homem que encarnava deuses ambíguos no palco enquanto o país vivia sob farda
e censura.
Do ponto
de vista psicanalítico, Ney é um sujeito que nunca se deixou
totalizar pelo Nome-do-Pai. Ele não se encaixa na norma, não deseja a
completude, não sustenta o lugar do ícone — e justamente por isso, se torna
espelho de um desejo outro. Um desejo que não quer dominar, mas viver.
Entre o silêncio e o grito: a estética como
política
Homem com
H nos
revela como Ney fez da arte um corpo político sem precisar discursar. Seu grito
era visual, sonoro, corporal.
Numa época em que se era perseguido pelo que se dizia, Ney dizia tudo com
gestos, com timbres agudos, com olhos pintados e ancas livres.
Ele não
confrontava o regime com palavras. Ele seduzia o inconsciente coletivo
com o escândalo da beleza.
E talvez seja por isso que resistiu tanto: porque sua performance desestabilizava
a ordem simbólica.
No palco,
Ney não imita a feminilidade: ele desmonta a masculinidade compulsória.
Ele nos coloca diante do não-sabido do desejo, aquilo que escapa à
lógica binária. Sua voz, de tão aguda, atravessa qualquer gênero — e toca uma
zona anterior à identidade: a da vibração da alma.
Ney como sintoma e como cura
A
psicanálise nos ensina que o sujeito é um efeito da linguagem, mas também
uma invenção sobre a falta. Ney se fez onde não havia modelo.
Ele não representa o diferente — ele inventa uma presença singular onde a
norma tentava o apagamento.
Assistir
ao filme é confrontar-se com as próprias máscaras.
Com os pactos que fizemos com a normatividade.
Com o desejo de voar que calamos para sobreviver.
Ney nos
dá, com o corpo, permissão para existir fora do script.
E talvez seja por isso que tanta gente chora ao vê-lo. Porque ele encarna a
liberdade que a maioria não ousou viver.
Entre a castração e a criação: o artista como
metáfora do real
Há uma
cena no filme em que Ney fala pouco, mas dança com os olhos. E eu penso: quantas
vezes confundimos falar com significar?
Ney nos mostra que o corpo é linguagem, e que a arte é o lugar onde a
castração pode virar criação.
Onde o interdito vira potência. Onde o trauma vira voz. Onde o excesso vira
beleza.
Como
sujeito, Ney é uma fenda no tecido social.
Como artista, é um dispositivo de reencantamento do mundo.
Como figura pública, é resistência sensual à barbárie.
Conclusão: o grito que ressoa onde as palavras não
chegam
Homem com
H não
conta a história de Ney.
Ele recria seu enigma, e nos oferece pedaços de um homem que sempre foi
muitos — mas que nunca foi personagem.
Ney é o
real que dança. O desejo que não se explica.
É aquilo que, como o inconsciente, fala mesmo no silêncio, canta mesmo no
escuro e brilha mesmo fora do palco.
Ao fim da
sessão, fiquei quieto.
Como quem sabe que certas presenças não se compreendem — se acolhem.
E se
houver salvação nesse mundo tão áspero, talvez ela venha mesmo do corpo que
canta, dança, do gesto que desnuda, e da
coragem de ser, apesar de tudo.
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