Entre Vozes e Silêncios: Uma Noite com o Boca Livre no Teatro RioMar
Ainda
estou sob o feitiço das vozes que se encontraram nesta noite de junho no Teatro
RioMar Papicu, em Fortaleza. O grupo Boca Livre — esses alquimistas
da harmonia vocal e da sensibilidade musical — subiu ao palco e, em poucos
minutos, transformou o auditório em um território encantado onde palavras,
timbres e silêncios se entrelaçaram como se a beleza fosse o único idioma
possível.
Fui ao
show com sede de sossego. Numa cidade barulhenta, frenética e às vezes
distraída de si, o Boca Livre chega como um bálsamo. Não há efeitos
pirotécnicos, não há exageros — só quatro vozes que se tratam com
delicadeza, com escuta, com afeto. Em tempos em que tudo grita, ali tudo
sussurrava verdades profundas.
A harmonia como resistência
Desde a
primeira música, a plateia foi tomada por uma atmosfera de reverência, como se
entrássemos em uma cerimônia laica da canção brasileira. “Quem tem a viola, tem
o mundo na mão”, diziam em verso — e eu senti que, de fato, o mundo se fez
menor, mais possível, naquele instante.
As
harmonias vocais — sempre um ponto alto do grupo — continuam sendo um milagre à
parte. Cada voz é única, mas não há ego ali: há fusão. Um som que não é
só som, mas gesto político e estético: a arte de se escutar para poder cantar
junto.
Em tempos
de dissonância social e brutalidade institucional, há algo profundamente
subversivo na doçura. O Boca Livre nos lembra que é possível criar beleza sem
ruído, sem pressa, sem vaidade. Que cantar junto pode ser mais poderoso que
gritar sozinho.
Um repertório que atravessa gerações
Do
cancioneiro mais conhecido como “Quem tem a viola”, “Diana”, “Toada”
ou a emocionante “Panis et circenses” — sempre tão atual —, até
interpretações de canções de outros compositores da MPB, o grupo costura um
repertório que toca o íntimo e o coletivo. É uma música que não envelhece
porque nunca foi refém do tempo.
E ao
olhar em volta, vi gente de todas as idades. Jovens curiosos, casais maduros,
velhos apaixonados pela harmonia. Vi olhos fechados, sorrisos discretos, mãos
apertadas sobre o peito. Ali, cada um cantava em silêncio a sua própria
memória afetiva.
Uma Fortaleza que canta junto
No bis,
quando cantaram “Mistérios”, o teatro se calou inteiro. Foi uma daquelas pausas
raras em que a emoção coletiva se sobrepõe à vontade de aplaudir logo. A
música é também silêncio. E eles sabem disso. Saí do teatro com a alma leve
e os olhos um pouco marejados. Não de tristeza, mas de alívio.
Fortaleza,
que tanto sofre com suas dores urbanas e desigualdades, também merece noites
como esta. Noites em que o canto limpa o ar, o tempo abranda, e a arte nos
devolve a possibilidade de esperança.
Boca Livre é o avesso do barulho — e isso é
libertador
Num
Brasil que tantas vezes despreza sua cultura, que empurra a música ao mercado
voraz e desumanizador, o Boca Livre é como uma floresta que resiste a ser
desmatada. Um grupo que nos mostra que a beleza ainda é possível — e necessária.
Hoje, não
fui apenas a um show. Fui lembrado de que cantar é um ato de amor. E que
há quem resista ao tempo, não pela força, mas pela delicadeza.
Que bom
que ainda existem noites assim.
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