FUNDO PÚBLICO E DISPUTA DO ORÇAMENTO PÚBLICO NO CONTEXTO DE AUSTERIDADE: IMPLICAÇÕES PARA AS POLÍTICAS SOCIAIS
Introdução
O
orçamento público, instrumento essencial de planejamento e execução das
políticas de Estado, tornou-se nas últimas décadas terreno de disputa
política e ideológica intensa. Em contextos marcados pela austeridade
fiscal — como tem ocorrido no Brasil desde meados da década de 2010 — a
alocação de recursos públicos revela prioridades de governo que muitas vezes
aprofundam desigualdades sociais, comprometem a capacidade do Estado de
cumprir sua função redistributiva e enfraquecem os direitos sociais.
Neste
artigo, refletimos sobre a noção de fundo público como espaço de disputa
entre interesses de classe e setores sociais, e analisamos os impactos das
políticas de austeridade sobre o orçamento destinado às políticas sociais,
com foco nas implicações para educação, saúde, assistência e previdência
social.
1. O que é o fundo público?
A
expressão “fundo público”, amplamente discutida por economistas críticos
como François Chesnais e Marilena Chaui, refere-se à massa de recursos
produzidos e apropriados pela sociedade via tributos e contribuições — o
conjunto de bens monetários geridos pelo Estado. Esses recursos, embora
provenientes da sociedade, não são neutros nem automaticamente
redistribuídos de forma equitativa. Ao contrário, sua destinação depende de
correlações de força entre interesses sociais diversos: o capital
financeiro, o agronegócio, as corporações empresariais, os servidores públicos,
os movimentos sociais etc.
No
capitalismo contemporâneo, o fundo público se converteu em objeto de disputa
feroz, especialmente diante da captura neoliberal do Estado, que
privilegia os interesses do rentismo e da dívida pública em detrimento da
ampliação dos direitos sociais.
2. Austeridade fiscal e seus marcos institucionais
A chamada
austeridade fiscal é um conjunto de políticas que busca a redução do
déficit público e o controle da dívida pública via cortes de gastos
primários (principalmente nas áreas sociais), manutenção de superávit
primário e limitação do investimento público. No Brasil, a austeridade foi
formalizada com medidas como:
- Emenda Constitucional nº
95/2016 (Teto de Gastos) – congelou os investimentos públicos federais
por 20 anos, afetando duramente saúde, educação e assistência;
- Lei de Responsabilidade
Fiscal (2000) –
institucionalizou o controle estrito de gastos dos entes federativos;
- Novo Arcabouço Fiscal (2023) – embora mais flexível que
o teto, ainda impõe limites rígidos à ampliação do gasto social.
Essas normas
orçamentárias transformam a gestão do fundo público em mecanismo de
contenção de direitos, deslocando o orçamento social da condição de
investimento para a de “despesa excessiva”.
3. Disputa do orçamento público: quem ganha e quem
perde?
O
orçamento é, na prática, um campo de disputa política, e a austeridade
redefine seus vencedores e perdedores:
✅ Ganha:
- O sistema financeiro,
que continua recebendo juros da dívida pública sem qualquer teto de
crescimento;
- As emendas parlamentares,
especialmente as de relator (RP9, chamadas de “orçamento secreto”), que
crescem em volume e concentração de poder;
- Os setores empresariais
beneficiados com renúncias fiscais, subsídios e privatizações.
❌ Perde:
- A educação pública,
com estagnação de verbas para universidades, escolas e programas de
inclusão;
- O Sistema Único de Saúde
(SUS), fragilizado em sua estrutura de base e sob pressão constante
desde a pandemia;
- A assistência social,
cujos programas como o SUAS enfrentam cortes e paralisações;
- A previdência, alvo
de reformas regressivas e restrições ao acesso.
As
políticas sociais, nesse cenário, passam a ser tratadas como gastos
problemáticos e não como garantias constitucionais.
4. Implicações para as políticas sociais
A lógica
de austeridade e a disputa desigual pelo fundo público geram uma série de consequências
perversas para as políticas sociais:
🔹 Desfinanciamento crônico
A
ausência de reajuste real das verbas sociais implica perda de capacidade
institucional e restrição do acesso da população aos serviços públicos
essenciais.
🔹 Precarização dos serviços
Com a
redução de recursos, há terceirizações, cortes de pessoal, interrupção de
programas e ampliação de desigualdades regionais.
🔹 Criminalização do gasto social
Narrativas
midiáticas e políticas constroem a imagem de que as políticas sociais são ineficientes,
caras e assistencialistas, ocultando sua função estruturante na redução da
pobreza e na justiça redistributiva.
🔹 Dependência de arranjos
clientelistas
Com a
ascensão das emendas parlamentares como fonte central de financiamento,
a execução de políticas sociais se torna vulnerável ao jogo político e ao
fisiologismo, o que fragmenta a universalidade e a equidade no atendimento.
5. Por uma reconquista democrática do orçamento
Romper
com esse ciclo de austeridade e disputa desigual pelo fundo público exige uma
reconfiguração da democracia orçamentária no Brasil, por meio de:
✔ Revisão das regras fiscais
Revogação
ou reformulação profunda de normas como o Teto de Gastos e a LRF,
substituindo-as por regras que protejam e priorizem os direitos sociais.
✔ Tributação progressiva
Reforma
tributária que cobre mais dos mais ricos e amplie a capacidade do Estado
de arrecadar com justiça fiscal.
✔ Transparência e participação
popular
Ampliação
do controle social sobre o orçamento, com fortalecimento de conselhos de
políticas públicas, orçamentos participativos e auditorias cidadãs.
✔ Prioridade constitucional às
políticas sociais
Cumprimento
integral dos preceitos da Constituição de 1988, que reconhece saúde,
educação, assistência e previdência como direitos universais e inegociáveis.
Conclusão
A disputa
pelo fundo público, no contexto de austeridade fiscal, revela o verdadeiro
embate em curso no Brasil: o Estado a serviço do rentismo ou a serviço dos
direitos sociais? A forma como o orçamento é planejado e executado não é
técnica, é política — e seu uso revela que os pobres continuam sendo os
primeiros a pagar a conta da crise fiscal.
Reconstruir
a democracia brasileira passa por resgatar o sentido público e popular do
orçamento, reverter a financeirização do fundo público e colocar a vida,
e não os juros, no centro da política econômica.
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