Entre Nova York e Paris: o fôlego infinito de Richard Galliano
Por um instante, pensei que fosse possível suspender o tempo. E talvez tenha sido mesmo. Porque ontem à noite, diante da tela, fui tragado por um concerto que mais parecia um encantamento: Richard Galliano, ao lado de Adrien Moignard (guitarra) e Diego Imbert (contrabaixo), no palco do festival Jazz sous les Pommiers 2025, em Coutances. Através do ARTE Concert, viajei sem sair de casa — mas com a alma completamente transportada.
Não era
apenas música. Era uma espécie de evocação. Um gesto amoroso de quem, aos 70 e
poucos anos, ainda sabe dizer “te amo” em bandoneón — com sotaque francês,
timbre argentino e ritmo nova-iorquino.
O tango em outro tempo, em outro corpo
Richard
Galliano não toca: ele transfigura. O instrumento em suas mãos respira,
hesita, explode, acaricia. E nesse trio — o New York Tango Trio — tudo
se encaixa como se o destino tivesse reunido os três músicos num pacto de
escuta atenta e ousadia melódica.
O tango,
ali, não é nostalgia barata, nem fetiche de exílio. É releitura, é
avanço, é uma tentativa de ver Astor Piazzolla com os olhos de quem nasceu em
Cannes e cresceu ouvindo jazz, musette e barroco. Galliano transita por tudo
isso com uma liberdade quase insolente — como quem sabe que já não precisa
provar nada a ninguém.
Uma conversa entre continentes
O que
mais me impressionou não foi apenas a técnica, mas a conversa sutil entre os
três músicos. Moignard, com seu violão delicado e preciso, parecia um
parceiro de xadrez que antecipa os movimentos do mestre. Imbert, ao
contrabaixo, criava uma base rítmica sólida, mas ao mesmo tempo cheia de
possibilidades, como uma cidade subterrânea sob a superfície melódica.
Juntos,
eles constroem uma música que não pertence a um só lugar: é Buenos Aires
e Brooklyn, Montmartre e Palermo, tudo ao mesmo tempo. Não há fronteiras. O
tango encontra o jazz, o clássico sussurra ao improviso, a melodia se dobra ao
silêncio. E o silêncio, aliás, talvez seja o quarto membro do trio — presente
entre uma frase e outra, respirando junto.
ARTE Concert: a ponte entre nós e o mundo
A
transmissão do ARTE Concert foi mais do que um registro técnico: foi um
convite. A câmera não era intrusa, mas cúmplice. As tomadas de Galliano de
olhos fechados, respirando fundo como quem prepara uma confissão; os planos do
público, imóvel, contido, hipnotizado; a reverência dos aplausos ao fim de cada
peça — tudo colaborava para que eu, espectador distante, me sentisse em meio
às maçãs do festival francês.
Um reencontro com o sentir
Depois do
concerto, fiquei em silêncio por um bom tempo. Não houve necessidade de legenda
ou explicação. Entendi tudo com o coração. E compreendi mais uma vez o poder da
música quando ela é feita com verdade: ela nos reconcilia com o que há de mais
humano — a fragilidade, o desejo, o espanto.
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